Deputado aciona MPSP contra consignados do governo no Digimais
Antonio Donato (PT) apresentou representação para que MPSP apure ligação do banco de Edir Macedo com o governo de São Paulo

O deputado estadual Antonio Donato (PT) apresentou uma representação, nesta quinta-feira (25/6), ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) com pedido de apuração sobre suspeitas de irregularidades na autorização da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) para empréstimos consignados de servidores pelo Banco Digimais. A instituição financeira foi alvo nessa terça-feira (23/6) de operação da Polícia Federal (PF).
O banco pertence ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal ligado ao Republicanos, partido de Tarcísio. Anteriormente, o Metrópoles mostrou que o aval da gestão estadual ocorreu dois anos após a Secretaria da Fazenda indeferir o serviço por parte do banco.
Em novembro de 2023, o Diário Oficial divulgou despacho apontando que o Digimais não atendia às exigências estabelecidas no Decreto nº 60.435/2014 e alterações posterior”. Em junho de 2025, o secretário Caio Mário Paes de Andrade, da pasta de Gestão e Governo Digital, autorizou o credenciamento do banco como consignatário e também para as categorias empréstimo bancário, cartão de benefício e cartão de crédito.
A Polícia Militar (PM) de São Paulo também foi liberada pelo governo de Tarcísio para operar consignados do Banco Digimais. O crédito aos PMs paulistas abriu uma clientela considerável, já que a corporação conta com mais de 80 mil policiais militares.
Em maio, o Ministério Público de São Paulo arquivou uma representação sobre o assunto, menos de 15 dias depois do protocolamento. “No caso dos autos, o que se vê é a mera suspeita de inidoneidade da instituição financeira que contratou com a administração estadual, não havendo nenhum elemento concreto que aponte para a invalidade dos acordos ou ilícitos decorrentes dele”, afirmou a Promotoria do Patrimônio em documento.
Donato afirmou ao Metrópoles que pedirá a convocação do secretário Caio Andrade para dar explicações na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
Digimais alvo da PF
Nesta semana, policiais cumpriram nove mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao Digimais. Edir Macedo não foi alvo porque não mora no Brasil, mas teve a quebra de sigilo bancário e o bloqueio dos bens decretados pela Justiça.
A suspeita é a de que o Digimais manipulou balanços, fraudou registros regulatórios e inflou artificialmente valores de ativos para ocultar a real situação financeira da instituição, o que seria crime contra o sistema financeiro.
Em janeiro de 2025, o Banco Central rejeitou a venda do Digimais para o BlueBank, de Maurício Quadrado, ex-sócio do Master e investigado pela PF pelos crimes que teriam sido cometidos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro e parceiros.
O que diz o governo de SP
Procurado pela reportagem, o governo estadual afirmou, em nota, que “em 2025, o Banco Digimais apresentou novo pedido de credenciamento, devidamente instruído com a documentação exigida e o atendimento integral das exigências regulatórias previstas, resultando no deferimento em ato vinculado à conformidade normativa”.
A gestão Tarcísio também informou que o credenciamento no sistema estadual de consignações “é ato vinculado, não discricionário, regido por critérios objetivos previstos em norma”. Acrescentou que estuda medidas cautelares, “com foco na regularidade das operações, na proteção dos servidores e na integridade do sistema”.
O governo disse ainda que “considerando o total de operações do estado por mês, o Digimais representa a parcela de 1,57% dessas transações”, segundo valores referentes a maio de 2026.
Municípios paulistas
O Digimais fez contratos com institutos de previdência municipais para empréstimos consignados em ao menos 10 municípios paulistas. Entre eles, estão Tupã, Pindamonhangaba, Praia Grande, São Sebastião, Ubatuba, Tambaú, Guarulhos, São Roque, São José do Rio Preto e a capital do estado.
Prefeituras credenciaram a instituição para descontar empréstimos diretamente da folha de funcionários, aposentados e pensionistas.
Quando as cidades paulistas liberaram os consignados, os problemas financeiros do banco do bispo Edir Macedo já eram públicos. Como o valor da prestação é descontado direto na folha de pagamento, o crédito costuma ter juros menores do que os de mercado e ajuda a garantir mais liquidez aos bancos em momentos de crise.
Desde a pandemia de Covid-19, o Digimais enfrenta problemas de inadimplência que impactaram na liquidez. Relatórios de 2023 e 2024 mostram que a instituição precisou receber aportes de Edir Macedo para não quebrar.

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