“Nepotismo afetivo”: MPSP investiga nomeações de amante de prefeito
Servidora teria sido nomeada em cargos comissionados em São José dos Campos enquanto mantinha relação amorosa com o prefeito
atualizado
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O Ministério Público de São Paulo (MPSP) protocolou uma ação por improbidade administrativa contra o prefeito de São José dos Campos, Anderson Farias Ferreira, e uma servidora do município após suspeitas de que a mulher teria sido nomeada em cargos de confiança enquanto mantinha um vínculo amoroso com o chefe do Executivo municipal.
De acordo com a 7ª Promotoria de Justiça de São José dos Campos, as nomeações teriam ocorrido no período em que o prefeito teria mantido um relacionamento com Milena Guimarães. Anderson sucedeu no cargo o atual vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth (MDB), de quem foi vice-prefeito.
“Há evidências de que nomeações da sra. Milena Guimarães Coelho na Administração Pública de São José dos Campos foram efetivadas concomitantemente a seu relacionamento afetivo com o Prefeito de São José dos Campos, sendo que mantinham relação adúltera, impondo-se nulidade dos atos de nomeação e responsabilização pela improbidade explícita”, afirmou a promotora Ana Cristina Ioriatti Chami, em despacho da última segunda-feira (1º/6).
Segundo a ação, a servidora teria sido favorecida “indevidamente de nomeações ilegítimas, sendo vedado o nepotismo pela legislação, previsto como ato de improbidade administrativa”. De acordo com o órgão, a conduta fere princípios da administração estabelecidos na Lei 8.429/92 e na Súmula Vinculante 13, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Para a promotora, embora não haja vínculo formal de casamento, “é inegável que a posição de companheira de fato, amante, concubina, ou parceira amorosa, igualmente impede nomeações comissionadas ou o exercício de funções de confiança frente à Administração Pública Municipal, “tanto direta quanto indireta”.
Nos autos, a administração municipal defendeu as nomeações e a legitimidade da situação.
“Mas a confusão entre os cargos públicos municipais e as relações amorosas do sr. Anderson Farias deveria ter sido evitada, por evidente. Mas não foi, tornando-se escândalo público municipal, revelando-se manipulação das funções públicas para benefício pessoal e favorecimento ilegítimo”, escreveu a promotora.
“Nepotismo afetivo”
A ação diz que tanto o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) quanto o STF entendem que a impessoalidade e a moralidade são violadas mesmo sem parentesco formal.
A jurisprudência, portanto, avaliaria o contexto da nomeação e do favorecimento indevido para a caracterização do nepotismo, “reconhecendo-se expressamente o nepotismo afetivo, ou seja, nomeação de pessoa com relacionamento íntimo ou afetivo com a autoridade nomeante’.
Cargos ocupados
Os autos apontam que Milena tomou posse como enfermeira concursada do município em 2023. Porém, foi nomeada para diversos cargos em comissão e funções de confiança em São José dos Campos.
Ocupou, por exemplo, funções de confiança como ouvidora da Saúde (entre 2022 e 2024), além de ter recebido funções gratificadas para integrar a Junta de Recursos, a partir de decretos subscritos pelo prefeito, enquanto este mantinha “relações de foro íntimo com a servidora”.
A promotoria também aponta que Milena foi indicada para integrar o Conselho de Administração da Urbam, empresa municipal que faz o serviço de limpeza da cidade e que tem a prefeitura como sua acionista majoritária.
Segundo a ação, os primeiros cargos em comissão de Milena surgiram quando o atual prefeito exercia o cargo de secretário Municipal de Governança, nas gestões anteriores. O texto ainda afirma que a data de início do relacionamento adúltero é desconhecida, mas que há evidências de que ambos mantinham relações íntimas desde 2023.
Após o caso vir à tona, Milena pediu exoneração do cargo comissionado de diretora de Vigilância em Saúde.
O Ministério Público ainda afirma haver indícios de conflito entre atividade exercida pela servidora em uma clínica de estética e o horário da jornada na prefeitura, o que é negado pelo servidora.
Com isso, a promotoria solicitou à Justiça a aplicação de multa, suspensão de direitos políticos e proibição de contratos com o Estado. O pedido ainda inclui a quebra de sigilo, além da verificação da geolocalização do aparelho de telefone da servidora.
O Metrópoles buscou contato com a Prefeitura de São José dos Campos e com Milena. O espaço segue aberto para manifestação.
Entenda o caso
Em outubro do ano passado, a então primeira-dama de São José dos Campos Sheila Thomaz perdeu a presidência do Fundo Social de São José dos Campos após uma servidora municipal, Milena Coelho, apontada como amante do prefeito Anderson Farias, tê-la acusado de perseguição.
Milena é enfermeira e trabalha na rede pública da cidade desde dezembro de 2017, segundo informações do LinkedIn. No dia 27 de agosto de 2025, ela registrou um boletim de ocorrência no qual diz manter um relacionamento amoroso com Anderson e ter sido vítima de stalking pela ex-primeira-dama.
Sheila, a ex do prefeito, é acusada de ir ao local de trabalho de Milena para constrangê-la, além de vigiá-la na porta da sua casa e intimidá-la. Em um evento público, a ex-primeira-dama teria chamado a suposta amante de “puta”.
“[Sheila] Fez ainda um dossiê contra a declarante [Milena] com fatos inverídicos, colocando pessoas para tirar foto da declarante onde ela vai, em casa, no trabalho e qualquer outro lugar que esteja, sendo que esse dossiê seria para a declarante ser demitida (…) . A declarante se sente intimidada, ameaçada e perseguida por Sheila, não sabendo do que ela é capaz, temendo por sua vida e integridade física”, diz o boletim de ocorrência ao qual Metrópoles teve acesso.
O documento veio à tona por uma publicação local. Depois disso, a prefeitura publicou a nota oficial anunciando a separação do casal e o desligamento de Sheila. O texto não explicava a razão da decisão e afirmava que a agora ex-primeira-dama iria “se dedicar a projetos pessoais e profissionais”.
O Metrópoles apurou que o relacionamento entre o prefeito e Milena Coelho já era conhecido no entorno político desde 2024.
Anderson, contudo, manteria o casamento de fachada com Sheila, que teria pretensões eleitorais próprias. Ela chegou a ser filiada ao PSD, mesmo partido do prefeito, e já trabalhou no gabinete do ex-vereador Hélio Nishimoto, quando ele era deputado estadual na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
Em agosto do ano passado, o prefeito nomeou a suposta amante como conselheira da Urbam.
Medida protetiva
Sheila também teve uma medida protetiva contra o ex-marido. Em outubro de 2025, após denúncia por violência doméstica, a Justiça proibiu o gestor municipal de aproximação a menos de 200 metros dela e de qualquer tipo de contato com a ex-esposa, com quem foi casado por 30 anos.
O caso tramita na Vara da Violência Doméstica e Familiar de São José dos Campos. Obtida pelo Metrópoles, a decisão estabeleceu prisão em flagrante ou preventiva em caso de descumprimento das determinações, válidas por um ano, com possibilidade de prorrogação.
Segundo o relato de Sheila, em boletim de ocorrência, o comportamento agressivo do marido envolvia ofensas, humilhações e dependência financeira. Anderson teria agredido fisicamente a mulher e a própria filha durante uma discussão. Sheila também mencionou ter sido ameaçada e xingada pela sogra após aproximação da mãe do prefeito com a suposta amante dele.
Venda de marmitas
Em publicação via rede social, Sheila chegou a anunciar que estava vendendo marmitas como forma de sustento, especialmente quando ela passou por um período em Dublin, na Irlanda, para acompanhar o filho após ele ser atropelado e ter uma perna amputada. “Enfrentamos muitos desafios, principalmente financeiros, e tivemos que nos virar”, disse.
“Foi então que uma linda corrente do bem se formou. Os amigos do meu filho passaram a nos ajudar nas vendas e criamos juntos uma rede de solidariedade. Depois que voltamos para São José dos Campos, os desafios só aumentaram. Acho que vou precisar voltar com as marmitinhas!”, anunciou a ex-primeira-dama, em janeiro.







