Esquema de auditores tinha salão de beleza e casa de repouso, diz MPSP
Investigação do MPSP aponta que auditores usavam diversas empresas, de salões à casa de repouso, para lavar dinheiro de corrupção
atualizado
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O esquema de corrupção revelado pelas investigações que resultaram na Operação Mágico de Oz, deflagrada nesta sexta-feira (13/3), envolvia uma clínica de estética, um salão de beleza e até uma casa de repouso para lavagem de dinheiro de uma organização criminosa, segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP). Duas pessoas foram presas e o vice-prefeito de Tupi Paulista foi afastado do cargo.
A investigação que deu origem à operação apontou que a clínica Estética Vila Romana e o salão Estúdio Vila Romana Cabeleireiros, ambos localizados na zona oeste da capital paulista, receberam “vultuosos valores” da empresa Smart Tax Consultoria e Auditoria Tributária.
Seundo o MPSP, a Smart Tax era a organização utilizada pelo auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, que trabalhava na Receita Estadual, para lavar o dinheiro da propina recebida por ele. A empresa estava no nome da mãe de Artur, Kimio Mizukami da Silva, e já tinha aparecido na Operação Ícaro, que prendeu o dono da rede de farmácias Ultrafarma, Sidney Oliveira, em agosto de 2025. Artur também foi alvo de mandato de prisão na época.
Na ocasião, um suposto esquema de corrupção envolvendo fraude bilionária em créditos de ICMS terminou com seis presos e milhões apreendidos em dinheiro e bens, além de relógios de luxo e esmeraldas.
A nova etapa da investigação, deflagrada nesta sexta, mostrou agora que a clínica Estética Vila Romana e o salão Estúdio Vila Romana Cabeleireiros eram alguns dos destinos da lavagem de dinheiro. Ambas as empresas eram da contadora Maria Hermínia de Jesus Santa Clara, e tinham como sócios Lygia Pereira David e Osvanir Luiz Valenciano.
Osvanir é agente fiscal de rendas aposentado e pai de Rafael Merighi Valenciano, que é agente de rendas na ativa. Já Lygia é mãe do também auditor fiscal da Receita Estadual, Jorge David Junior, que trabalhava junto de Rafael na Delegacia Regional Tributária de Osasco, na região metropolitana da capital.
A apuração do MPSP aponta que Rafael e Jorge, junto com os auditores Fernando Kenki Iwai e Milton Mamoru Makanishi criaram uma estrutura para a prática de crimes de corrupção, envolvendo diversas empresas.
Outro foco da apuração foi a Clínica de Repouso Bosque dos Ipês, que recentemente teve o nome social alterado para Residencial Sênior Terras de Santa Maria, e fica em Tupi Paulista, no interior de São Paulo.
Na decisão que autoriza o bloqueio de bens dos investigados na operação, o juiz Paulo Fernando Deroma De Mello diz que a casa de repouso tinha como sócia outra pessoa ligada à família Valenciano – a esposa de Rafael, Ariella Tassoni Antonio Valenciano. Também aparece como sócio do local o vice-prefeito de Tupi Paulista, Frederico Marquezim Gonçalves, um dos alvos da operação desta sexta.
“O Ministério Público demonstrou que os investigados possuem um extenso patrimônio, contando com diversos bens imóveis, no entanto, foi constatado um quadro de notória incompatibilidade patrimonial, com fortes indícios de que os bens tenham sido adquiridos com valores ilícitos”, diz a decisão do juiz.
Segundo o magistrado, os indícios de práticas ilícitas se tornaram ainda mais robustos durante a deflagração da Operação Ícaro. Na busca e apreensão feita na casa de Maria Hermínia de Jesus Santa Clara, uma das sócias do salão de beleza, foram localizados ao menos sete computadores funcionais da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, além de diversos certificados digitais de Agentes Fiscais de Renda.
“Dentre esses computadores apreendidos, com o respectivo crachá funcional e certificado digital, estava o de Fernando Iwai”, afirma o juiz.
Fernando aparece, de acordo com o MPSP, como sócio de diversas pessoas jurídicas, no ramo de alimentação e software. Segundo o juiz que analisou o material, há indícios claros de que as empresas tenham sido adquiridas com produto de corrupção. Milton também aparece como sócio de estabelecimentos, entre eles uma holding de investimentos em parceria com Rafael e outro sócio.
A decisão do juiz aponta que os agentes mencionados teriam criados diversas pessoas jurídicas para lavar dinheiro produto de corrupção, “bem como se valeram de familiares e pessoas interpostas com a mesma finalidade”, e revelaram um “sofisticado esquema de corrupção”.
Foram determinados o sequestro de bens de sete investigados, entre pessoas físicas e jurídicas; o sequestro e bloqueio de valores até R$ 20,8 milhões nas contas de 17 pessoas físicas e jurídicas; e o sequestro e bloqueio de valores custodiados em diversas empresas de câmbio ligada aos investigados.
Em nota, a Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo (Sefaz-SP) disse que atua desde a deflagração da Operação Ícaro, em conjunto com o MPSP, colaborando com as investigações.
“Como integrante do Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (CIRA-SP), a Sefaz-SP tem atuado em diversas frentes e operações de combate à sonegação fiscal, à lavagem de dinheiro e a ilícitos contra a ordem tributária, em conjunto com os órgãos responsáveis pela operação deflagrada na data de hoje”, afirma a pasta.
