Áudio de “contador do PCC” reforça elo de MC com esquema: “Ryan sabe”
Diálogo entre Rodrigo Morgado, apontado como “contador do PCC”, e suposto operador de Ryan foi usado pela PF para pedir prisão de funkeiro
atualizado
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Ao representar pela prisão de Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, a Polícia Federal (PF) citou diálogos entre um dos operadores dele e um homem apontado como “contador” do Primeiro Comando da Capital (PCC) para demonstrar que o funkeiro tinha conhecimento das manobras de blindagem patrimonial e da compra de um imóvel de R$ 1,4 milhão em São Paulo supostamente realizada para lavar dinheiro.
Ryan foi detido na última quarta-feira (15/4), durante a operação Narco Fluxo. A PF disse que o cantor seria o líder de uma organização criminosa estruturada para lavar dinheiro do crime organizado por meio de produtoras musicais. O esquema teria movimentado pelo menos R$ 1,6 bilhão.
A investigação é um desdobramento de uma outra operação da PF, deflagrada em maio do ano passado. Na ocasião, o empresário Rodrigo Morgado foi apontado como o responsável por arquitetar a estrutura de lavagem do dinheiro do tráfico internacional de drogas do PCC por meio de casas de apostas divulgadas por influenciadores. A partir da quebra do sigilo telemático de Morgado, a PF encontrou os diálogos com Tiago de Oliveira, suposto operador do funkeiro.
Em um dos áudios mencionados pela PF, o “contador do PCC” pede que um imóvel que seria adquirido por Ryan fosse colocado nome da holding do cantor. O objetivo, diz Morgado, seria “proteção patrimonial”.
“Tiago, aqui nós não brinca em serviço não, meu amigo. Todas as certidões aí na mão, fechou? Agora a gente pode comprar o imóvel tranquilo. Vamos para cima. Agora eu vou assinar o contrato. E depois de assinar o contrato, o registro pelo cartório eu faço aqui, tá? Só que, ó, não coloca no nome do Ryan. Não põe o nome do Ryan, vamos pôr o nome da holding. Proteção patrimonial, lembra que eu te falei aquele dia”, disse Morgado.
Um dos indícios de que a compra do imóvel por R$ 1,4 milhão teria sido usada para lavar dinheiro, segundo a PF, é o contrato de compra indicar que R$ 1,1 milhão, equivalente a 78% do valor total, seria pago por meio de carros que seriam entregues pela empresa Ez Multimarcas Veículos.
“Referida negociação, na forma em que entabulada, apresenta indícios veementes de aquisição do imóvel de maneira irregular, ao dispor de uma estrutura de pagamento complexa, com sinais de ocultação de valores, isso por intermédio de dação em pagamento de elevado valor em veículos”, diz a PF.
Em outro áudio citado pelos delegados, Tiago diz a Morgado que o apartamento já estaria sob o controle do funkeiro, apesar de o contrato dizer que a posse efetiva ocorreria quase um ano depois. Após contador apontar um problema no documento, com erros nos nomes dos antigos proprietários, Tiago disse que Ryan estava ciente.
“O Ryan já sabe, mano. Esse papel vai ter que… os caras vai voltar, não é nem essa Thaiz aí, não tem nada a ver, mano. Entendeu? Essa mulher é antiga proprietária, o ‘bagulho’ tá em outro nome”, afirmou Tiago.
Pra os delegados que assinam a representação, “as mensagens analisadas, havia plena ciência acerca da irregularidade da cadeia de propriedade e, mesmo assim, ocorrera a formalização do contrato para garantir o acesso ao imóvel, tratando o instrumento de compra e venda como uma formalidade”.
Líder do esquema
Mc Ryan SP foi preso na manhã da última quarta-feira (15/4), durante a operação Narco Fluxo. Além dele, outros influenciadores foram detidos, como o funkeiro Poze do Rodo e Raphael Sousa, dono da página de fofocas Choquei.
De acordo com a investigação, MC Ryan era o principal beneficiário da organização criminosa e desempenhava diferentes papéis no esquema. Ele utilizava empresas dele ligadas à produção musical e a própria fama nas redes sociais para mesclar receitas legítimas com dinheiro ilícito de apostas ilegais e rifas digitais. As autoridades citam um vínculo estrutural do esquema com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
O artista também teria transferido participações societárias para “laranjas”, inclusive familiares, para ocultar seu patrimônio. Após a lavagem, o dinheiro era reinserido na economia formal a partir da aquisição de imóveis de alto padrão, veículos de luxo, joias e outros ativos de alto valor.
A PF ainda aponta que Ryan pagava operadores de mídia para publicar conteúdos favoráveis a ele e promover suas plataformas de apostas. A ação ainda teria o objetivo de mitigar eventuais crises de imagem relacionadas às investigações.














