Unip/Objetivo: entenda esquema que tentou golpe de R$ 845 milhões
Grupo alvo de operação do MPSP e da Polícia Civil falsificou assinaturas para simular contrato com empresário João Carlos Di Genio
atualizado
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O grupo suspeito de tentar desviar R$ 845 milhões da herança do empresário João Carlos Di Genio, fundador do Grupo Objetivo e da Universidade Paulista (Unip), foi alvo de uma operação nesta terça-feira (31/3). Ao todo, nove mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão foram cumpridos pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) em conjunto com a Polícia Civil.
Segundo a investigação, os suspeitos possuem longo histórico criminal e se valeram de documentos falsos, fraude processual, corrupção e simularam procedimentos arbitrais, para fazer o esquema de cobranças milionárias indevidas parecer legal.
Como funcionava o esquema
Segundo a investigação do MPSP, o esquema de desvio do espólio de João Carlos Di Genio começou em novembro de 2021, poucos meses antes da morte do empresário bilionário. À época, os suspeitos forjaram documentos para simular que Di Genio teria celebrado um compromisso de compra e venda com a empresa Colonizadora Planalto Paulista.
Laudos periciais confirmaram que as assinaturas do empresário e de seu procurador foram falsificadas por meio de decalque e montagem. Foram fabricados contratos envolvendo 448 imóveis em Piraju, no interior de São Paulo, além de uma nota promissória de R$ 635 milhões e termos de entrega de posse, todos com assinaturas falsas.
Em agosto de 2024, o grupo investigado teria notificado o espólio do empresário exigindo o pagamento da suposta dívida, no valor de R$ 845 milhões.
No entanto, a viúva de Di Genio, Sandra Rejane Gomes Miessa — que administra o espólio do empresário — negou a dívida e alegou desconhecer o negócio. Então, o grupo tentou induzir o Poder Judiciário em erro ao protocolar um pedido de habilitação de crédito no processo de inventário. Embora tenham conseguido inicialmente a reserva do valor, a decisão foi posteriormente desconstituída pelo Tribunal de Justiça (TJSP) devido aos indícios de fraude.
Em nota enviada ao Metrópoles, Sandra Miessa ressaltou que os fatos foram comunicados às autoridades competentes, com todas as provas até então disponíveis.
“Destaca-se, por fim, a confiança no trabalho das autoridades para cabal elucidação dos fatos e responsabilização dos envolvidos”, termina a nota de Miessa.
Alvos da operação
O MPSP e a Polícia Civil cumpriram nove mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão, além do sequestro de bens e ativos financeiros dos investigados. Até o momento da publicação desta reportagem, as autoridades não haviam confirmado as prisões ou informado o balanço de apreensões.
São os alvos:
- Anani Candido de Lara: sócio da empresa, também investigada, Colonizadora Planalto Paulista, apontado como figura central na fraude, responsável por confeccionar documentos e participar diretamente da cadeia contratual fraudada.
- Luiz Teixeira da Silva Júnior: detentor de 95% do capital social da Colonizadora Planalto Paulista e, segundo a investigação, teria dado sustentação financeira e jurídica à fraude. O suspeito é conhecido do noticiário, visto que foi alvo de uma operação da Polícia Federal em 2019, que apontou ligação do investigado com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
- Aline Cordeiro de Oliveira Boaventura: apontada como a suposta “juíza arbitral” da Fonamsp (Fórum de Negócios e Finanças Internacionais e Nacionais por Arbitragem e Mediação Ltda), sendo a autora da sentença arbitral simulada que gerou a cobrança milionária.
- Rubens Maurício Bolorino: aparece como testemunha nos contratos falsificados para dar aparência de veracidade ao negócio.
- Wagner Rossi Silva: identificado pela investigação como o operador logístico, responsável pelo manuseio dos documentos falsos e diligências em cartórios.
- Patricia Alejandra Ormart Barreto: apontada como suspeita de simular notificações fraudulentas para forçar revelia do espólio.
- Jorge Alberto Rodrigues de Oliveira: responsável por intermediar contatos e facilitar a narrativa de que a negociação era legítima.
- Camila Mariana Alejandra Piaggio Nogueira Ormat: investigação aponta participação dela na estruturação formal dos documentos usados na arbitragem.
- Carlos Xavier Lopes: autoridades acreditam que ele estava envolvido no núcleo financeiro, atuando na dissimulação da origem e destino de recursos.
Também foram alvos Luiza Marcsicana de Freitas e as empresas Colonizadora Planalto Paulista, que alegava ser a credora da dívida bilionária baseada em um negócio imobiliário inexistente, e Fonamsp, entidade arbitral de fachada utilizada para fabricar o título executivo.
Laudo falso de Guilherme boulos
Um dos alvos da operação, o médico Luiz Teixeira da Silva Junior, já foi acusado de ter falsificado a assinatura constante no laudo médico divulgado por Pablo Marçal (União Brasil) contra o então candidato à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos (PSol). Marçal era adversário de Boulos nas eleições municipais de 2024 e o documento falso imputava ao candidato do PSol o uso de cocaína.
Luiz Teixeira é dono da clínica Mais Consultas, junto com a esposa, Liliane Bernardo Rios da Silva, e amigo pessoal de Marçal. Os dois já tinham sido alvos de uma operação da Polícia Federal (PF) em 2019, por fraude e desvio de cerca de R$ 20 milhões da área da saúde. O casal chegou a ficar dois anos foragido da Justiça.
O esquema de corrupção descoberto em 2019, segundo as investigações, envolveu as cidades de Barueri, Cajamar, Campo Limpo e São Roque, em São Paulo. Luiz Teixeira e Liliane estavam hospedados em um hotel de luxo em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, quando foram presos.
Além disso, a promotoria apontou, baseando-se em matéria publicada pela coluna Paulo Cappelli, do Metrópoles, que o Supremo Tribunal Federal (STF) indicou, em uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, a existência de indício de conexão de Luiz Teixeira com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
