
Mirelle PinheiroColunas

Restaurante de Ryan teria sido usado para arrecadar “cebola” do PCC
Investigação indica que estabelecimento era usado para misturar dinheiro ilícito ao faturamento legal; avó do cantor aparece como “laranja”
atualizado
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O Bololô Restaurant & Bar, ligado ao grupo do cantor MC Ryan SP, é apontado pela Polícia Federal (PF) como um “posto de arrecadação bancarizado” utilizado pela facção criminosa no esquema de lavagem de dinheiro que movimentou mais de 260 bilhões de reais. Segundo documentos da investigação obtidos pela coluna, o estabelecimento misturava recursos ilícitos ao faturamento legítimo, dando aparência de legalidade às operações.
De acordo com a PF, o local funcionava como ponto de coleta de valores do grupo, como recolhimento de uma mensalidade conhecida como ‘cebola’.
Ainda conforme o relatório, a empresa recebia depósitos frequentes, inclusive valores fracionados para dificultar o rastreamento pelas autoridades e transferências de outros investigados por lavagem como a empresa Buzeira Digital, do influenciador Bruno Alexssander Souza Silva, e Giliard Vidal dos Santos, filho de Deolane Bezerra. Além disso, figura como uma das principais peças na estratégia de blindagem patrimonial e integração de capitais do grupo.
A investigação aponta que a avó do cantor, Vera Lúcia Santana, e o companheiro dela, Tiago de Oliveira, atuavam como “laranjas” no esquema, sendo utilizados para ocultar o real controle e a origem dos recursos.
Segundo a PF, Vera assumiu a sociedade do restaurante após o artista ser alvo de buscas e apreensões por supostos vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e participação em rifas ilegais. “Peça de mescla absorvendo aportes físicos (‘cebola’ da facção) sob escudo alimentar, transferida à avó após investigações para possivelmente resguardar lucros ‘limpos’.”
Entre abril de 2024 e outubro de 2025, o restaurante movimentou mais de R$ 30 milhões. “A empresa apresenta movimentação financeira incompatível com seu porte […] correspondendo a uma média mensal superior a R$ 1,4 milhão.”
Nesse período, a empresa também teria transferido R$ 257,4 mil a Tiago em menos de dois meses. “Tiago é considerado liderança do esquema, gestor estratégico e de decisões operacionais. Referido como ‘Pai’ por Ryan. Transaciona os fundos de alto risco, injeta em mescla, saca capital lavado de restaurantes da família e efetua consumos paralelos.”
Apesar disso, o restaurante operava regularmente, o que ajudava a sustentar a aparência de legalidade. “O restaurante existe e funciona, realizando pagamentos consistentes a fornecedores de bebidas e carnes, gerando lastro comercial.”
Segundo a PF, após passar pelo caixa do estabelecimento e ser misturado às receitas reais, o dinheiro era redistribuído já com aparência lícita.
Operação
A Operação Narco Fluxo foi deflagrada pela Polícia Federal na quarta-feira (15/4), com a participação de mais de 200 policiais. Ao todo, foram cumpridos 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária.
Segundo a PF, o grupo investigado pode ter movimentado mais de R$ 260 bilhões. Foram apreendidos dinheiro em espécie, veículos de luxo, armas, além de documentos e equipamentos eletrônicos.
Entre os presos estão MC Ryan SP, apontado como principal beneficiário do esquema, além de MC Poze do Rodo, Raphael Sousa Oliveira, responsável pela página Choquei, o influenciador Chris Dias e sua esposa, Débora Paixão.
De acordo com as autoridades, o esquema utilizava empresas do ramo artístico e digital para misturar receitas legais com dinheiro de atividades ilícitas, como tráfico de drogas, apostas ilegais e rifas virtuais.
A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 2,2 bilhões em bens ligados aos investigados.
