Fachada ativa: donos de loja denunciam abandono, depredação e prejuízo
Loja de fachada ativa vira alvo de invasões e ladrões levam até motor de elevador em meio ao desespero dos proprietários na zona sul de SP
atualizado
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Esquadrias arrancadas, vidros quebrados, equipamentos roubados, reboco destruído e o que restou da fiação, exposta. A loja de fachada ativa, obtida como permuta para que a construtora pudesse levantar um prédio de 20 andares na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, virou sinônimo de prejuízo e desgosto para os proprietários após uma série de ações criminosas ao longo dos últimos meses.
Trocar os terrenos onde tinham dois imóveis como fonte de aluguel por duas lojas de fachada ativa, em um empreendimento da construtora Cyrela, em um total de 500 m² de área construída, no cruzamento da Avenida Lins de Vasconcelos com a Rua Vergueiro, parecia um excelente negócio para os empresários Samuel Sinésio e Rosa Antunes. Mas restou a decepção.
Uma das lojas foi arrombada por ladrões diversas vezes, em um espaço sem segurança patrimonial. Foram registrados boletins de ocorrência. Entre os danos, até mesmo o motor e a estrutura que davam forma a um elevador foram levados por criminosos, que, entre outras coisas, chegaram a defecar no contrapiso do imóvel.
Antes mesmo de ser entregue aos proprietários, o local já tinha sido alvo de invasores, com a necessidade de substituição de vidros quebrados. “Tiveram que fazer plantão aqui, porque eles colocavam em um dia e roubavam no outro”, diz Sinésio.
Em fevereiro, a fachada ativa virou uma parede de blocos. Desesperados com as frequentes invasões, os proprietários subiram um muro de alvenaria e colocaram porta e placas de aço, com cadeados, onde antes havia vidro na unidade mais afetada. “Na hora em que tirar essa muralha, eles vão entrar”, afirma Sinésio, que ressalta o risco de ainda tomar multa por alteração da frente do prédio.
A insegurança não se restringe ao condomínio. Em meio às invasões, ladrões chegaram a usar o imóvel como acesso a um comércio ao lado, de onde levaram condensadores de ar condicionado.
A parte residencial do condomínio tem segurança privada 24 horas por dia, com custo estimado em R$ 70 mil mensais, segundo informações obtidas pela reportagem. Para ampliar o serviço à área comercial, seriam necessários mais R$ 45 mil, divididos entre cinco unidades. Na prática, o valor tornaria quase inviável a locação das lojas.
No início de fevereiro, tanto a administradora, quanto a construtora, receberam notificação extrajudicial, relatando os problemas na fachada.
Durante a construção do prédio, a Cyrela pagou cerca de R$ 16 mil mensais aos proprietários, como compensação. Entretanto, desde que as chaves foram entregues, eles não conseguiram mais fazer a locação das duas lojas, um prejuízo que se aproxima dos R$ 200 mil ao longo de um ano.
Para Rosa, faltou transparência por parte da Cyrela durante a negociação. Ela aponta problemas nos dois imóveis, como um vidro lateral que foi facilmente arrombado pelos invasores na loja da Vergueiro, além de uma planta cheia de colunas, quinas e rebarbas. A reclamação é comum entre outros proprietários de fachadas ativas na cidade. “A gente nunca tinha feito esse tipo de negócio com ninguém. Assinamos um contrato confiando na marca e o que a Cirela fez? Ela não me apresentou o projeto do que eu ia receber”, diz.
Além dos dois imóveis de Rosa e Sinésio, outras fachadas ativas do prédio também estão depredadas, com esquadrias de alumínio arrancadas e vidros rachados.
Ociosidade
Fachadas ativas são espaços comerciais no térreo dos prédios. A construção desse tipo de imóvel foi estimulada pelo plano-diretor de 2014, como forma de, justamente, aumentar a segurança no interior dos bairros, ao substituir as muralhas impessoais dos condomínios por lojas, incentivando o convívio. Em troca da inclusão de fachadas ativas em seus projetos, as construtoras poderiam edificar acima do limite estabelecido pela prefeitura, sem pagar mais por isso.
Segundo pesquisa da Associação Comercial de São Paulo, entre 60% e 80% das lojas de fachadas ativas estavam vazias no ano passado. Viraram garantia para a captação de recursos, moeda de troca para construtoras obterem mais terrenos ou estoque nas mãos de investidores, entre outras funções.
O que dizem administradora e SSP
A administradora Tecmóbili, responsável pelo NAU, afirma que é sensível aos problemas citados na notificação extrajudicial pelos proprietários das fachadas ativas no condomínio. “Em assembleia realizada recentemente, com base na convenção que rege o condomínio e apoiados no Código Civil e demais legislações pertinentes, não se chegou a um consenso sobre as opções e custos de segurança”, diz.
Segundo a Tecmóbili, será realizada uma nova assembleia geral para a discussão e deliberação das opções possíveis para o enfrentamento da situação.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirma que os casos são investigados pelo 6º e pelo 36º Distritos Policiais.
“As equipes das unidades realizam diligências em campo em busca de testemunhas e de outros elementos que auxiliem na identificação dos autores e no completo esclarecimento dos fatos”, diz.
Segundo a SSP, o patrulhamento também foi intensificado pelas equipes da Polícia Militar, além do policiamento especializado realizado pela Polícia Civil, com foco no combate aos crimes patrimoniais.
A pasta diz que, como resultado dessas ações, em janeiro os roubos a residências apresentaram queda de 44% e os furtos de 34% na capital, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
“Nas áreas atendidas pela 1ª e 2ª seccionais, também houve redução de 18,81% e 25,59% nos roubos em geral no mesmo período. As duas regiões somam ainda 1.003 prisões e apreensões realizadas”, diz.
A SSP também diz que o cidadão ou comerciante que tiver interesse em conectar sua câmera ao programa Muralha Paulista e contribuir com o reforço da segurança no Estado pode fazer a solicitação pelo Portal do Colaborador.
Procurada a Cyrela não se manifestou até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.



















