PM Gisele: veja as 4 contradições no depoimento à polícia do coronel
Preso pela morte da PM Gisele Santana, coronel Geraldo Neto mostrou contradições sobre posição da arma, do corpo e sangue na cena do crime
atualizado
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Finalizado um mês após o crime, o inquérito da Polícia Civil sobre a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana aponta quatro principais contradições em relação à versão apresentada pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso nessa quarta-feira (18/3), além de outras inconsistências entre seu depoimento e os elementos técnicos reunidos pela perícia. O Metrópoles teve acesso ao inquérito e detalha os principais pontos que colocam em dúvida o relato do oficial.
A soldado Gisele, de 32 anos, foi encontrada morta com um tiro na cabeça, no dia 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde vivia com o marido, na região central de São Paulo. O inquérito embasou a prisão do coronel Geraldo Neto, que passou a ser tratado como principal suspeito do feminicídio.
Veja os principais pontos destacados pela polícia
1 – Árvore de Natal contradiz versão do investigado:
O primeiro ponto envolve a posição de uma árvore de Natal no apartamento. O tenente-coronel afirmou que o objeto teria sido removido do local onde estava antes de ele entrar no banheiro, chegando a sugerir que Gisele teria deslocado.
No entanto, fotos feitas pelos primeiros socorristas mostram a árvore exatamente no mesmo lugar descrito inicialmente, ao lado do sofá. O laudo pericial conclui que o objeto só foi retirado depois, durante o atendimento, para abrir espaço.
Para os peritos, essa divergência não é apenas um detalhe. O tenente-coronel Geraldo afirmou que estava tomando banho no momento do disparo e que teria aberto a porta para ver o que havia acontecido. No entanto, a posição da árvore dificultaria a visão da cena a partir do banheiro, o que coloca em dúvida a versão apresentada por ele.
2 – Posição da arma levanta dúvidas:
Outro ponto central diz respeito à arma utilizada no disparo. Em momentos diferentes, o coronel apresentou versões distintas: primeiro, disse que Gisele segurava a arma; depois, afirmou que ela estava caída no chão.
As imagens e os relatos dos socorristas, no entanto, indicam que a pistola estava na mão da vítima quando a equipe chegou. A perícia destaca que, em casos de disparo na cabeça, é extremamente improvável que a pessoa mantenha a arma firmemente empunhada após o impacto, devido ao relaxamento muscular imediato. Para os investigadores, a mudança de versão sobre esse ponto é significativa, já que a posição da arma é um dos elementos mais importantes para diferenciar o suicídio de homicídio.
3 – Marcas de sangue indicam movimentação do corpo:
A análise das manchas de sangue é apontada como uma das evidências mais fortes do inquérito. Segundo o laudo, o padrão de escorrimento indica que o sangue fluiu enquanto a vítima ainda estava em posição vertical ou semivertical.
Essa informação é incompatível com a posição em que o corpo foi encontrado, já caído no chão. De acordo com os peritos, se as manchas se formaram enquanto Gisele ainda estava em pé ou quase na vertical, ela não poderia ter caído sozinha e produzido aquela trajetória de sangue no corpo.
Diante disso, a conclusão técnica é de que o corpo foi movido após o disparo e reposicionado no local por outra pessoa. O coronel, porém, afirmou que ninguém teria tocado em Gisele antes da chegada do socorro. A perícia aponta que há indícios de alteração da cena, o que reforça a suspeita de fraude processual.
4 – Vestígios de sangue no banheiro contradizem relato:
O quarto ponto envolve vestígios de sangue encontrados no banheiro utilizado pelo investigado. Exames identificaram marcas nos registros de água, nas paredes, no chão do box, além de na bermuda e em uma toalha.
Segundo a perícia, o tipo de mancha encontrado é decisivo. O laudo aponta que o sangue na roupa tem características de gotejamento, ou seja, caiu diretamente sobre o tecido, gota por gota, e não foi espalhado por contato ou limpeza. Isso significa que o investigado estava próximo à vítima no momento em que ela ainda sangrava. Para os especialistas, se o sangue tivesse sido transferido por toque ou atrito, as marcas seriam diferentes, com sinais de arrasto ou pressão, o que não foi identificado. A forma das manchas indica que ele estava parado ou muito próximo da vítima enquanto o sangramento ainda ocorria.
“Essa dinâmica exige a presença física do investigado no raio imediato do corpo da vítima durante o sangramento ativo, condição absolutamente incompatível com sua versão de que não manteve qualquer tipo de contato com a vítima. O gotejamento não mente: ele documenta”, diz o delegado Lucas de Souza Lopes, do 8º Distrito Policial, que presidiu o inquérito.
Essa dinâmica contradiz a versão apresentada pelo tenente-coronel, que afirmou estar no banheiro e não ter tido contato com a vítima. Além disso, a presença de sangue dentro do box reforça a suspeita de que ele entrou no local já com vestígios e teria tomado banho antes da chegada do socorro.
Morte de PM Gisele levou à prisão de tenente-coronel
- A policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada gravemente ferida na manhã de 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde vivia com o marido no Brás, região central de São Paulo.
- Ela foi socorrida por equipes do Corpo de Bombeiros e levada pelo helicóptero Águia da PM ao Hospital das Clínicas, onde morreu horas depois, em decorrência de traumatismo cranioencefálico provocado por disparo de arma de fogo, conforme o atestado de óbito.
- Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio consumado, mas depois foi alterado para morte suspeita, com “dúvida razoável” de tratar-se de suicídio.
- Com o avanço das análises periciais e a reconstituição da sequência de acontecimentos dentro do imóvel, a Polícia Civil concluiu que a dinâmica do disparo não correspondia à hipótese de suicídio inicialmente apresentada.
- Com base nesse conjunto de elementos, a Justiça autorizou a prisão do tenente-coronel, que passou a responder pela morte da policial militar.
- A Polícia Civil solicitou à Justiça, em 17 de março, a prisão preventiva do tenente-coronel. O pedido sucedeu a conclusão, com base em perícia técnica, de que ele seria o principal suspeito pela morte da esposa.
- A Justiça Militar do Estado de São Paulo decretou a prisão preventiva do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto nessa quarta-feira (18/3). Ele foi preso no mesmo dia em um condomínio residencial de São José dos Campos, no Vale do Paraíba.
O tenente-coronel Geraldo Neto foi preso nessa quarta-feira (18/3) sob a acusação de feminicídio e conduzido ao Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital paulista. O habeas corpus solicitado pela defesa deve ser analisado ainda nesta quinta-feira (19/3), quando também será realizada a audiência de custódia – por videoconferência – e que poderá definir se ele permanecerá detido ou responderá ao processo em liberdade.


















