Em meio a cerco de Trump, jornal dos EUA compara PCC à máfia italiana
Reportagem detalhou expansão internacional e ramificação econômica do PCC. Governo dos EUA quer classificar facção como “grupo terrorista”
atualizado
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O Primeiro Comando da Capital (PCC) foi tema de uma reportagem do jornal The Wall Street Journal que detalha a expansão da organização criminosa no Brasil e no mundo. A matéria, publicada na segunda-feira (20/4), compara a dimensão do PCC à da máfia italiana e destaca que a facção tem “eficiência de uma corporação multinacional”.
A publicação ocorre em meio a uma ofensiva dos EUA contra o crime organizado na América Latina. Como parte desse movimento, o governo do presidente Donald Trump pressiona para que o Brasil classifique facções brasileiras como “grupos terroristas”. Conforme publicado pelo Metrópoles, autoridades americanas enviaram um “aviso” ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sobre a intenção.
O governo brasileiro no entanto, se posiciona contra a medida. Em manifestação ao Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), a Polícia Federal (PF) sustentou que a alteração representaria um erro jurídico. Segundo a PF, a diferença está nos objetivos: enquanto o crime organizado busca o lucro, os grupos terroristas são motivados por questões ideológicas e culturais.
Um dos principais procuradores contra o PCC no Brasil, o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo (MPSP), também se posicionou contrário à medida. Em entrevista ao Metrópoles em março, ele argumentou que a iniciativa americana pode prejudicar o combate ao crime organizado e colocar a soberania do Brasil em risco.
“O PCC está presente hoje em 28 países. Ele representa, sim, o risco para outras nações. Já está presente nos Estados Unidos e também é motivo de preocupação dos americanos. Mas acredito que há outras formas eficientes de combatermos o crescimento transnacional das facções com apoio dos EUA. A gente poderia melhorar a cooperação que já existe, criar equipes conjuntas de investigação entre Brasil, EUA e outros países da América do Sul. Mas, tudo isso pode ser feito sem que nós tenhamos que classificar o PCC como organização terrorista.”
PCC nos EUA
O acompanhamento das autoridades brasileira identificou uma “divisão norte-americana” do PCC atuando nos Estados Unidos. Desde então, os norte-americanos identificaram indivíduos ligados ao crime organizado atuando em ao menos seis estados. Em 2025, 18 brasileiros foram acusados pelo Ministério Público dos EUA por envolvimento no tráfico de armas.
A Europa também está na mira. Após aliança com produtores de cocaína em países da América Latina, o PCC expandiu o envio de drogas em navios. O Porto de Santos, no litoral paulista, é apontado como um dos principais pontos de origem das quase 420 toneladas de cocaína apreendidas em portos europeus em 2023. O número de apreensões no continente bate recorde há sete anos consecutivos.
“Maior erro político da história”
A reportagem do The Wall Street Journal detalha a criação do PCC no início dos anos 1990 a partir de um movimento organizado por detentos em busca de melhores condições nos presídios de São Paulo. A reação das autoridades desde então foi classificada pelo jornal como “um dos maiores erros políticos na história da aplicação da lei na América Latina”.
Segundo o texto, o Estado reforçou o controle prisional e transferiu detentos para outros estados, o que teria fortalecido a mobilização dos detentos e acelerado a expansão do PCC no território brasileiro. Ao longo de três décadas, a facção consolidou o controle sobre unidades prisionais e criou uma estrutura de comando de dentro das celas.
O jornal desta ainda que o PCC está remodelando o fluxo global de cocaína e caminha para se tornar uma das maiores organizações criminosas do mundo com base em um código de conduta estruturado e de comportamento discreto, com filiação de novos faccionados em cerimônias por videochamada.
Tráfico de livre-mercado
A publicação descreve a atuação do PCC “mais como um mercado ou agência reguladora do que como uma organização tradicional”. A partir de uma estrutura horizontal, os criminosos têm liberdade para iniciar os próprios emprendimentos.
Embora o tráfico de cocaína seja a atividade central da facção, o grupo tem expandido sua atuação para setores como os da mineração de ouro, extração de madeira, tráfico de pessoas, pesca ilegal, contrabando de animais e até mesmo a escravização de algumas comunidades indígenas na Amazônia, onde ampliou seus poderes na última década.
O dinheiro ilícito é lavado por meio de postos de gasolina, fintechs, fundos imobiliários e outros negócios. Na última quarta-feira (15/4), a PF deflagrou a operação Narco Fluxo, que apura a lavagem de dinheiro por meio da indústria fonográfica. O cantor MC Ryan SP foi preso. Outro detalhe destacado na reportagem é o envolvimento com a igreja evangélica. O The Wall Street Journal menciona a prisão, em 2023, do pastor Geraldo dos Santos Filho, apontado como operador de um esquema que lavou R$ 6 milhões.
A expansão financeira e territorial também é citada como um fator de aproximação com grupos criminosos de outros países, como a ‘Ndrangheta na Itália e a Yakuza no Japão.
