MPSP arquivou apuração sobre consignados da PM com o Digimais
Promotoria arquivou representação de petista e alegou que se tratava de mera suspeita

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) arquivou no mês passado uma representação de um deputado estadual para investigar a autorização dada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) para que o Digimais ofereça empréstimos consignados para policiais militares de São Paulo.
Nesta terça-feira (23/6), policiais cumpriram nove mandados de busca e apreensão contra alvos ligados ao Digimais. O dono do banco, bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, não foi alvo dos mandados por residir no exterior, mas teve a quebra de sigilo e o bloqueio de bens decretados pela Justiça. Ao todo, foram bloqueados mais de R$ 670 milhões de 10 dos alvos da operação.
Conforme mostrado pelo Metrópoles, o acordo foi publicado em setembro de 2025 e abriu grande clientela em potencial ao banco, uma vez que, apenas em servidores ativos, a PM conta com mais de 80 mil agentes.
Após o caso vir à tona, o deputado Maurici (PT) entrou com uma representação cobrando investigação do caso relacionado à PM e também à autorização pela Prefeitura de São Paulo para servidores. Na época da autorização, o banco já passava por problemas financeiros.
“Diante desse quadro, a autorização concedida pelos governos estadual e municipal para que o Banco Digimais operasse consignado sobre a folha de pagamento de policiais militares e servidores públicos reveste-se de especial gravidade, pois expôs diretamente o patrimônio salarial de agentes públicos a uma instituição em colapso financeiro, com histórico de emissão de contratos fictícios e sob investigação judicial”, afirmou a representação do deputado.
Menos de 15 dias depois da representação, a Promotoria do Patrimônio engavetou o caso.
“A abertura de investigação Ministerial pressupõe a existência de inícios de irregularidades ou ilícitos na relação apontada pelo noticiante. No caso dos autos, o que se vê é a mera suspeita de inidoneidade da instituição financeira que contratou com a Administração Estadual, não havendo nenhum elemento concreto que aponte para a invalidade dos acordos ou ilícitos decorrentes dele”, afirma em documento.
Universal
O banco pertence ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, que é ligada ao Republicanos, partido de Tarcísio. Na atual gestão, a igreja tem aprofundado suas conexões com a PM paulista.
Com desconto diretamente na folha de pagamento, o crédito consignado costuma ter juros menores do que os de mercado e ajuda a garantir mais liquidez aos bancos em momentos de crise. O acordo da PM paulista com o Digimais tem validade até 2030.
Quando a autorização foi dada, o banco já enfrentava crise há muito tempo. Meses antes, a venda do Digimais para o BlueBank, do empresário Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, havia sido anunciada.
A negociação não avançou, sob justificativa de piora do cenário econômico e resistência do Banco Central (BC). No início de abril, o BTG Pactual divulgou ao mercado que assinara acordo para a compra do Digimais.
Com o aumento da inadimplência na carteira de crédito durante a pandemia de Covid-19, o Digimais começou a passar por problemas. Relatórios de 2024 e 2025 apontaram alta inadimplência, o que corroeu o patrimônio e exigiu aportes recorrentes para evitar quebra técnica. O dinheiro veio do próprio Edir Macedo.
Em setembro de 2025, a instituição acumulava prejuízo de R$ 250 milhões – o rombo chegava a quase R$ 500 milhões em fevereiro deste ano.
Por meio de nota, a São Paulo Previdência (SPPREV) afirma que “atua exclusivamente como processadora dos descontos em folha de pagamento das consignações autorizadas por seus beneficiários, dentro dos limites legais, entre as mais de 150 instituições financeiras habilitadas para essa finalidade”.
“A SPPREV não participa da celebração dos contratos, tampouco interfere nas condições pactuadas”, afirma o órgão. A instituição diz, ainda, que o credenciamento das entidades ocorre mediante o cumprimento de requisitos legais e regulamentares previstos em lei e que “não cabe à SPPREV a análise de mérito sobre produtos ofertados ou decisões comerciais das instituições”.
Laços com a Universal
O acordo com o Digimais veio em momento de estreitamento das relações da PM paulista com a Igreja Universal. O Republicanos, partido do governador, tem como presidente o deputado federal Marcos Pereira, que é bispo licenciado da igreja, assim como o líder do governo Tarcísio na Assembleia Legislativa (Alesp), o pastor Gilmaci Santos.
Nos últimos anos, a PM tem usado os templos como salão de eventos para palestras e celebrações institucionais. A presença da Universal nos batalhões é rotineira, por meio do programa Universal nas Forças Policiais (UFP), que visa “prestar assistência espiritual, social e valorização humana aos integrantes das Forças de Segurança”.
Os comandantes da corporação costumam recorrer a lideranças da Universal para falar para seus efetivos sobre temas como saúde mental, autoajuda e inteligência emocional. Em 10 de fevereiro do ano passado, 2,5 mil agentes foram ao templo do Brás (foto em destaque), na área central de São Paulo, para um evento de 12 horas.
Na ocasião, os agentes ouviram uma palestra do pastor Roni Negreiros sobre “Saúde Emocional com Fundamentos Bíblicos”. Ele afirmou aos policiais que a Universal tinha capelães em todas as unidades da PM de São Paulo, inclusive na Corregedoria e no presídio Romão Gomes, onde militares que cometeram delitos são presos.
Os capelães são uma espécie de guias espirituais da Igreja Universal, que presta assistência em hospitais, presídios e comunidades terapêuticas. Negreiros ressaltou que, embora a Igreja estivesse à disposição dos policiais, a liberdade religiosa seria respeitada.
Procurada pelo Metrópoles, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou, por meio de nota, que a “Polícia Militar que é uma instituição composta por mais de 80 mil pessoas, com diferentes formações culturais e religiosas, e que respeita a liberdade de consciência e de crença de todo o seu efetivo”.
“As identificações e convicções pessoais dos policiais não representam os valores e os princípios da instituição e não interferem em sua missão primordial de proteger as pessoas por meio de policiamento ostensivo e preventivo. Em situações pontuais, a PM utiliza as instalações de igrejas ou outras instituições, como universidades e prefeituras, para reuniões de instrução a grandes grupos de policiais, de acordo com a necessidade de cada unidade”, diz a nota.

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