Estudo aponta que dançar pode sincronizar cérebros de parceiros
Estudo mostra que cérebros de dançarinos podem se alinhar quando os movimentos da dupla entram no mesmo ritmo
atualizado
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A conexão entre dois dançarinos pode ser mais profunda do que parece. Além da música, do ritmo e dos passos compartilhados, os cérebros de quem dança em sintonia também podem se alinhar. É o que sugere um estudo da Universidade do Colorado em Boulder, nos Estados Unidos, publicado em março pela Association for Computing Machinery.
A pesquisa analisou duplas de tango argentino, uma dança caracterizada pela proximidade física, pela improvisação e comunicação sem palavras. Diferente de coreografias ensaiadas, o tango exige que o líder e conduzido interpretem sinais sutis do corpo do parceiro, como uma leve pressão nas mãos, uma mudança no tronco ou o deslocamento do peso corporal.
Para entender o que acontece no cérebro durante essa interação, os cientistas colocaram toucas de eletroencefalograma (EEG) em cinco duplas de dançarinos experientes. O equipamento mede a atividade elétrica cerebral. Os participantes também usaram sensores de movimento nos tornozelos, permitindo que os pesquisadores acompanhassem a precisão dos passos durante a dança.
O principal resultado foi que, quando os movimentos dos parceiros estavam sincronizados, as ondas cerebrais dos dois também apresentavam padrões semelhantes. Esse fenômeno é chamado pelos cientistas de “acoplamento entre cérebros” ou sincronização neural.
“Quando dançamos, nossos cérebros estão realmente se acoplando. Ou seja, estamos sincronizando nossos cérebros por meio do nosso comportamento”, afirmou Thiago Roque, estudante de pós-graduação do Instituto ATLAS e líder do estudo.
Como os cérebros entram no ritmo
O cérebro produz sinais elétricos conhecidos como ondas cerebrais. Elas aparecem em diferentes frequências e estão relacionadas a estados como concentração, atenção e relaxamento. No estudo, os pesquisadores observaram que essas ondas tendiam a se alinhar quando os passos da dupla aconteciam de forma coordenada.

Um exemplo citado pela equipe foi o momento em que o líder dava um passo à frente e o parceiro respondia quase imediatamente, em até 200 milissegundos, com um passo para trás. Nesses casos, a atividade cerebral dos dois subia e descia em ritmos parecidos.
Quando os movimentos não estavam sincronizados, o mesmo padrão não aparecia. A tendência foi observada em diferentes tipos de ondas cerebrais, incluindo as ondas beta, associadas à concentração, e as ondas teta, mais relacionadas ao relaxamento.
Segundo os pesquisadores, estudos anteriores já haviam identificado padrões semelhantes em atividades sociais, como tocar música em dupla. No entanto, a nova pesquisa amplia essa observação para a dança, uma prática que combina movimento, contato físico, atenção ao outro e comunicação corporal.
Tango exige escuta do corpo
A escolha do tango argentino foi central para o estudo. A dança depende de uma interação constante entre os parceiros, que precisam ajustar os movimentos em tempo real. Como os passos geralmente são improvisados, não basta decorar uma sequência. É preciso perceber o corpo do outro e responder rapidamente.
Ruojia Sun, coautora da pesquisa e também dançarina, participou do experimento. Ela começou a dançar tango há cinco anos, quando se mudou para Boulder, e afirma que a prática se tornou uma forma intensa de conexão com outras pessoas. “É uma forma realmente interessante de se conectar com outro ser humano”, afirmou a pesquisadora.
Para os cientistas, os resultados ajudam a explicar por que atividades coletivas como a dança, a música e os esportes em equipe podem gerar sensação de vínculo, cooperação e pertencimento. Além de observar a atividade cerebral dos dançarinos, a equipe desenvolveu um dispositivo vestível de biofeedback.
A ferramenta, usada no pulso, vibrava com mais intensidade quando as ondas cerebrais da dupla se alinhavam.
Ruojia testou o equipamento com seu parceiro de tango. Segundo ela, a vibração podia distrair quando os dois não estavam em sincronia. Mas, quando a dupla estava coordenada, o estímulo parecia reforçar a sensação de conexão.
O dispositivo ainda está em fase inicial, mas os pesquisadores acreditam que tecnologias semelhantes poderão ser usadas no futuro em atividades que exigem coordenação sem fala, como aprendizado musical, esportes coletivos e treinamentos em grupo.
Para Roque, tornar sinais inconscientes mais perceptíveis pode ajudar humanos a compreender melhor o comportamento uns dos outros.
