Fintech investigada no caso Master tem elo com o esquema de MC Ryan
A fintech Cartos Sociedade de Crédito Direto SA também é alvo da CPI das Bets e da Operação Sem Desconto, que apura fraudes no INSS
atualizado
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A fintech Cartos Sociedade de Crédito Direto SA apareceu mais uma vez no radar da Polícia Federal (PF) após já ser investigada pelo escândalo do banco Master, de Daniel Vorcaro (em destaque, à esquerda). A empresa é mencionada no esquema bilionário de lavagem de dinheiro supostamente chefiado por Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP (em destaque, à direita).
O artista foi preso na última quarta-feira (15/4) no âmbito da Operação Narco Fluxo. A investigação identificou uma estrutura criminosa que utiliza as indústrias fonográfica e de entretenimento para lavar dinheiro de origem ilícita.
Segundo a PF, a Cartos atuou como provedora de infraestrutura financeira (Banking as a Service – BaaS) para uma empresa de fachada operada pela organização criminosa chefiada por Ryan, a Broker Platinum Invest e Tecnologia Ltda.
A Broker, por sua vez, seria uma empresa de fachada usada estrategicamente na estrutura da lavagem de dinheiro. A instituição servia como canal intermediário clandestino para transferir o dinheiro arrecadado por plataformas de apostas ilegais, as bets, e transferi-lo para contas de laranjas e operadores financeiros da organização criminosa.
Fintech ignorou irregularidades de empresa de fachada
A Cartos teria operado sob “cegueira deliberada” ao aceitar o contrato da Broker Platinum com “dados cadastrais manifestamente viciados e incompatíveis”.
Dentre as irregularidades, os investigadores suspeitam do capital social de R$ 10 mil – valor apontado como “irrisório” para uma empresa que se apresenta como corretora de títulos e valores imobiliários.
A Broker declarava exercer atividades financeiras sofisticadas, como corretagem de valores, tratamento de dados e consultoria em TI, para justificar grandes movimentações financeiras. No entanto, a instituição não não possuía autorização do Banco Central nem da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para operar nesse segmento.
A empresa também compartilhava o mesmo endereço de outras fintechs investigadas, como a YCFSHOP (OMS Tecnologia) e a SHOPRMS. Para a PF, isso demonstra que as instituições operavam sob o mesmo comando ou estrutura logística.
O atual sócio, Jonatas Cleiton de Almeida Santos, declarou residir no mesmo endereço comercial da empresa, o que indica o uso de um endereço virtual ou que ele atuava com um laranja, residindo em uma “empresa de fachada”.
Já a sócia fundadora, Estefany Pereira da Silva é acusada de utilizar dados ideologicamente falsos para firmar contratos bancários pela empresa. Ela se retirou da sociedade às vésperas de grandes repasses financeiros.
Para a PF, apesar da fachada de corretora, a Broker operava na prática como um estabelecimento comercial que recebia valores vultuosos, mais tarde pulverizados via Pix. Este fato, segundo a investigação, deveria ter acionado os alertas de compliance da Cartos.
Suspeitas sobre a fintech
Além de fazer vista-grossa internamente para as irregularidades da Broker, a Cartos se esquivou da fiscalização do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) ao fornecer informações rasas sobre a empresa.
A fintech emitiu um alerta à COAF que omitia dados de volumetria da Broker e abrangia um período de apenas 10 dias – de 6 a 10 de outubro de 2024. Para a PF, esta foi uma “comunicação defensiva” utilizada como manobra para escapar de sanções regulatórias.
Os investigadores destacaram ainda que a Cartos figura como alvo central em outras investigações de alta gravidade, como a CPI das Bets e as operações Compliance Zero e Sem Desconto, que investigam o escândalo do banco Master e os descontos indevidos do INSS, respectivamente.
Na CPI das Bets, a fintech é apontada como ferramenta na lavagem de dinheiro oriundo de jogos de azar. A instituição também é investigada por associação com organizações criminosas e influenciadores. De acordo com a PF, a estrutura é a mesma que a utilizada no esquema envolvendo o MC Ryan.
E, nas investigações relacionadas ao banco Master e à farra do INSS, revelada pelo Metrópoles, a Cartos aparece como um instrumento para ocultar transações bilionárias. A fintech funcionaria como uma espécie de “caixa-preta”, dificultando o rastreamento das operações.
Apesar dos indícios, na investigação relacionada ao núcleo de MC Ryan, a Cartos não é apontada como parte da estrutura criminosa, mas como um elemento que permitiu que a organização funcionasse. A empresa não foi alvo de busca e apreensão e seus representantes também não foram alvos de pedidos de prisão temporária, como ocorreu com 39 dos investigados no esquema.
O que diz a Cartos
Em nota, a Cartos afirmou que não tem qualquer vínculo, direto ou indireto, com atividades ilícitas, “repudiando veementemente qualquer insinuação nesse sentido”. “Todas as suas operações são legítimas, íntegras e devidamente lastreadas, com documentação completa, rastreável e em conformidade com a regulamentação vigente, incluindo operações estruturadas no âmbito de BaaS”, diz a empresa.
Ainda conforme o texto, a atuação da fintech nesse modelo “é sustentada por controles robustos de compliance, prevenção à lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo (PLD/FT), bem como por rigorosas políticas de governança e gestão de riscos, assegurando segurança jurídica e operacional a parceiros e ao mercado”.
“Diante do exposto, a empresa informa que não tem conhecimento de eventual utilização de contas por correntistas para a prática de atos ilícitos, razão pela qual entende figurar como possível vítima na situação. A instituição permanece à inteira disposição das autoridades competentes para prestar quaisquer esclarecimentos necessários”, finaliza a nota.
Operação Narco Fluxo
- Segundo a PF, mais de 200 policiais federais participam da operação e buscaram cumprir 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária, expedidos pelo Juízo da 5ª Vara Federal de Santos.
- De acordo com a PF, a ação aconteceu nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal.
- A PF acredita que o volume financeiro pelo grupo criminoso ultrapassa R$ 260 bilhões, conforme decisão do juiz Roberto Lemos dos Santos Filho que autorizou a operação. Além de armas, carrões e dinheiro em espécie, a corporação apreendeu documentos e equipamentos eletrônicos que ajudarão na investigação.
- Entre os presos na operação desta quarta estão os funkeiros MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e Raphael Sousa, dono da página Choquei.
- A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 2,2 bilhões em bens de Ryan.
- O bloqueio foi imposto a 77 alvos da PF, entre empresas e pessoas físicas.
- De acordo com a decisão judicial, o valor estimado para o bloqueio foi calculado com base no lucro estimado com os crimes que teriam sido praticados: “tráfico internacional de mais de três toneladas de cocaína, somado ao fluxo financeiro identificado nos relatórios de inteligência financeira encaminhados pelo Coaf “, de R$ 1,6 bilhão.
- Também foram determinadas medidas de constrição patrimonial, incluindo o sequestro de bens e a imposição de restrições societárias, com o objetivo de interromper as atividades ilícitas e preservar ativos para eventual ressarcimento.
- As investigações continuam e os alvos podem responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
- Além de Ryan, outros 32 alvos também foram presos, incluindo Marlon Brendon Coelho Couto Silva, o MC Poze, Raphael Sousa Oliveira, dono da página Choquei, e o casal de influenciadores Chrys Dias e Débora Paixão. Todas as prisões foram mantidas após audiência de custódia e seis pessoas permanecem foragidas.
Envolvidos se manifestam
Em nota, a defesa de MC Ryan informou que não teve acesso ao procedimento e afirmou confiar que os esclarecimentos que serão prestados demonstrarão a verdade dos fatos.
“Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável”, disseram os advogados.
Já os advogados de MC Poze afirmaram desconhecer os autos ou teor do mandado de prisão. “Com acesso aos mesmos, [a defesa] se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário”, informou o texto.
A defesa de Raphael Sousa, dono da Choquei, disse, em nota, que “seu vínculo com os fatos investigados decorre, exclusivamente, da prestação de serviços publicitários por meio de sua empresa, responsável pela comercialização de espaço de divulgação digital. Os valores por ele recebidos referem-se a serviços efetivamente prestados de publicidade e marketing, atividade lícita e regularmente exercida há anos”.
Segundo o advogado Pedro Paulo de Medeiros, “Raphael não integra organização criminosa, não participou de qualquer esquema ilícito e jamais exerceu função diversa da veiculação publicitária contratada”.
Já a defesa de Chrys Dias e Débora Paixão informou que, como o processo corre sob segredo de Justiça, as manifestações ocorrerão apenas nos autos. “Repudiamos os vazamentos de imagens que violaram a privacidade da família e a presunção de inocência, reiterando nossa confiança na Justiça”, diz a nota.












































