PM tentou impedir banho de coronel após morte de Gisele. Veja conversa

“A ordem é essa, do tenente”, disse soldado ao coronel Geraldo Leite Rosa Neto, suspeito pela morte da sua esposa, a PM Gisele Alves Santana

atualizado

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mike jargão policiais tenente coronel
1 de 1 mike jargão policiais tenente coronel - Foto: Reprodução/Polícia Civil

O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto chegou a discutir com um cabo e um soldado antes de ir tomar o segundo banho no dia da morte da esposa, a PM Gisele Alves Santana. As reações do tenente-coronel após o corpo da mulher ser encontrado foram flagradas pelas câmeras corporais de policiais militares e de segurança.

Um dos soldados que atendia a ocorrência desconfia da vontade de Neto em tomar um banho antes de ir para a delegacia e é confrontado pelo suspeito, que tem patente superior a sua dentro da Polícia Militar (confira o diálogo mais abaixo).

Ele chega a falar para Geraldo Neto que a decisão é uma “ordem do tenente”. O suspeito respondeu imediatamente: “Para, eu vou tomar banho e vou trocar de roupa! Chama o tenente lá porque eu vou tomar banho e trocar de roupa”.

As conversas entre o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto e os policiais que tentaram impedir sua entrada no apartamento onde a esposa havia sido baleada, no centro da capital paulista, revelam um embate direto entre protocolo e hierarquia.

Os diálogos, reproduzidos em inquérito instaurado pelo 8º DP, mostram insistência do oficial da Polícia Militar em acessar o imóvel e preocupação explícita dos agentes com a preservação da cena.

O caso ganhou novo desdobramento na quarta-feira (18/3), quando o oficial foi preso pela Corregedoria da PM, acusado de feminicídio contra a soldado Gisele Alves Santana, morta com um tiro na cabeça em 18 de fevereiro. A investigação também aponta suspeitas de fraude processual, com indícios de interferência na cena do crime e tentativas de construção de versão para o ocorrido.

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Cabo impede a entrada e alerta que o imóvel está preservado para perícia
Oficial ignora recomendação e cruza a porta do imóvel acompanhado por policiais
Mesmo orientado a aguardar, coronel insiste em acessar o interior do apartamento
Policiais reforçam que qualquer manipulação deve ser feita apenas pela perícia
Dentro do apartamento, agentes evitam contato com o sangue da vítima no chão
Coronel chega ao local e tenta entrar no apartamento onde a esposa foi encontrada baleada
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Coronel chega ao local e tenta entrar no apartamento onde a esposa foi encontrada baleada

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Cabo impede a entrada e alerta que o imóvel está preservado para perícia
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Cabo impede a entrada e alerta que o imóvel está preservado para perícia

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Oficial ignora recomendação e cruza a porta do imóvel acompanhado por policiais
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Oficial ignora recomendação e cruza a porta do imóvel acompanhado por policiais

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Mesmo orientado a aguardar, coronel insiste em acessar o interior do apartamento
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Mesmo orientado a aguardar, coronel insiste em acessar o interior do apartamento

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Policiais reforçam que qualquer manipulação deve ser feita apenas pela perícia
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Policiais reforçam que qualquer manipulação deve ser feita apenas pela perícia

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Dentro do apartamento, agentes evitam contato com o sangue da vítima no chão
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Dentro do apartamento, agentes evitam contato com o sangue da vítima no chão

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Coronel circula pelo imóvel e questiona posição de objetos no quarto
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Coronel circula pelo imóvel e questiona posição de objetos no quarto

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Oficial foi acompanhado por amigo desembargador
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Oficial foi acompanhado por amigo desembargador

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Conversas revelam tensão e dificuldade dos policiais em conter superior na cena
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Conversas revelam tensão e dificuldade dos policiais em conter superior na cena

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Neto permaneceu no apartamento das 9h06 até 9h29
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Neto permaneceu no apartamento das 9h06 até 9h29

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Em um momento crítico, descrito no inquérito, o oficial tenta entrar no apartamento logo após Gisele ser retirada do local, em estado gravíssimo. Ela morreu no Hospital das Clínicas, em decorrência do disparo, às 12h04. A entrada de Geraldo Neto foi contida por policiais militares de menor patente, porque o imóvel estava cheio de evidências a serem ainda periciadas. Mesmo assim, ele desrespeita as orientações e avança.

O registro da Polícia Civil detalha que o cabo responsável pela contenção aponta para outro oficial e reforça que qualquer conversa deveria ocorrer fora do imóvel. Nem a recomendação de um desembargador presente no local, que sugere que o coronel não entre, é suficiente para barrá-lo. O magistrado é Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, amigo do oficial.

Na sequência, já dentro do apartamento, o comportamento do oficial passa a gerar ainda mais estranhamento entre os policiais.

Os diálogos transcritos no inquérito

CB: O senhor não saiu do banho agora? O senhor falou que estava tomando banho.

TC Neto: Irmão, eu entrei no banho (ligou o chuveiro) eu tava aqui tomando banho, dai eu escutei o barulho e eu abri a porta, quando abri eu vi minha esposa, peguei essa bermuda que tava aqui em cima, vesti a cueca e a bermuda, que eu não cheguei a tomar banho, eu nem fiz a barba ainda ó, a barba eu faço durante o banho, fazia um minuto que eu tava em baixo do chuveiro irmão.

CB: É que o senhor sabe da burocracia que é né, você sabe da burocracia que é na PM, então quanto mais rápido agilizar se o senhor puder só colocar uma camiseta.

TC Neto: Irmão, eu tenho 34 anos de serviço. Eu sei o que eu to falando. Eu vou tomar banho, irmão.

Soldado: Não, não. A ordem é essa, do tenente.

TC Neto: O que? Que eu não posso tomar um banho?

Soldado: A ordem é essa!

CB: Você não disse que acabou de tomar banho?

TC Neto: Eu vou tomar banho.

Soldado: Chama o tenente, por favor.

TC Neto: Para, eu vou tomar banho e vou trocar de roupa! Chama o tenente lá porque eu vou tomar banho e trocar de roupa.

Mesmo diante da orientação para evitar qualquer alteração no local, o oficial insiste em retornar ao banheiro. O cabo tenta intervir novamente

 

CB: O senhor não quer colocar uma camiseta e um short rapidinho.

TC Neto: Não eu não vou, eu não tô bem para ir assim, eu vou tomar um banho.

CB (para Capitão): O cara vai lavar a mão, caralho.

 

 

A fala, registrada de forma literal no inquérito, sintetiza o temor dos policiais diante da possibilidade de destruição de vestígios. Esse receio aparece ainda mais explícito em outro trecho.

 

CB: ele vai fazer residuográfico antes né?

Tenente: depende do que o perito falar, eu não vi nada.

CB: vai deixar ele tomar banho e tudo?

Tenente: ah, não tem como ele ir assim.

CB: se tomar banho vai perder tudo os baguio [vestígios] da mão, e as conversas dele tá estranha… porque se fosse um paisano a gente já arrasta pra perto…

 

O diálogo expõe não apenas a preocupação técnica, com a eventual perda de resíduos de disparo, mas também um incômodo institucional diante do tratamento diferenciado dado a um oficial de alta patente.

A própria investigação aponta que o comportamento do coronel após o disparo levantou suspeitas, incluindo a realização de sucessivas ligações antes de acionar o socorro, o que, segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), pode indicar tentativa de alinhar uma versão para os fatos

Mesmo diante das advertências, o tenente-coronel entrou e permaneceu no apartamento, acompanhado por policiais que tentaram limitar sua circulação. O episódio passou a ser considerado um dos elementos centrais da investigação sobre possível interferência na cena do crime.

O tenente-coronel segue preso no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte paulistana. Ele insiste que a esposa se suicidou, como reforça sua defesa.

Prisão mantida

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou, nessa sexta-feira (20/3), uma reclamação da defesa do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto para tirar o policial militar da prisão. O oficial está detido em São Paulo, acusado de matar a esposa, a soldado Gisele Alves Santana, em 18 de fevereiro.

A defesa do tenente-coronel pediu o relaxamento imediato da prisão de Geraldo Leite, alegando uma possível ilegalidade no mandado de prisão expedido pelo Tribunal de Justiça Militar (TJM). Segundo os advogados, o STJ teria “inúmeros precedentes” para confirmar que a Justiça Militar não teria competência sobre o caso.

O STJ, no entanto, negou a tese. De acordo com o ministro Reynaldo Soares da Fonseca, a corte não tomou nenhuma decisão específica sobre o mérito questionado pela defesa do oficial e, portanto, não pode analisar a ação.

Feminicídio e fraude processual

A Justiça de São Paulo aceitou a denúncia e tornou réu o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto pelos crimes de feminicídio e fraude processual. O oficial é acusado de matar a esposa policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, no dia 18 de fevereiro.

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Coronel circula pelo imóvel e questiona posição de objetos no quarto
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Coronel circula pelo imóvel e questiona posição de objetos no quarto
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Coronel circula pelo imóvel e questiona posição de objetos no quarto

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Oficial foi acompanhado por amigo desembargador

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Oficial ignora recomendação e cruza a porta do imóvel acompanhado por policiais

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Mesmo orientado a aguardar, coronel insiste em acessar o interior do apartamento

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Conversas revelam tensão e dificuldade dos policiais em conter superior na cena

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O PM Geraldo Neto (no meio no banco de trás) foi preso em São José dos Campos por feminicídio
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O PM Geraldo Neto (no meio no banco de trás) foi preso em São José dos Campos por feminicídio

Reprodução/TV Globo
O tenente-coronel Geraldo Leite e a PM Gisele Alves Santana
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O tenente-coronel Geraldo Leite e a PM Gisele Alves Santana

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A denúncia foi oferecida pelas promotoras Ingrid Maria Bertolino Braido e Daniela Romanelli da Silva, no dia 18 de março.

Segundo a promotoria, a acusação formal engloba os crimes de feminicídio qualificado, por ter sido praticado no contexto de violência doméstica e familiar, com circunstâncias agravantes como motivo torpe; e causas de aumento de pena, a exemplo do recurso que dificultou a defesa da vítima. A denúncia também cita o crime de fraude processual, alegando que o réu alterou a cena do crime para induzir a investigação ao erro.


Morte de PM levou à prisão de tenente-coronel


Competências

Preso nessa quarta-feira (18/3) sob suspeita de feminicídio, Geraldo Leite Rosa Neto, 53, foi denunciado tanto na Justiça Militar quanto na Justiça comum. Ao final do processo, o agente pode ser condenado nos dois tribunais.

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Gisele foi socorrida e morreu no Hospital das Clínicas
WhatsApp de policial morta foi vizualizado quando ela já estava baleada
No mesmo dia em que ela morreu, caso passou a ser investigado como morte suspeita
Soldado foi ferida com a arma do marido
Oficial teria comportamento controlador e ciumnto segundo testemunhas
Coronel afirma desde o dia da morte da esposa que ela teria se matado
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Coronel afirma desde o dia da morte da esposa que ela teria se matado

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Gisele foi socorrida e morreu no Hospital das Clínicas

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WhatsApp de policial morta foi vizualizado quando ela já estava baleada
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WhatsApp de policial morta foi vizualizado quando ela já estava baleada

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No mesmo dia em que ela morreu, caso passou a ser investigado como morte suspeita
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No mesmo dia em que ela morreu, caso passou a ser investigado como morte suspeita

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Soldado foi ferida com a arma do marido
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Soldado foi ferida com a arma do marido

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Oficial teria comportamento controlador e ciumnto segundo testemunhas
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Oficial teria comportamento controlador e ciumnto segundo testemunhas

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Soldado era casada com tenente-coronel, que estava no apartamento no momento do tiro
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Soldado era casada com tenente-coronel, que estava no apartamento no momento do tiro

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A soldado Gisele deixou uma filha de 7 anos, fruto de outro relacionamento
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A soldado Gisele deixou uma filha de 7 anos, fruto de outro relacionamento

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Gisele Alves Santana tinha 32 anos
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Gisele Alves Santana tinha 32 anos

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Soldado da Polícia Militar, Gisele Alves Santana foi encontrada morta
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Soldado da Polícia Militar, Gisele Alves Santana foi encontrada morta

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Caso foi tratado inicialmente como suicídio e, depois, alterado para morte suspeita
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Caso foi tratado inicialmente como suicídio e, depois, alterado para morte suspeita

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O tenente-coronel foi detido em São José dos Campos, no interior de São Paulo, após solicitação da Corregedoria da PM ao Tribunal de Justiça Militar (TJM). Posteriormente, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) também defendeu a prisão, que foi decretada pelo Tribunal de Justiça (TJSP) no final da tarde.

Na prática, os dois processos funcionam em paralelo, o que iniciou uma discussão sobre qual tribunal é competente para o caso. A própria defesa do tenente-coronel questionou o decreto de prisão do TJM e afirmou que entrou com reclamação no STJ porque Geraldo Neto está preso “por duas justiças distintas”. “Se houve a imputação de feminicídio e fraude processual, foi no âmbito privado, e não no âmbito da Justiça Militar”, disse o advogado Eugênio Malavasi.

Oficialmente, crimes cometidos por militares são apreciados pela Justiça Militar. Mas casos de homicídio praticados por um policial contra vítimas civis são analisados na Justiça comum.

Ao Metrópoles, a advogada criminalista Renata Camila Alves Prado afirmou que a discussão acontece porque a vítima também era da PM, o que motivaria o julgamento na Justiça Militar. No entanto, como o crime teria sido motivado por questões particulares alheias à instituição, a competência passa à Justiça comum. Segundo a especialista, o envolvimento dos dois tribunais não prejudica o andamento do processo.

“A Justiça comum irá processar o crime de feminicídio e fraude processual. Já a Justiça Militar irá, ao final, processá-lo pelas condutas administrativas, ou que gerem impacto, pois muitos crimes acabam sendo punidos tanto na Justiça comum como na Justiça Militar”, afirmou.

Segundo as autoridades, os pedidos de prisão foram motivados para garantir a ordem pública e o andamento das investigações. O magistrado do TJM destacou o risco de interferência nas investigações, inclusive pela possibilidade de influência sobre testemunhas, além da gravidade concreta dos fatos apurados.  Já o TJ destacou que o réu ocupa alto cargo na hierarquia da PM e muitas testemunhas são da corporação, o que poderia influenciar os depoimentos.

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