Saiba se cérebro de pessoas surdas pode transformar silêncio em visão

Na ausência de estímulos sonoros, o cérebro pode reorganizar caminhos para favorecer a atenção visual

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Uso de aparelho auditivo pode ser resposta contra a surdez - Mretrópoles
1 de 1 Uso de aparelho auditivo pode ser resposta contra a surdez - Mretrópoles - Foto: Getty Images

Diante da ausência da audição, o cérebro humano não fica parado. Ele se adapta, reorganiza caminhos e pode usar áreas antes associadas ao som para ajudar na leitura do mundo pela visão. A mudança não significa que pessoas surdas “enxergam melhor” nem que a surdez seja um superpoder.

O que a ciência começa a mostrar é mais complexo: o cérebro pode redistribuir recursos para ampliar formas de percepção, atenção visual e localização de estímulos no ambiente.

Um estudo publicado na revista científica Human Brain Mapping em 6 de fevereiro abriu uma nova perspectiva sobre a plasticidade cerebral em pessoas com surdez congênita. A pesquisa investigou como o cérebro de jovens que nasceram surdos responde a estímulos visuais simples.

Os pesquisadores analisaram a atividade cerebral de jovens com surdez congênita e de jovens ouvintes durante uma tarefa visual. Para isso, usaram ressonância magnética funcional, exame que permite observar quais regiões do cérebro respondem a determinados estímulos.

Durante o experimento, os participantes observavam padrões visuais apresentados em diferentes partes do campo de visão. Nos jovens ouvintes, o resultado seguiu o esperado: o córtex visual foi ativado de acordo com a localização do estímulo, enquanto o córtex auditivo não apresentou modulação relevante.

Entre os jovens surdos, porém, os cientistas observaram algo inesperado. Em vez de maior ativação, o córtex auditivo apresentou uma espécie de “desativação seletiva” quando os estímulos visuais apareciam. Esse sinal não foi considerado ruído: ele seguia um padrão organizado e dependia da localização do estímulo visual. Segundo os autores, isso sugere que áreas privadas do som podem representar informações visuais de forma mais sofisticada do que se imaginava.

O que é a plasticidade cerebral

A plasticidade cerebral é a capacidade do cérebro de se modificar a partir das experiências, dos estímulos e das necessidades de cada pessoa. Em termos simples, é como se o cérebro pudesse criar ou reforçar caminhos para lidar melhor com o ambiente.

O otorrinolaringologista Rogério Hamerschmidt, presidente da Sociedade Brasileira de Otologia (SBO), explica que esse processo é mais intenso nos primeiros anos de vida.

“Para qualquer área no cérebro se desenvolver, ela precisa de estímulo. A área auditiva não é diferente. A capacidade de desenvolver neurônios e sinapses é máxima até os 4 anos de idade”, afirma.

Por isso, segundo o especialista, o diagnóstico precoce de perdas auditivas é essencial, especialmente quando há indicação de aparelho auditivo, terapias fonoaudiológicas ou implante coclear. “Essas pesquisas ajudam a mostrar a importância do teste da orelhinha, do diagnóstico precoce, do tratamento e da estimulação”, diz.

Visão, atenção e ambiente

A reorganização cerebral em pessoas surdas pode estar relacionada a habilidades como atenção visual, percepção periférica e maior sensibilidade a movimentos no ambiente. Isso não quer dizer que a visão seja biologicamente superior, mas que ela pode ser mais treinada e usada como principal via de informação.

“Dizer que o surdo enxerga melhor que o ouvinte é um mito. O cérebro se adapta a essa condição, e os ajustes vão depender das experiências sensoriais que a pessoa surda terá ao longo da vida”, explica a professora Isabella Monteiro de Castro Silva, da área de Audiologia Clínica e Ocupacional da Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo ela, pessoas surdas oralizadas podem desenvolver maior habilidade de leitura orofacial, especialmente em ambientes ruidosos. Já pessoas surdas que usam Libras desde cedo têm a visão como principal base comunicativa. “Não se vê mais, mas as informações visuais trazem ou se transformam em informações diferentes a partir das nossas experiências”, afirma.

Para a professora doutora em Linguística Fabiane Elias Pagy, o mais importante é garantir acesso precoce a uma língua. No Brasil, a Libras é reconhecida por lei e deve ser tratada como língua, não como “linguagem”.

“A ausência de som não impede o desenvolvimento dessas pessoas. Surdez não é uma doença que precise de tratamento ou cura. Ser surdo não torna a pessoa incapaz de fazer algo”, afirma Fabiane. “Basta que essa pessoa, desde a mais tenra idade, tenha acesso a uma língua, idealmente uma língua de sinais, para que seu desenvolvimento siga os mesmos padrões de uma criança que não tenha perda auditiva.”

O estudo ajuda a entender que a plasticidade cerebral não ocorre apenas quando uma área “assume” a função de outra por maior ativação. O cérebro também pode se reorganizar por meio de desativações seletivas, talvez como forma de filtrar informações e otimizar a atenção visual.

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