Governo Tarcísio liberou consignado a Digimais dois anos após veto
Governo Tarcísio indeferiu, em 2023, o credenciamento do Digimais para consignados. Em 2025, autorizou

O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) autorizou empréstimos consignados de servidores pelo Banco Digimais dois anos após a Secretaria da Fazenda indeferir o serviço por parte da instituição bancária.
O banco do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, entrou nos holofotes nessa terça-feira (23/6) após virar alvo da Polícia Federal (PF). A corporação cumpriu nove mandados de busca e apreensão contra pessoas ligadas ao Digimais –Macedo não foi alvo dos mandados por residir no exterior, mas teve a quebra de sigilo e o bloqueio de bens decretados pela Justiça. Ao todo, foram bloqueados cerca de R$ 670 milhões de 10 dos alvos da operação.
Em novembro de 2023, já durante a gestão Tarcísio, o Diário Oficial trouxe despacho da Secretaria da Fazenda indeferindo “o pedido formulado pelo Banco Digimais S/A quanto ao seu credenciamento junto ao Sistema de Consignação em Folha de Pagamento do Estado de São Paulo, por não atender às exigências estabelecidas no Decreto nº 60.435/2014 e alterações posterior”.
Em junho de 2025, o secretário Caio Mário Paes de Andrade, da pasta de Gestão e Governo Digital, autorizou o credenciamento do banco como consignatária e também para as categorias empréstimo bancário, cartão de benefício e cartão de crédito.
Mais tarde naquele mesmo ano, foi publicada a autorização de empréstimos consignados a policiais militares de São Paulo. O acordo foi publicado em setembro de 2025 e abriu grande clientela em potencial ao banco, uma vez que, apenas em servidores ativos, a PM conta com mais de 80 mil agentes.
O Ministério Público de São Paulo já arquivou uma representação de petistas sobre o assunto. No entanto, agora, com a operação da PF nos holofotes, a oposição pretende desgastar o governo sobre o assunto. O deputado Antonio Donato (PT) afirmou ao Metrópoles que pedirá a convocação do secretário Caio Andrade para dar explicações na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
O que diz o governo
Procurado, o governo estadual afirmou que o indeferimento de 2023 decorreu do “não atendimento, no prazo estabelecido, das exigências documentais previstas no Decreto nº 60.435/2014 e normas correlatas”.
“Em 2025, o Banco Digimais apresentou novo pedido de credenciamento, devidamente instruído com a documentação exigida e o atendimento integral das exigências regulatórias previstas, resultando no deferimento em ato vinculado à conformidade normativa”, diz em nota.
Também informou que o credenciamento no sistema estadual de consignações “é ato vinculado, não discricionário, regido por critérios objetivos previstos em norma”. Acrescenta que estuda medidas cautelares, “com foco na regularidade das operações, na proteção dos servidores e na integridade do sistema”.
Disse ainda que “considerando o total de operações do Estado por mês, o Digimais representa a parcela de 1,57% dessas transações (valores referentes à competência de maio de 2026).
Universal
O banco pertence ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, que é ligada ao Republicanos, partido de Tarcísio. Na atual gestão, a igreja tem aprofundado suas conexões com a PM paulista.
Com desconto diretamente na folha de pagamento, o crédito consignado costuma ter juros menores do que os de mercado e ajuda a garantir mais liquidez aos bancos em momentos de crise. O acordo da PM paulista com o Digimais tem validade até 2030.
Quando a autorização foi dada, o banco já enfrentava crise há muito tempo. Meses antes, a venda do Digimais para o BlueBank, do empresário Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, havia sido anunciada.
A negociação não avançou, sob justificativa de piora do cenário econômico e resistência do Banco Central (BC). No início de abril, o BTG Pactual divulgou ao mercado que assinara acordo para a compra do Digimais.
Com o aumento da inadimplência na carteira de crédito durante a pandemia de Covid-19, o Digimais começou a passar por problemas. Relatórios de 2024 e 2025 apontaram alta inadimplência, o que corroeu o patrimônio e exigiu aportes recorrentes para evitar quebra técnica. O dinheiro veio do próprio Edir Macedo.
Em setembro de 2025, a instituição acumulava prejuízo de R$ 250 milhões – o rombo chegava a quase R$ 500 milhões em fevereiro deste ano.
Por meio de nota, a São Paulo Previdência (SPPREV) afirma que “atua exclusivamente como processadora dos descontos em folha de pagamento das consignações autorizadas por seus beneficiários, dentro dos limites legais, entre as mais de 150 instituições financeiras habilitadas para essa finalidade”.
“A SPPREV não participa da celebração dos contratos, tampouco interfere nas condições pactuadas”, afirma o órgão. A instituição diz, ainda, que o credenciamento das entidades ocorre mediante o cumprimento de requisitos legais e regulamentares previstos em lei e que “não cabe à SPPREV a análise de mérito sobre produtos ofertados ou decisões comerciais das instituições”.
Laços com a Universal
O acordo com o Digimais veio em momento de estreitamento das relações da PM paulista com a Igreja Universal. O Republicanos, partido do governador, tem como presidente o deputado federal Marcos Pereira, que é bispo licenciado da igreja, assim como o líder do governo Tarcísio na Assembleia Legislativa (Alesp), o pastor Gilmaci Santos.
Nos últimos anos, a PM tem usado os templos como salão de eventos para palestras e celebrações institucionais. A presença da Universal nos batalhões é rotineira, por meio do programa Universal nas Forças Policiais (UFP), que visa “prestar assistência espiritual, social e valorização humana aos integrantes das Forças de Segurança”.
Os comandantes da corporação costumam recorrer a lideranças da Universal para falar para seus efetivos sobre temas como saúde mental, autoajuda e inteligência emocional. Em 10 de fevereiro do ano passado, 2,5 mil agentes foram ao templo do Brás (foto em destaque), na área central de São Paulo, para um evento de 12 horas.
Na ocasião, os agentes ouviram uma palestra do pastor Roni Negreiros sobre “Saúde Emocional com Fundamentos Bíblicos”. Ele afirmou aos policiais que a Universal tinha capelães em todas as unidades da PM de São Paulo, inclusive na Corregedoria e no presídio Romão Gomes, onde militares que cometeram delitos são presos.
Os capelães são uma espécie de guias espirituais da Igreja Universal, que presta assistência em hospitais, presídios e comunidades terapêuticas. Negreiros ressaltou que, embora a Igreja estivesse à disposição dos policiais, a liberdade religiosa seria respeitada.
Procurada pelo Metrópoles, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou, por meio de nota, que a “Polícia Militar que é uma instituição composta por mais de 80 mil pessoas, com diferentes formações culturais e religiosas, e que respeita a liberdade de consciência e de crença de todo o seu efetivo”.
“As identificações e convicções pessoais dos policiais não representam os valores e os princípios da instituição e não interferem em sua missão primordial de proteger as pessoas por meio de policiamento ostensivo e preventivo. Em situações pontuais, a PM utiliza as instalações de igrejas ou outras instituições, como universidades e prefeituras, para reuniões de instrução a grandes grupos de policiais, de acordo com a necessidade de cada unidade”, diz a pasta.

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