Unip/Objetivo: alvo de operação falsificou laudo médico contra Boulos
O médico Luiz Teixeira é acusado de fazer parte de um grupo que tentou desviar R$ 845 milhões da herança do fundador do grupo Unip/Objetivo
atualizado
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O médico Luiz Teixeira da Silva Junior, um dos alvos da operação do Ministério Público de São Paulo (MPSP) que investiga um grupo suspeito de tentar desviar R$ 845 milhões da herança de João Carlos Di Genio, fundador do grupo Unip/Objetivo, já foi acusado de ter falsificado a assinatura constante no laudo médico divulgado por Pablo Marçal (União Brasil) contra o então candidato à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos (PSol). Marçal era adversário de Boulos nas eleições municipais de 2024 e o documento falso imputava ao candidato do PSol o uso de cocaína.
Luiz Teixeira é dono da clínica Mais Consultas, junto com a esposa, Liliane Bernardo Rios da Silva, e amigo pessoal de Marçal. Os dois já tinham sido alvos de uma operação da Polícia Federal (PF) em 2019, por fraude e desvio de cerca de R$ 20 milhões da área da saúde. O casal chegou a ficar dois anos foragido da Justiça.
O esquema de corrupção descoberto em 2019, segundo as investigações, envolveu as cidades de Barueri, Cajamar, Campo Limpo e São Roque, em São Paulo. Luiz Teixeira e Liliane estavam hospedados em um hotel de luxo em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, quando foram presos.
Além disso, a promotoria apontou, baseando-se em matéria publicada pela coluna Paulo Cappelli, do Metrópoles, que o Supremo Tribunal Federal (STF) indicou, em uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, a existência de indício de conexão de Luiz Teixeira com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
Além do médico, outras oito pessoas são alvos de mandados de prisão preventiva nesta terça-feira (31/3).
Veja os alvos:
- Anani Candido de Lara: sócio da empresa, também investigada, Colonizadora Planalto Paulista, apontado como figura central na fraude, responsável por confeccionar documentos e participar diretamente da cadeia contratual fraudada.
- Luiz Teixeira da Silva Júnior: detentor de 95% do capital social da Colonizadora Planalto Paulista e, segundo a investigação, teria dado sustentação financeira e jurídica à fraude. O suspeito é conhecido do noticiário, visto que foi alvo de uma operação da Polícia Federal em 2019, que apontou ligação do investigado com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
- Aline Cordeiro de Oliveira Boaventura: apontada como a suposta “juíza arbitral” da Fonamsp (Fórum de Negócios e Finanças Internacionais e Nacionais por Arbitragem e Mediação Ltda), sendo a autora da sentença arbitral simulada que gerou a cobrança milionária.
- Rubens Maurício Bolorino: aparece como testemunha nos contratos falsificados para dar aparência de veracidade ao negócio.
- Wagner Rossi Silva: identificado pela investigação como o operador logístico, responsável pelo manuseio dos documentos falsos e diligências em cartórios.
- Patricia Alejandra Ormart Barreto: apontada como suspeita de simular notificações fraudulentas para forçar revelia do espólio.
- Jorge Alberto Rodrigues de Oliveira: responsável por intermediar contatos e facilitar a narrativa de que a negociação era legítima.
- Camila Mariana Alejandra Piaggio Nogueira Ormat: investigação aponta participação dela na estruturação formal dos documentos usados na arbitragem.
- Carlos Xavier Lopes: autoridades acreditam que ele estava envolvido no núcleo financeiro, atuando na dissimulação da origem e destino de recursos.
Também foram alvos de mandados de busca e apreensão Luiza Marcsicana de Freitas e as pessoas jurídicas Colonizadora Planalto Paulista, empresa que alegava ser a credora da dívida bilionária baseada em um negócio imobiliário inexistente, e a Fonamsp, entidade arbitral de fachada utilizada para fabricar o título executivo.
Até o momento desta publicação, ainda não havia a confirmação de presos durante a operação.
Como funcionava o esquema
O grupo investigado tentou desviar quantia milionária da herança do empresário João Carlos Di Genio, dono do Unip/Objetivo, forjando uma dívida pendente relacionada a uma suposta compra de imóvel.
Segundo a investigação do MPSP, o esquema começou em novembro de 2021, poucos meses antes da morte do empresário bilionário. À época, os investigados forjaram documentos para simular que Di Genio teria celebrado um compromisso de compra e venda com a empresa Colonizadora Planalto Paulista.
Laudos periciais confirmaram que as assinaturas do empresário e de seu procurador foram falsificadas por meio de decalque e montagem. Foram fabricados contratos envolvendo 448 imóveis em Piraju, no interior de São Paulo, além de uma nota promissória de R$ 635 milhões e termos de entrega de posse, todos com assinaturas falsas.
Em agosto de 2024, o grupo investigado teria notificado o espólio do empresário exigindo o pagamento da suposta dívida, no valor de R$ 845 milhões. Diante da negativa e do desconhecimento do negócio pela inventariante, o grupo tentou induzir o Poder Judiciário em erro ao protocolar um pedido de habilitação de crédito no processo de inventário. Embora tenham conseguido inicialmente a reserva do valor, a decisão foi posteriormente desconstituída pelo Tribunal de Justiça (TJSP) devido aos indícios de fraude.
Segundo a promotoria, as investigações apontam que suspeitos, com longo histórico criminal, se valeram de documentos falsos, fraude processual, corrupção e simularam procedimentos arbitrais, para fazer um esquema de cobranças milionárias indevidas parecer legal.
Viúva comunicou suspeitas
Em nota ao Metrópoles, a viúva de Di Genio, Sandra Rejane Gomes Miessa, ressaltou que tomou conhecimento, em meados 2025, de que terceiros estariam cobrando valores milionários, com base em operação imobiliária inexistente, forjada com a utilização de assinaturas falsificadas e outros expedientes ilícitos.
Os fatos, segundo ela, que é inventariante do espólio do empresário, foram devidamente comunicados às autoridades competentes, com todas as provas até então disponíveis.
“Destaca-se, por fim, a confiança no trabalho das autoridades para cabal elucidação dos fatos e responsabilização dos envolvidos”, termina a nota de Miessa.
