Tarcísio defende autonomia da polícia após Nunes citar “perseguição”

Polícia Civil investiga contrato da prefeitura com empresa de dona da produtora de filme de Bolsonaro. Nunes alega “perseguição política”

atualizado

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Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo - Metrópoles
1 de 1 Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo - Metrópoles - Foto: Rebeca Ligabue/Metrópoles

Após o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), reclamar da operação da Polícia Civil que apontou suspeitas em contrato com a gestão municipal para instalação de pontos de wi-fi na capital paulista, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) defendeu, nesta terça-feira (2/6), a autonomia da corporação.

“Operação da polícia é uma coisa que a gente não interfere. A polícia tem autonomia para fazer as suas investigações, para fazer as suas operações, é uma instituição de Estado. Havia uma investigação em curso, uma demanda do Ministério Público e a polícia cumpriu, e, portanto, tivemos a operação. Sempre vai ser assim”, disse Tarcísio durante coletiva de imprensa em evento de duplicação de rodovia, entre Araras e Rio Claro, no interior do estado.

Nessa segunda-feira (1º/6), o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), defendeu a entidade que firmou contrato com a prefeitura no valor de R$ 108 milhões, o Instituto Conhecer Brasil (ICB), que é representado por Karina Ferreira da Gama, também dona da produtora Go Up Entertainment, que produziu a polêmica cinebiografia de Jair Bolsonaro, Dark Horse.

Ao ser questionado por jornalistas, Nunes tentou afastar as suspeitas que pairam sobre o contrato da prefeitura com o ICB, citando a possibilidade de ter havido uma “perseguição política”. Tanto Karina quanto o ICB e a Go Up foram alvos de um mandado de busca e apreensãoda Polícia Civil.

As autoridades apuram possíveis irregularidades no termo de colaboração firmado entre a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) e o instituto para a contratação e instalação de wi-fi em comunidades periféricas da cidadeAs investigações apontaram uma série de falhas consideradas graves e indícios de conduta ilegal desde a origem da contratação.

O inquérito aberto busca entender se parte da verba dos cofres paulistanos também teria sido utilizada para financiar a obra audiovisual.

“Eu acho [que Karina é] uma pessoa decente, uma mulher trabalhadora. Uma mulher que, como qualquer outra, está batalhando, e que conhece o Bolsonaro, então está passando por isso”, afirmou o prefeito, em entrevista a jornalistas.

Segundo a Polícia Civil, enquanto a empresa pública Prodam cobrava R$ 306 pela manutenção mensal por ponto, o acordo com o ICB estipulou o pagamento de R$ 1.800 fixos por ponto, um valor injustificadamente superior aos parâmetros de mercado, de acordo com a investigação.

Além de endereços ligados à produtora de Karina, a polícia também realizou buscas na sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, comandada atualmente por Humberto de Alencar.

Ecossistema investigado pelo STF

Nunes negou que exista verba municipal no financiamento da produção. “Estão [Polícia Civil do governo paulista] indo atrás de um contrato com a Prefeitura de 2024 por causa do filme? Aí é grave, é perseguição política”, disse o emedebista. “Eu tenho empresa de embalagem, tenho fazenda, tenho várias atividades, e eu sou prefeito. Qual o problema da pessoa ter várias atividades? Se é essa a motivação [a relação de Karina com o filme], aí eu acho grave.”

A suspeita de que o filme esteja no centro de um ecossistema para abastecer cofres ligados à família Bolsonaro é compartilhada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Flávio Dino abriu uma apuração preliminar para saber se emendas parlamentares de deputados do PL de São Paulo estariam sendo direcionadas para entidades controladas pela produtora.

A determinação de Dino ocorreu após a divulgação do áudio em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pede dinheiro ao então banqueiro Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master, para financiar a produção do filme sobre Jair. Segundo o site The Intercept, o acordo previa R$ 134 milhões do Master para a produção, e mais de R$ 60 milhões foram enviados ao fundo Havengate, constituído nos Estados Unidos e administrado por um dos advogados do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que mora no Texas.

A Polícia Federal (PF) apura se o recurso enviado por Vorcaro por meio do fundo foi usado para bancar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O filho 03 de Bolsonaro vive no Texas desde o fim de fevereiro. Ele nega que tenha sido financiado pelo dono do Master.


Entenda as suspeitas

  • Falta de capacidade técnica: a polícia apontou que o chamamento público teve a participação exclusiva do ICB, entidade considerada sem experiência no setor de telecomunicações, com atuações somente em feiras de livros e eventos religiosos.
  • Superfaturamento: enquanto a empresa pública Prodam cobrava R$ 306 pela manutenção mensal por ponto, o acordo com o ICB estipulou o pagamento de R$ 1.800 fixos por ponto, um valor injustificadamente superior aos parâmetros de mercado.
  • Descumprimento de metas e fraude em aditivos: a entidade instalou apenas 3.200 dos 5.000 pontos previstos. Para ocultar a demora, foram celebrados três termos aditivos em intervalos de poucos dias.
  • Pagamentos indevidos e antecipados: a administração municipal teria realizado a antecipação de R$ 26 milhões sem a devida contraprestação. Foram identificados repasses relativos a 3.200 pontos, quando, na realidade, apenas seis funcionavam no período.

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