MPSP diz que dinheiro do PCC foi usado por Transunião para vencer licitação
Pessoas ligadas ao PCC teriam feito aportes para elevar capital social da empresa, de R$ 100 mil para R$ 50 milhões, e adequá-la ao certame

A empresa de ônibus Transunião, alvo de operação nesta quinta-feira (25/6) por suspeita de lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), teria usado dinheiro da facção para vencer a licitação que garantiu o direito de operar no transporte público da cidade de São Paulo. De acordo com as investigações, a companhia passou por uma série de alterações societárias entre 2015 e 2019, com seu capital passando de R$ 100 mil para R$ 50 milhões, com o objetivo de se adequar ao certame.
Em entrevista coletiva concedida na sede do Ministério Público de São Paulo (MPSP), o promotor Danilo Pugliesi, um dos responsáveis pela apuração, afirmou que “pessoas ligadas ao PCC” fizeram aportes para aumentar o patrimônio da Transunião.
“Na integralização de capital que essas empresas declararam para participar da licitação de transporte público, houve a entrada formal de dinheiro de origem ilícita, não declarada, por meio de pessoas que não tinham lastro para isso. Essa metodologia que foi empregada ao olhar as alterações societárias da UpBus e da Transwolff foi o que foi replicado na Transunião, e da mesma forma se confirmou”, disse o promotor.
As empresas citadas pelo representante do MPSP foram alvo da Operação Fim da Linha, em abril de 2024. Na ocasião, a Justiça determinou a intervenção da Prefeitura de São Paulo na gestão das empresas. Na coletiva desta quinta-feira, o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira, afirmou que os crimes envolvendo a Transunião já eram investigados na época, mas faltavam alguns elementos para incluí-los na operação.
O ponto de partida para as investigações foi a morte de Adauto Soares Jorge, assassinado a tiros em uma padaria no bairro Lajeado, na zona leste, em março de 2020. Dois anos depois, as apurações já apontavam que ele atuava como um laranja do vereador Senival Moura (PT), na Transunião. O parlamentar foi preso nesta quinta.
Jair Ramos de Freitas, o “Cachorrão”, foi identificado como autor dos disparos. O Ministério Público acredita que o crime foi motivado por “quebra de confiança” financeira. Integrantes da facção teriam descoberto que Adauto estaria desviando valores da Transunião para subsidiar um “caixa dois” para a campanha de reeleição de Senival Moura em 2020, em detrimento dos repasses que deveriam ser feitos ao PCC.
Diante disso, o operador Leonel Martins teria sido escalado para resolver a questão por meio do “tribunal do crime”, que resultou na ordem de execução. Ao contrário de Adauto, Senival teria sido perdoado pela facção, mediante o ressarcimento dos valores desviados.
“É um conjunto probatório. Ao lado dessas evidências decorrentes do assassinato, se somaram quebras de sigilo bancários, análises telemáticas, de conversas, dos pen drives, análise da estrutura societária”, afirmou Danilo Pugliesi.
Operação Última Parada
Na Operação Última Parada, além de Senival, foram alvo de mandado de prisão:
- Jair Ramos de Freitas (“Cachorrão”): apontado como autor do homicídio de Adauto Soares Jorge e articulador da lavagem de dinheiro.
- Leonel Moreira Martins: operador financeiro e elo entre a empresa e o núcleo familiar beneficiário.
- Lourival de França Monário: atual diretor-presidente formal da Transunião, envolvido em movimentações financeiras incompatíveis.
- Devanil de Souza Nascimento (“Sapo”): apontado como operador e suporte de Senival Moura; envolvido na morte de Adauto.
A Justiça determinou a suspensão das atividades econômicas da Transunião, pivô do esquema de lavagem de dinheiro, e da Duvale Distribuidora de Petróleo e Álcool Ltda., apontada como núcleo de lavagem em benefício do PCC. Também foi decretado o sequestro e bloqueio de R$ 194 milhões de contas bancárias ligadas aos investigados, além de 117 veículos, 21 imóveis e três embarcações.

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