Dark Horse: ONG gasta emenda com próprio conselheiro e metaverso
Cerca de R$ 445 mil foram para empresa de conselheiro da ONG da produtora de Dark Horse; R$ 181 mil foram para conteúdo metaverso
atualizado
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A ONG da produtora do filme Dark Horse contratou a empresa de um conselheiro da própria entidade como fornecedora para quase 60% dos gastos, incluindo despesas inflacionadas para a produção de vídeos com baixo alcance e conteúdo para metaverso.
Realizado com emendas de vereadores de São Paulo, o evento Rumos da Inovação na Educação do Futuro Agora (Riefa) se propôs a discutir novas práticas e inovação na educação.
A entidade organizadora do evento é o Instituto Conhecer Brasil (ICB), que foi alvo de uma operação da Polícia Civil por suspeita de desvios em contrato de instalação de pontos wi-fi com a Prefeitura de São Paulo, no valor de R$ 108 milhões. A ONG é presidida por Karina Ferreira da Gama, produtora do filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Gastos inflacionados
Analisando os planos de trabalho dos últimos dois anos, a edição de 2025 previa um aumento de R$ 250 mil em relação à edição anterior, elevando o valor da parceria de R$ 500 mil para R$ 750 mil — um crescimento de 50%. A capacidade do evento, porém, diminuiu de 500 para 200 pessoas no período, segundo os planos de trabalho. O aumento está concentrado principalmente nas áreas de conteúdo e tecnologia.
Os gastos com palestrantes passam de R$ 66 mil para R$ 170 mil, uma alta de 157,6%, enquanto os investimentos em produção de vídeo sobem de R$ 48 mil para R$ 148 mil, crescimento de 208,3%. Já o conteúdo voltado ao metaverso mais que dobra, avançando de R$ 85,5 mil para R$ 181,5 mil, um aumento de 112,3%.
Apesar do alto investimento, o público foi limitado. A reportagem verificou, na página do YouTube, com cerca de 4 mil inscritos, que a transmissão ao vivo dos dois dias de evento no ano passado não chegou a 2 mil visualizações. Os cortes dos palestrantes variaram entre 30 e 1,2 mil visualizações.
ONG contrata o próprio conselheiro
De acordo com as notas fiscais apresentadas da última edição, R$ 445 mil foram para empresas de um dos conselheiros do ICB. A cenografia foi feita pela HCG Projetos, cujo nome fantasia é HCamargo, por R$ 53 mil. Outra nota fiscal da HCG, no valor de R$ 63 mil, foi apresentada a título de locação de equipamentos.
Um dos sócios da HCamargo é Eduardo Ferreira Franco que, em fevereiro do ano passado, foi nomeado como conselheiro técnico-científico do Instituto Conhecer Brasil com mandato até 2032. O evento Riefa, que teve a empresa dele como fornecedora, seria realizado em novembro de 2025. Franco é ainda sócio da Vamoz Comunicação, responsável pela produção do conteúdo para o metaverso, em uma nota de R$ 181 mil e outra de R$ 148 mil, para produção de vídeo.
A conexão de Franco com o Instituto Conhecer Brasil vai além do Riefa: ele também foi sócio da Complexsys Soluções Integradas, fornecedora da ONG no contrato de pontos wi-fi investigado pela polícia. Segundo a Junta Comercial, ele deixou a sociedade em março de 2025.
Entre os principais fornecedores para a Riefa, também está a Continua Educação, responsável pelos palestrantes, redes sociais e captação — valores que somam R$ 254 mil. A empresa pertence a Vanessa de Souza dos Santos Madeira que, antes da realização do evento, entre 2022 e 2025, foi assessora parlamentar na segunda secretaria da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
Emendas de vereadores de Republicanos e PL
O Metrópoles levantou que, entre 2023 e 2025, cerca de R$ 2 milhões em emendas de vereadores foram pagos ao ICB para a realização do Riefa.
Três dessas emendas foram indicadas pelo vereador André Santos, do Republicanos, partido ligado à Igreja Universal. No ano passado, o parlamentar enviou uma emenda de R$ 750 mil para o evento. Já em 2024 foram duas emendas: uma de R$ 500 mil e outra de R$ 300 mil.
Em 2023, de acordo com dados da Casa Civil da prefeitura, o vereador Isac Félix, então presidente municipal do PL na capital, enviou R$ 500 mil em emenda para a realização do Riefa.
Lacunas na prestação de contas
A Prefeitura de São Paulo vem cobrando uma série de lacunas na prestação de contas da ONG. No ano passado, por exemplo, faltavam arquivos e assinaturas. Outra lacuna notada pela administração municipal foi a falta da declaração de ficha limpa das pessoas ligadas à ONG.
“Não encontrei a declaração de ficha limpa no drive (tem um documento com este nome, mas abrindo é o mesmo conteúdo da relação nominal) e nem os RG/CPF de todos os dirigentes. Achei a sua, porém precisávamos também dos documentos do secretário-geral e do tesoureiro”, escreveu uma assessora da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia em e-mail enviado a Karina em 3 de novembro de 2025.
A troca de e-mails prossegue com outras cobranças da pasta, entre elas o envio “com urgência” da nova data do evento e atualização em diversos pontos do plano de trabalho.
O que dizem os envolvidos
A reportagem procurou o Instituto Conhecer Brasil, que não se manifestou até o fechamento desta reportagem.
Em nota, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) informa que o “Termo de Colaboração para os eventos mencionados foram celebrados para a execução de emendas parlamentares e são sujeitos à prestação de contas, nos termos da legislação vigente. A Casa Civil ressalta que a indicação de emendas é de livre escolha dos vereadores e sua tramitação no Executivo segue critérios técnicos e orçamentários.”
A assessoria de Isac Félix informou que, naquele ano, ele foi procurado pela ONG, que lhe apresentou o projeto. “À época, não havia indícios de envolvimento das pessoas mencionadas na matéria e não era de conhecimento deste parlamentar desdobramentos diferentes daqueles apresentados no projeto. O evento foi executado e teve sua prestação de contas aprovada pela Prefeitura de SP, dentro das conformidades permitidas”, afirmou.
O vereador André Santos não respondeu aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.