Apneia do sono piora perda muscular em pessoas com DPOC, mostra estudo
Estudo brasileiro mostra que combinação das duas doenças reduz força e capacidade física e aumenta riscos para pacientes
atualizado
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A presença de apneia do sono pode agravar a perda de força muscular em pessoas com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), condição respiratória que causa dificuldade para respirar e limita atividades do dia a dia. É o que aponta um estudo publicado na revista Scientific Reports em dezembro de 2025.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e analisou pacientes com DPOC isolada e pacientes que também tinham síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS), condição caracterizada por interrupções repetidas da respiração durante o sono.
Segundo a pesquisadora Audrey Borghi Silva, coordenadora do Laboratório de Fisioterapia Cardiopulmonar da universidade, a combinação das duas doenças amplia os efeitos da DPOC no organismo.
“Embora seja geralmente associada apenas à função pulmonar, a doença pulmonar obstrutiva crônica é sistêmica e tem impactos em diferentes partes do organismo. Quando combinada com a apneia do sono, os danos musculares se agravam, levando à perda de força e a desfechos clínicos mais graves, como hospitalizações e maior risco de morte”, afirma a pesquisadora, em comunicado.
Diferenças na força e na capacidade física
O estudo avaliou 44 pessoas, divididas em dois grupos iguais. Metade tinha apenas DPOC e a outra metade apresentava as duas condições ao mesmo tempo.
Os pesquisadores observaram diferenças no desempenho físico entre os grupos. Um dos indicadores analisados foi a força de preensão palmar, medida que avalia a força muscular geral.
Nos pacientes com as duas doenças, a média foi de 26 quilograma-força, enquanto no grupo com DPOC isolada chegou a 30 quilograma-força, indicando menor força muscular.
Outro teste utilizado foi o de caminhada de seis minutos, que mede a capacidade funcional. Os pacientes com DPOC associada à apneia do sono caminharam em média 300 metros, enquanto aqueles com apenas DPOC percorreram cerca de 364 metros.
Distâncias menores que 350 metros nesse exame estão associadas a maior risco de hospitalizações e mortalidade, o que reforça o impacto da combinação das duas doenças na saúde dos pacientes.
O que acontece durante o sono
A gravidade da apneia do sono costuma ser avaliada pelo índice de apneia e hipopneia, que indica quantas vezes a respiração é interrompida ao longo de uma hora de sono.
No entanto, os pesquisadores identificaram que outro fator teve relação mais forte com a piora muscular. Trata-se do índice de dessaturação de oxigênio, que mede a frequência com que os níveis de oxigênio no sangue caem durante a noite.
Segundo Patrícia Faria Camargo, pesquisadora responsável pelo estudo, as quedas repetidas de oxigênio parecem ter papel central nesse processo.
“A magnitude da queda de oxigênio durante o sono mostrou associação mais forte com a qualidade muscular e com o desempenho funcional do que a frequência das pausas respiratórias”, explica.
De acordo com ela, a redução repetida da oxigenação pode desencadear inflamação sistêmica, estresse oxidativo e alterações metabólicas nas células musculares.
Inflamação e enfraquecimento progressivo
Tanto a DPOC quanto a apneia do sono já são conhecidas por provocar inflamação no organismo e aumentar o estresse oxidativo. Quando ocorrem juntas, esses efeitos podem se intensificar.
Segundo os pesquisadores, esse processo pode afetar as mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia nas células. Com isso, a capacidade de contração e regeneração muscular fica comprometida.
O resultado pode ser um ciclo progressivo de perda de força e limitação funcional, o que exige acompanhamento médico contínuo.
Os cientistas também destacam a importância de investigar distúrbios do sono em pessoas com DPOC. Identificar e tratar a apneia do sono pode ajudar a reduzir os impactos da doença e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Embora a DPOC não tenha cura, ela pode ser controlada com medicamentos, abandono do tabagismo e mudanças no estilo de vida, como prática regular de exercícios e alimentação equilibrada.
Já a apneia do sono costuma ser tratada com dispositivos que mantêm as vias aéreas abertas durante a noite, além de medidas comportamentais como evitar álcool antes de dormir e manter bons hábitos de sono.
