Queixas por barulho explodem em SP e moradores criticam ruído de obras

Número de queixas ao Psiu por causa do barulho em São Paulo cresceu 18% no 1º trimestre e vizinhos de obras relatam rotina insuportável

atualizado

metropoles.com

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William Cardoso/Metrópoles
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1 de 1 Imagem mostra rua com obra ao fundo - Metrópoles - Foto: William Cardoso/Metrópoles

O número de reclamações feitas ao Programa Silêncio Urbano (Psiu) cresceu 18% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com igual período de 2025. As queixas são feitas por moradores de São Paulo que buscam na fiscalização da prefeitura uma forma de encerrar os transtornos causados pelo barulho. Entre os bairros com mais queixas estão aqueles que têm sofrido modificação profunda provocada pelo mercado imobiliário.

Segundo os dados da própria Prefeitura de São Paulo, foram 12.848 reclamações registradas de janeiro a março deste ano, via 156. Em média, paulistanos fizeram uma queixa ao Psiu a cada 10 minutos no primeiro trimestre do ano. O atendimento a essas reclamações tem ocorrido em ritmo lento, já que 76% dos chamados realizados no período seguiam em aberto até o início da semana passada, de acordo com a planilha da própria administração municipal, que apresenta outros números em resposta à reportagem.

Os números da prefeitura não trazem detalhamento sobre o motivo do contato ou qual a fonte do barulho. No ranking dos bairros mais afetados, surgem no topo a Sé, seguida por Vila Prudente, Pinheiros, Lapa, Mooca e Vila Mariana, todos imersos na ruidosa construção de prédios, como relatam os moradores.

Dia e noite

Vizinhos da Rua Desembargador Eliseu Guilherme, no Paraíso, relatam que os problemas com uma obra em andamento no local começaram em 2025. As demolições de casas que dariam espaço para a construção do prédio ocorriam ainda antes das 7h.

Desesperados, eles tentaram um acordo com a construtora para que os trabalhos se iniciassem a partir das 8h. O pedido foi atendido no primeiro dia, mas a trégua durou pouco. Hoje, eles convivem com barulho dia e noite.

Durante o dia, é a obra em si que tira o sossego das pessoas. Por volta das 22h, ocorre a entrega de material, com mais ruído. O barulho avança madrugada adentro, com caminhões que recolhem terra, entre outros materiais, quando os moradores querem dormir. “É 24h. Se fosse obra pública, para o bem comum, até entenderia. Mas o benefício é para uma minoria que terá acesso a esse tipo de apartamento milionário para se comprar”, afirma a gerente de produto Rose Escobar, 41 anos.

Sem janelas antirruído e com a paciência esgotada, Rose diz que o setor da construção tem amparo, enquanto o restante da população fica sem apoio. “Também pago impostos, moro aqui há 26 anos, é uma vida, e não estou conseguindo dormir há três noites. Há três noites eles chegam, fazem barulho, essa arruaça, e saem impunes”, afirma.

Vizinha de Rose, a auxiliar jurídico Carmem Ruth Pimentel Bastos, 51 anos, afirma que chegou a ouvir de um operário que, por ser um bairro próximo à Paulista, área comercial, a obra poderá funcionar à noite para descarregamento. “Portanto, a gente está sendo obrigada a conviver com esse barulho.”

A historiadora e professora Maite Ciancaglini, 64 anos, vive ao lado da construção, no segundo andar, e conta que a vida se tornou insuportável, além de afetar seu próprio sustento. Ela dá aulas on-line de espanhol, mas o ruído a obrigou a suspendê-las. “Mesmo com fone, não tenho como abafar o barulho que vem de fora. Tive que suspender por um tempinho. Isso mexe com o meu orçamento, com meu dinheiro”, afirma.

Manifesto

O bairro de Pinheiros, na zona oeste, é um dos mais afetados pelos transtornos causados pelo mercado imobiliário. O barulho das obras é constante, o que se reflete em parte nos números do Psiu, com mais de 748 chamados abertos nos três primeiros meses do ano referentes a queixas sobre ruído em geral.

Questionado pelo Metrópoles, o movimento Pró-Pinheiros divulgou um “Manifesto pelo Direito ao Silêncio”. “Em Pinheiros, o barulho de obras deixou de ser uma eventualidade para se tornar uma condição permanente de vida”, diz.

O movimento afirma que os problemas enfrentados no bairro são consequência direta da revisão de zoneamento, de 2024, com um modelo de adensamento acelerado. “O que a legislação tratou como oportunidade de desenvolvimento, os moradores experimentam como degradação cotidiana: insônia, dificuldade de concentração, ansiedade, e um estado de alerta que não cessa”, diz o manifesto.

O Pró-Pinheiros também diz que, embora a legislação determine horários e limites de ruído, o efeito no bairro é cumulativo, pelo excesso de canteiros de obras. “A fiscalização, quando acontece, responde ao episódio pontual. O problema estrutural segue sem resposta”, afirma.

Diante dos problemas, o movimento pede avaliação de impacto sonoro cumulativo ao se licenciar novas obras, cronograma público de obras por bairro, estudo sobre o quadro de fiscais e alocação de recursos humanos e orçamentários para isso, além de canal de registro e resposta rápida para o problema.

O Pró-Pinheiros também diz que não questiona a necessidade de crescimento da cidade, mas como isso é feito.

Irritação

A professora Fabiana Futata Marechal, de 47 anos, vive com o marido na Rua Alexandre Buairide, uma pequena travessa entre a Aclimação e a Vila Mariana, e passou a conviver com obras que tomam quarteirões inteiros nas proximidades da Rua Bartolomeu de Gusmão.

Fabiana diz que o local era tranquilo, silencioso, mesmo em meio ao ritmo frenético de São Paulo. Entretanto, com o início das obras dos novos edifícios, tudo mudou. A situação é insuportável, principalmente pelo fato de que ela e o marido trabalham em casa. A irritação e a impaciência tomaram conta do dia a dia. “Às vezes, a gente não consegue nem conversar por causa do barulho”, diz.

Segundo a professora, o bate-estaca chega a reverberar pelas paredes da casa. “Muitas vezes, preciso fechar duas portas para poder dar aulas, que são 100% on-line”, afirma. “Dor de cabeça, irritação, impaciência. Acho que devem ocorrer até outros danos que a gente não consegue qualificar e quantificar. O corpo não está deixando isso passar batido”, diz.


A Lei

Decreto 60.581, de 27 de setembro de 2021

  • Das 7h às 19h: até 85 decibéis
  • Das 19h às 7h: até 59 decibéis
  • Sábados, das 8h às 14h: até 85 decibéis
  • Sábados, a partir das 14h: até 59 decibéis
  • Domingos e Feriados: até 59 decibéis

O que diz a Prefeitura de São Paulo

A Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB) diz que realizou 17.962 atendimentos de fiscalização de ruído urbano somente no primeiro trimestre de 2026 na cidade, volume 33% maior do que o total de solicitações recebidas (13.538) no mesmo período.

“Importante destacar que os pedidos de fiscalização podem vir de diversos órgãos como o SP156, Ministério Público, Ouvidoria Geral do Município. A fiscalização de ruído na cidade é um trabalho contínuo e realizado com base na Lei n° 16.402/2016”, afirma.

“No caso das obras particulares, ela é feita para verificar o cumprimento do Decreto n° 60.581/2021. As operações ocorrem periodicamente utilizando equipamentos de medição sonora (sonômetros). Quando necessário, é solicitado o apoio dos órgãos de segurança pública”, diz a secretaria.

Segundo a prefeitura, sobre a aplicação das multas, além de caráter punitivo, a medida tem como objetivo a orientação para que o local se regularize. “Os registros apontam que menos de 8% dos estabelecimentos que recebem a primeira autuação evoluem para uma segunda multa, o que indica a regularização da atividade após a intervenção inicial”, diz.

 

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