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Delegado compara pai que acionou PM por desenho de orixá a Dom Quixote

Investigação citou “convicção pessoal e imaginação exacerbada” do homem diante de atividade escolar sobre cultura afro-brasileira

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Imagem colorida mostra PMs em frente à escola onde pai questionou desenho de orixá. Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra PMs em frente à escola onde pai questionou desenho de orixá. Metrópoles - Foto: Reprodução

O delegado responsável por investigar o caso do pai que chamou a polícia após a filha desenhar uma orixá na escola comparou o homem com o personagem Dom Quixote, do escritor espanhol Miguel de Cervantes. Após a conclusão do inquérito, o pai foi indiciado por intolerância religiosa.

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Desenho da orixá Iansã que motivou pai de aluna de escola infantil de São Paulo a chamar a polícia
Desenhos de alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, em atividade intitulada "Ciranda de Aruanda"
Capa do livro "Ciranda em Aruanda", de Liu Olivina, publicado pela Editora Quatro Cantos
No livro, a autora traz desenhos e informações sobre 10 orixás
Liu Olivina, autora de livro que inspirou atividade denunciada à PM
Desenhos que alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, fizeram em atividade sobre religiões de matriz africana
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Desenhos que alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, fizeram em atividade sobre religiões de matriz africana

Material cedido ao Metrópoles
Desenho da orixá Iansã que motivou pai de aluna de escola infantil de São Paulo a chamar a polícia
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Desenho da orixá Iansã que motivou pai de aluna de escola infantil de São Paulo a chamar a polícia

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Desenhos de alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, em atividade intitulada "Ciranda de Aruanda"
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Desenhos de alunos do EMEI Antônio Bento, em São Paulo, em atividade intitulada "Ciranda de Aruanda"

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Capa do livro "Ciranda em Aruanda", de Liu Olivina, publicado pela Editora Quatro Cantos
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Capa do livro "Ciranda em Aruanda", de Liu Olivina, publicado pela Editora Quatro Cantos

Reprodução/Liu Olivina/Editora Quatro Cantos
No livro, a autora traz desenhos e informações sobre 10 orixás
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No livro, a autora traz desenhos e informações sobre 10 orixás

Reprodução/Liu Olivina/Editora Quatro Cantos
Liu Olivina, autora de livro que inspirou atividade denunciada à PM
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Liu Olivina, autora de livro que inspirou atividade denunciada à PM

Acervo Pessoal

“O protagonista, movido por convicção pessoal e imaginação exacerbada, investe contra moinhos de vento acreditando tratar-se de ameaçadores gigantes”, lembrou o delegado responsável pelo inquérito, Saulo Ramos Furquim, ao citar a obra, lançada no ano de 1605.

“Naquela narrativa, a reação do personagem não se funda na realidade fática, mas na interpretação que constrói a partir dela. De modo semelhante, no presente caso, o investigado, ao deparar-se com mural contendo desenho infantil feito por sua filha alusivo à cultura afro-brasileira, interpretou tal contexto como prática de ensino religioso confessional, passando a agir de modo enérgico contra tal situação”, acrescentou.

Ainda segundo o delegado, o pai optou por “escalar o conflito” com a escola ao adotar postura beligerante e acionar a PM mesmo sabendo que haveria uma reunião do conselho escolar para discutir a atividade. O inquérito também aponta que o investigado ultrapassou os limites do direito de questionar o projeto pedagógico da escola e agiu de forma depreciativa em relação à cultura de matriz africana.

A Polícia Civil de São Paulo indiciou o homem por intolerância religiosa. O resultado da investigação foi enviado à Justiça e ao Ministério Público, que decidirá se oferece denúncia, propõe acordo na esfera penal ou adota outras medidas cabíveis.

Procurada pelo Metrópoles, a defesa do pai, que terá a identidade preservada para não expor a filha, informou que ele não quis se manifestar.

Pai acionou a PM após filha de 4 anos desenhar orixá

O caso foi revelado pelo Metrópoles e gerou repercussão nacional. Como mostrou a reportagem à época, no dia 12 de novembro de 2025, o pai da estudante chamou a PM após discordar de uma  atividade feita pela filha, de 4 anos. O homem, que também é policial, disse aos agentes que sua filha estaria sendo obrigada a ter “aula de religião africana”, e alegou que sua família era cristã e não concordava com aquilo.

No dia anterior ao ocorrido, ele já havia demonstrado insatisfação com o conteúdo escolar, baseado no currículo antirracista da rede municipal de ensino, e chegou a rasgar um mural com desenhos das crianças que estava exposto na escola, segundo a mãe de um estudante.

Depois do episódio, a direção do colégio indicou que o homem participasse da reunião do conselho da escola. Ele não compareceu ao encontro e chamou a PM.


Atividade sobre Orixás

  • O desenho da orixá Iansã fazia parte de uma atividade com o livro infantil Ciranda Em Aruanda, da autora Liu Olivina, que está no acervo oficial da rede municipal de São Paulo.
  • A obra, publicada pela Editora Quatro Cantos, traz ilustrações de 10 orixás e apresenta, em textos curtos, as características das divindades.
  • Oxóssi, por exemplo, é retratado como “o grande guardião da floresta”.
  • A direção da Emei citou as leis nº 10.639/03 e nº 11.645/08, que tornam obrigatório em todo o território nacional o ensino de história e cultura afro-brasileira, e afirmou que a atividade não tinha caráter doutrinário.
  • As crianças teriam apenas ouvido a história do livro e fizeram um desenho na sequência.
  • Ciranda Em Aruanda recebeu o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e de Acervo Informativo de Qualidade da Cátedra UNESCO de Leitura – PUC – Rio.

Os policiais, que não fazem parte da ronda escolar, foram até a escola. Eles teriam dito para a direção da instituição que a atividade escolar configurava “ensino religioso” e destacaram que a criança estava sendo obrigada a ter acesso ao conteúdo de uma religião que não é a da família dela. Um dos agentes portava uma metralhadora e a abordagem foi considerada hostil por testemunhas.

Segundo uma mãe, que preferiu não ser identificada, os policiais demonstraram “abuso de poder, assustando crianças e funcionários” enquanto estiveram na escola. A situação também teria feito com que a diretora passasse mal. “Foi preciso que um grupo de pais fosse conversar com eles para irem embora”, relatou a mulher. A ação foi gravada pela câmera corporal de um dos agentes e pelo sistema de segurança da escola.

Após a repercussão do caso, diferentes autoridades se pronunciaram sobre o episódio, exigindo investigação sobre a atitude do pai e também dos policiais que atenderam a ocorrência. Como mostrou o Metrópoles, uma investigação preliminar do 16º Batalhão de Polícia Militar concluiu pelo arquivamento da apuração sobre o pai da criança e sobre o tenente que atendeu a ocorrência. Em nota, a SSP disse que ainda há um Inquérito Policial Militar (IPM) aberto sobre o caso.

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