Atrofia da atenção: conciliar tarefas com uso do celular é prejudicial
O uso de celular excessivo junto com outras atividades pode prejudicar a memória de trabalho, compreensão de textos e aprendizagem
atualizado
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Você já sentou para ver TV, estudar ou trabalhar e resolveu mexer no celular ao mesmo tempo? À primeira vista, parece ser um ato comum e inofensivo, mas, na verdade, a ação provoca uma fragmentação da atenção, que, com o passar do tempo, pode tornar a concentração profunda por longos períodos uma tarefa complicada.
Apesar de não ser um termo oficial, é como se a combinação do celular com outras atividades é fosse uma atrofia da atenção. Segundo especialistas entrevistados pelo Metrópoles, o desvio de foco pode prejudicar a memória de trabalho, compreensão de textos, aprendizagem, planejamento e o controle inibitório.
“O uso constante do celular pode fazer a pessoa ler mais e entender menos, estudar por mais tempo e não reter tudo, trabalhar com sensação de esforço contínuo e ainda assim produzir com menor profundidade. Além disso, notificações e redes sociais ativam sistemas de recompensa, o que favorece checagens impulsivas e dificulta permanecer em tarefas menos estimulantes”, explica o neurocientista Leandro Oliveira, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB).
Além da diminuição de capacidade cognitiva de raciocínio, a troca constante de foco pode gerar outros sintomas. “A alternância constante entre estímulos exige esforço cognitivo contínuo. O resultado pode ser sensação de exaustão, irritabilidade e menor capacidade de tomar decisões”, aponta a psiquiatra Renata Verna, do Hospital Santa Lúcia Sul, em Brasília.
Por que o cérebro tem dificuldade em realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo
O cérebro humano é um órgão altamente eficiente e capaz de organizar várias informações, porém ele também tem capacidade limitada. Durante ações mais simples, como caminhar e conversar, o cérebro é capaz de fazer mais de uma atividade ao mesmo tempo.
Porém, em tarefas mais sofisticadas, que exigem raciocínio, linguagem, tomada de decisão e memória, o intelecto precisa de concentração total para desempenhar o melhor papel possível.
“Quando alguém responde mensagens enquanto estuda, trabalha ou dirige, não está executando duas tarefas complexas com a mesma qualidade — está alternando rapidamente entre elas. A troca de foco tem um custo: aumenta o tempo para concluir a tarefa, eleva a chance de erro e reduz a profundidade do processamento mental”, avalia o neurocientista.
Segundo Renata, do ponto de vista psiquiátrico, o celular não é o principal agente causador para falhas mentais, mas o uso excessivo ou desregulado dele ajuda a agravar os sintomas.
Como treinar o cérebro para reduzir a dependência de estímulos constantes
Mesmo sendo uma tarefa complicada, é possível “treinar” o cérebro para reorganizá-lo, torná-lo mais eficiente e menos dependente do celular ao realizar outras ações. Entre as principais medidas, estão:
- Silenciar notificações e deixar o celular fora do campo visual durante atividades importantes;
- Separar de 30 a 60 minutos para focar nas atividades sem o uso de celular;
- Definir horários específicos para checar mensagens;
- Diminuir o uso de telas antes de dormir, ao acordar e durante refeições ou conversas;
- Práticas como ler um livro, escrever e fazer atividades físicas também ajudam a manter o foco sem celular.
“O celular não é inimigo da cognição: o problema está no uso fragmentado, automático e contínuo. Quando todas as pausas são ocupadas por telas, o cérebro perde oportunidades de descanso, integração e reflexão. Cuidar da atenção hoje é uma forma de saúde mental preventiva”, conclui Oliveira.