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Saúde

Cérebro preenche lacunas e cria memórias para manter narrativa coerente

O cérebro altera memórias de forma involuntária para preencher lacunas de informação e criar um sentido fluido sobre os fatos

13/10/2026 02:00
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Ilustração colorida com cérebro humano à mostra e luz forte que ilumina a cabeça humana - Metrópoles.

A memória humana não funciona como uma câmera fotográfica ou uma gravação em vídeo capaz de registrar fatos com precisão absoluta. O cérebro armazena e resgata acontecimentos de forma fragmentada, utilizando mecanismos reconstrutivos para reescrever experiências vividas. Durante a consolidação de uma lembrança, áreas específicas do córtex cerebral guardam separadamente informações visuais, sonoras, olfativas e emocionais. Quando o indivíduo tenta recordar um evento, o hipocampo atua como maestro para reativar essa rede neuronal e remontar o cenário em tempo real.

No entanto, por ser um sistema flexível e plástico, o processo deixa brechas propensas a alterações inconscientes.

Diante de detalhes esquecidos ou ausentes, a mente tende a preencher lacunas automaticamente. A ausência de registros exatos faz com que o córtex pré-frontal e o hipocampo insiram informações plausíveis que façam sentido no contexto.

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Como explica o neurologista e neuroimunologista Thiago Taya, do Hospital Brasília Águas Claras, esse mecanismo ocorre de forma involuntária.

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“O nosso cérebro não se mantém em situações de incompletude de informações, então ele tenta preencher automaticamente com coisas que mais fazem sentido. Como esse processo é inconsciente, na maioria das vezes não percebemos que a memória foi modificada por comodidade e fluidez natural”, afirma.

Quando uma narrativa fictícia é repetida ou associada a forte carga emocional, o cérebro passa a tratá-la como um fato verídico devido à intensidade da ativação sensorial. O neurologista destaca que o cérebro possui um mecanismo de monitoramento de fonte para diferenciar acontecimentos reais de pensamentos, mas essa avaliação pode falhar.

“Se as memórias falsas forem repetidas e sentidas de maneira vívida, podem começar a enganar o julgamento cerebral. O cérebro começa a julgar como real pela intensidade da experiência e não mais pela etiqueta de ter acontecido mesmo ou não”, pontua Taya.

A exposição contínua a fotos antigas, relatos de terceiros ou perguntas sugestivas também é capaz de alterar a percepção do passado. Na infância, momento em que as estruturas cerebrais encarregadas de contextualizar episódios ainda estão em desenvolvimento, a vulnerabilidade a distorções torna-se ainda maior.

Segundo a psicóloga Denise Milk, a incorporação de elementos externos não significa que a pessoa esteja mentindo de má-fé.

“A nossa memória é reconstrutiva. Cada vez que lembramos de alguma coisa, nosso cérebro reorganiza informações, emoções e interpretações. Uma lembrança pode ser emocionalmente muito verdadeira para quem a experimenta, sem necessariamente corresponder à realidade dos fatos”, ressalta Denise.

Essa plasticidade do sistema nervoso desempenha um papel adaptativo fundamental para a sobrevivência e o aprendizado humano. Em vez de operar como um arquivo estático, o cérebro prioriza a identificação de padrões e a resolução de problemas para antecipar cenários e orientar tomadas de decisão.

De acordo com a psicóloga, as distorções são consequências colaterais de uma estrutura moldada para atribuir significado às vivências.

“A principal função da memória não é produzir um registro perfeito do passado, mas nos ajudar a aprender com as experiências e orientar nossas decisões no presente e no futuro. As falsas memórias surgem como consequência de um sistema que prioriza significado, associação e adaptação”, conclui.