USP Ribeirão aprova demissão de professor acusado de assédio sexual
Congregação da FFCLRP-USP aprovou penalidade máxima para docente ao fim de processo administrativo disciplinar (PAD)
atualizado
Compartilhar notícia

A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP) aprovou, nesta quinta-feira (12/3), a demissão do professor José Maurício Rosolen, acusado de assédio sexual contra estudantes da universidade. Ele havia acabado de retornar para a faculdade, sob o protesto de alunos, após ficar em um ano afastado enquanto aconteciam as investigações sobre as denúncias.
A decisão sobre a demissão do professor foi submetida a uma votação entre os conselheiros que fazem parte da Congregação, considerada a instância máxima de decisão dentro da faculdade. A demissão foi aprovada quase por unanimidade e contou com apenas uma abstenção.
Os conselheiros também votaram, em unanimidade, por encaminhar o material reunido no processo administrativo disciplinar contra o docente para a Polícia Civil.
A reunião que aprovou as medidas foi convocada de forma extraordinária após a diretoria da faculdade receber o parecer da Procuradoria Geral da USP sobre o caso. A diretoria afirmou que o conjunto probatório mostrou “de forma inequívoca” a materialidade das infrações disciplinares, e defendeu que fosse aplicada a pena máxima contra o professor.
“Diante da pluralidade de vítimas, da reiteração das condutas ao longo dos anos e do severo impacto negativo do ambiente acadêmico e na vida das pessoas ofendidas, a aplicação da penalidade máxima se impõe como medida necessária e proporcional”, diz um parecer da diretoria após receber a conclusão do processo administrativo da Procuradoria da USP.
A Procuradoria também se manifestou, mencionando a gravidade dos fatos, pelo encaminhamento de cópia integral dos autos à autoridade policial.
A demissão de Rosolen ainda precisa ser oficializada pelo reitor da USP, a quem cabe executar o ato administrativo.
Relembre o caso
- Em 2025, a FFCLRP abriu um processo administrativo disciplinar (PAD) para apurar as denúncias envolvendo o professor, que acabou afastado das salas de aula e laboratórios.
- O afastamento era de 180 dias, prorrogáveis pelo mesmo período de tempo.
- Na época, estudantes atuais e egressos da instituição afirmaram terem sido vítimas de assédio sexual.
- Alguns alunos também levantaram suspeitas sobre uma má conduta do docente no dia-a-dia dos laboratórios de pesquisa (entenda melhor abaixo).
- Após as denúncias virem à tona, a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Ribeirão Preto também abriu um inquérito para apurar o caso.
Passado um ano do afastamento, período máximo permitido, o professor tinha voltado às atividades neste início de ano. Alunos do curso de química, onde o professor atua, chegaram a aprovar uma paralisação em protesto contra o retorno de Rosolen.
“Casos de assédio não podem ser normalizados dentro da universidade”, dizia um texto publicado pelo Centro Estudantil da Química (CENEQui) nas redes sociais.
Mãos no corpo
Ex-alunas que foram ouvidas pelo Metrópoles contaram episódios de assédios que enfrentaram. Uma mulher, que afirma ter sido vítima do professor entre 2022 e 2023, contou que Rosolen tinha uma “má-fama” entre as alunas. “A gente tomava cuidado no laboratório para não deixar nenhuma mulher sozinha com ele”, lembra.
Ela, que pediu para não ter a identidade revelada, disse ter presenciado pelo menos três situações em que o professor tocou nos corpos de alunas ao passar ao lado delas em uma espécie de corredor do laboratório, entre uma bancada e a parede.
“A pia do laboratório fica no meio, então as pessoas passam atrás de você. Tem uns 80 centímetros, todos nós conseguíamos passar ali sem tocar uns nos outros. A não ser ele. Ele tinha que passar a mão na cintura de alguém.”
Quando questionado, o professor dizia que, segundo ela, que não tinha nada de mais na situação. Uma das estudantes teria sido chamada de “sensível” por Rosolen, por reclamar dos toques.
A química Luiza Knittel, de 38 anos, também diz ter sido vítima do professor. Ao Metrópoles, ela contou que passou a conviver com Rosolen em 2024, quando foi selecionada para participar do grupo de pesquisa dele. As atitudes do professor, no entanto, teriam tornado a rotina de trabalho cada vez mais desconfortável.
No início, Luiza diz que Rosolen fazia comentários inapropriados, como sugestões de que ela o levasse para jantar ao receber o pagamento pela bolsa de pesquisa, e de que os dois fossem juntos assistir a um musical no Dia dos Namorados. Ela sempre buscava desconversar ou inventar um compromisso.
Depois, o assédio passou a ser físico. Luiza disse que Rosolen se aproximava quando ela estava no computador, sentava ao seu lado e começava a tocar sua perna.
“Ele ia comentar alguma coisa e cutucava a minha coxa. Na terceira vez que ele cutucava, ele deixava a mão”.
Um dia, ela disse que estava com um molho de chaves para tentar abrir um armário. Rosolen teria, então, se aproximado, segurado sua mão e começado a acariciá-la enquanto dizia para que ela não misturasse as chaves.
“Ele pegou na minha mão, começou a fazer carinho e não soltou. Nesse dia, eu fiz um movimento brusco, olhei muito feio para ele, virei as costas e saí andando.”
Segundo Luiza, depois da reação dela nesse dia, o professor teria passado a assediá-la moralmente. Ela cita, por exemplo, que o docente teria se negado a comprar um equipamento novo depois que aquele que ela utilizava quebrou. A falta do equipamento teria prejudicado sua pesquisa.
O Metrópoles não conseguiu contato com Rosolen. O espaço segue aberto para manifestação. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que o inquérito aberto pela DDM de Ribeirão para investigar o docente foi concluído e relatado à Justiça em setembro de 2025. “Outros questionamentos devem ser direcionados ao Poder Judiciário”, termina a nota.
















