Especialistas explicam como o cérebro reage às falas internas

Frases repetidas para si mesmo podem influenciar emoções, ansiedade e comportamento, explicam especialistas

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Carol Yepes/Getty Images
Ilustração colorida de várias pessoas com engrenagens no cérebro - Neuropsicóloga explica o que realmente significa ter altas habilidades - Metrópoles
1 de 1 Ilustração colorida de várias pessoas com engrenagens no cérebro - Neuropsicóloga explica o que realmente significa ter altas habilidades - Metrópoles - Foto: Carol Yepes/Getty Images

“Eu não consigo”, “Vai dar errado”, “Eu sou capaz”, “Eu quero, eu consigo”. Frases como estas fazem parte da fala interna de muitas pessoas, embora pareçam apenas pensamentos simples e passageiros, podem influenciar a maneira como o cérebro interpreta situações de estresse, insegurança ou autoestima.

A relação entre autoconversa e emoções já vem sendo estudada há muito tempo. Um estudo publicado em 2025 na revista Scientific Reports, por exemplo, analisou como as pessoas usam a fala no dia a dia e observou que determinadas formas de conversar consigo estão associadas a regulação emocional.

Mas isso não significa que o cérebro “acredita em tudo” literalmente. Segundo o neurocientista Carlos Tomaz, o cérebro reage a experiências, memórias, expectativas e emoções comparando situações atuais com vivências anteriores.

“O nosso cérebro pode ser enganado. Quando você está diante de uma situação, pensa sobre aquilo ou repete aquilo, o cérebro muitas vezes compara com experiências já existentes no passado”, explica o neurocientista.

Falar em voz alta tem mais impacto?

A diferença entre apenas pensar e falar em voz alta também pode ser relevante. De acordo com Tomaz, quando uma pessoa verbaliza um pensamento, o cérebro não processa apenas a ideia, mas também o som da própria voz.

“Quando eu faço o pensamento, ele produz um efeito. Quando eu uso mais de uma modalidade sensorial, por exemplo, além do pensamento, eu expresso verbalmente. Existe um circuito de retroalimentação auditiva que vai para o cérebro e afeta outras áreas também”, explica.

Para o neurocientista, falar em voz alta pode ampliar a repercussão daquele pensamento porque envolve mais de uma via sensorial. Quanto mais modalidades participam do processo (pensamento, fala, audição e até imagem) maior pode ser o efeito no cérebro, seja positivo ou negativo.

A psiquiatra Ana Caroline Santana alerta que apesar da influência da fala interna, há risco do tema ser transformado em uma ideia simplista. Ela afirma que pensamentos negativos constantes podem estar ligados a quadros de ansiedade e depressão, mas isso não significa que basta “pensar positivo” para melhorar.

“Essa ideia, além de simplista, pode ser prejudicial. Ela responsabiliza a pessoa pelo próprio sofrimento e ignora que transtornos mentais têm base biológica, social e psicológica. A autocrítica intensa e as ruminações ativam o sistema de ameaça do cérebro, mantendo o organismo em estado de alerta. É um ciclo: a ansiedade gera pensamentos catastróficos, e esses pensamentos retroalimentam a ansiedade. O corpo não distingue bem uma ameaça imaginada de uma real”, explica.

Segundo a médica, a fala interna negativa pode piorar sintomas de ansiedade porque mantém o corpo em alerta. Em casos de depressão, frases motivacionais também podem não funcionar, porque o transtorno afeta áreas ligadas à recompensa, energia e cognição.

“A depressão não é falta de motivação ou de perspectiva positiva. É uma disfunção que afeta o processamento de recompensa, energia e cognição”, diz Ana Caroline.

Pensamentos repetidos podem moldar o cérebro

Tomaz diz que pensamentos e emoções repetitivos podem influenciar circuitos neurais por causa da neuroplasticidade, – capacidade do cérebro de se reorganizar a partir de experiências. Esse processo é especialmente importante em crianças e adolescentes, já que o cérebro ainda está em desenvolvimento.

“A neuroplasticidade, principalmente na juventude, é particularmente elevada. Isso significa que experiências positivas, vínculos seguros, aprendizagem estimulante e apoio social favorecem o fortalecimento de circuitos neurais relacionados ao autocontrole, à cognição e à regulação emocional”, afirma.

O contrário também pode acontecer. Situações de estresse crônico, medo persistente, violência, humilhação, exclusão social, ansiedade e pensamentos negativos recorrentes podem alterar o funcionamento cerebral e manter o organismo em estado de alerta.

A resposta, portanto, não é que o cérebro acredita em tudo de forma literal, mas que ele reage ao que é repetido, sentido e interpretado como ameaça ou segurança. Pensamentos e emoções frequentes podem moldar circuitos neurais pela neuroplasticidade, especialmente quando associados a experiências marcantes.

Ao mesmo tempo, não podemos pegar esse impacto e reduzir o sofrimento psíquico a “falta de pensamento positivo”. A fala interna pode influenciar emoções, ansiedade e comportamento, mas, quando os pensamentos negativos se tornam persistentes e prejudicam a rotina, o ideal é buscar avaliação profissional.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comSaúde

Você quer ficar por dentro das notícias de saúde mais importantes e receber notificações em tempo real?