Em áudio, empresário detalha pedido de propina de policiais civis
Em áudio obtido pelo MPSP, empresário nega extorsão de R$ 33 milhões — valor seria de R$ 700 mil. Policiais foram alvo de operação nesta 5ª
atualizado
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Áudios obtidos pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) indicam que policiais civis investigados por um suposto esquema de corrupção sistêmica e lavagem de dinheiro – e que teria se instalado em departamentos estratégicos da Polícia Civil paulista – negociavam cifras milionárias com seus alvos.
Em uma das conversas, agentes do 16º Distrito Policial (Vila Clementino) citaram a quantia de R$ 33 milhões ao mencionar a extorsão de um empresário com uma suposta investigação em andamento.
No trecho descrito, de acordo com as investigações, o advogado Guilherme Sacomano Nasser envia uma mensagem ao empresário Cléber Azevedo dos Santos. Ele diz ter voltado de uma delegacia e obtido informações sobre a transferência milionária.
“Clebinho, beleza? Clebinho, chegou essa intimação, na verdade, chegou ao endereço deles, mas é referente àquela questão (cita uma empresa). Eu fui à delegacia, tá? É referente a uma transferência de R$ 33 milhões”, diz o advogado.
Na sequência, o advogado diz que conhece o delegado responsável pelo 16º DP, onde trabalhavam tanto o delegado quanto os investigadores e o escrivão presos nesta quinta-feira (5/3). “Ali, naquela delegacia, o delegado é ‘parceiraço’ meu, tá? Você quer que eu faça alguma coisa lá? Vou aguardar a orientação tua, tá bom?”, finaliza.
Em seguida, o empresário responde. Ele diz saber que o seu nome apareceu em uma investigação ainda que o valor milionário solicitado era, segundo ele, uma mentira. “Já estou sabendo que o meu nome está lá rolando, mas não procede essa informação de R$ 33 milhões. Isso aí não existe, é fumaça. E os caras já até pediram um número lá”, explica. O empresário afirma que o valor real solicitado evitar a sua prisão girava em torno de R$ 700 mil.
“Vamos ver o acesso, vamos ver o que que tem e vamos fazer o que tem ser feito, correto, né? Não vem com a palhaçada, né? Concorda?”, diz.
Depois, o empresário agradece ao advogado e cita o nome de Robson Martins de Souza, outro alvo da Operação Bazaar. “O Robson vai com você lá. Agradeço. Mas sem sacanagem, né? Os ‘cara’ quer vir com sacanagem, meu. Ele (Robson) também tem um conhecimento lá, Gui. Vou mandar ele falar com você. Aí, alinha e vai lá ver, beleza?”, complementou.
Relação de amizade
Fontes ligadas ao caso explicam que o diálogo interceptado evidencia a relação de amizade que o advogado Guilherme Sacomano Nasser teria com o delegado João Eduardo da Silva — um dos alvos de prisão preventiva.
“Clebinho, esses caras dão aula comigo. Então, comigo eles não achacam, entendeu? Comigo é na real. Então tira já na base, arranca na raiz, entendeu? Dá um troquinho lá pros ‘cara’, tira aí cinquentinha de um, cinquentinha teu [o termo “cinquentinha” faz alusão à quantia de R$ 50 mil], aí dá cenzinho pros ‘cara’ e acabou”, diz o advogado ao empresário.
Depois, o advogado reforça que o pagamento daria fim à pressão feita pelos investigadores e diz que não há nenhum inquérito instaurado sobre o caso em questão. “Porque não tem inquérito, não tem nada. Então, se os caras quiserem pentelhar, vão encher o saco”.
Na decisão que autoriza o cumprimento dos mandados de prisão, busca e apreensão e medidas cautelares contra os policiais, doleiros, advogados e outros investigados – à qual o Metrópoles teve acesso –, o juiz Paulo Fernando Deroma De Mello cita outro diálogo dos investigadores para reforçar a urgência da Operação Bazaar.
Em dezembro de 2022, o investigado Paulo Rogério Dias, conhecido como Paulo Barão, enviou um áudio em que demonstrava preocupação com uma investigação em tramitação no 16º DP. Os nomes de Cleber e Robson novamente voltam a ser citados. Na ocasião, Paulo diz que foi solicitada a quantia de R$ 5 milhões.
A investigação diz que o principal responsável por intermediar o pagamento de vantagens indevidas aos policiais alvos da operação é o advogado Guilherme Sacomano Nasser, em especial pela proximidade com o delegado João Eduardo da Silva e o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz.
