Cracolândia: espalhamento tem truculência e regra antiaglomeração. Vídeo
Entre 2023 e 2025, Polícia Militar matou pelo menos 11 pessoas apontadas como moradores de rua ou dependentes químicos no centro de SP

Pelo menos 11 pessoas apontadas como moradores de rua ou dependentes químicos foram mortas pela Polícia Militar (PM) na área central de São Paulo entre 2023 e 2025, período que compreende a dispersão do fluxo da antiga Cracolândia, no centro de São Paulo, marcada por repressão policial e implementação de uma regra antiaglomeração de usuários de drogas na região.
As informações foram obtidas pelo Metrópoles por meio de um levantamento inédito a partir dos processos judiciais referentes a todas as mortes cometidas por PMs na área da 1ª Delegacia Seccional, que compreende os bairros centrais da capital. Foram 59 casos analisados na produção do Dossiê Cracolândia, reportagem multimídia publicada nesta sexta-feira (19/6).
Para chegar ao número de moradores de rua e dependentes químicos mortos, a reportagem usou como parâmetro os depoimentos dos próprios policiais militares envolvidos nas ocorrências, de testemunhas e dos familiares das vítimas. Nos 11 casos identificados, em apenas um os PMs usavam câmeras corporais. Considerando o relato oficial, pelo menos oito dos mortos estavam desarmados. Nos demais casos, a versão policial é contestada.
Os homicídios de moradores de rua e dependentes químicos identificados ocorreram em um contexto de aumento da letalidade policial no centro de São Paulo. O número de mortes cometidas pela PM na região passou de 16 em 2023 para 25 no ano passado, alta de 56%.
Considerando as 59 mortes registradas na área da 1ª Seccional, a reportagem também identificou pelo menos nove pessoas mortas debaixo de viadutos, imóveis abandonados ou na margem do Rio Tietê, longe de testemunhas e câmeras de segurança.
Onde ninguém vê
Foi em um lugar como esse que Luiz Antonio Carvalho diz ter assistido a PMs matarem seu irmão Losrran. Em 2 de fevereiro do ano passado, a dupla estaria no terceiro andar de uma ocupação na Avenida Celso Garcia, na região do Brás, com um grupo de pessoas consumindo crack quando a Força Tática do 13º Batalhão chegou.
Luiz Antonio diz que os policiais mandaram todos saírem do cômodo e atiraram contra Lossran enquanto gritavam “larga a arma”, para simular um suposto confronto. Com medo, ele decidiu deixar a cidade. A versão policial é que os agentes tinham visto um indivíduo em atitude suspeita correndo em direção ao imóvel e foram recebidos a tiros no local.
No caso de Rafael Oliveira, 44 anos, morto em março de 2024 por um policial que voltava do trabalho, a irmã dele passou a procurar testemunhas por conta própria para esclarecer o crime, que não havia sido registrado por câmeras. Quem atirou disse que estava estacionando o carro em um bolsão no Parque Dom Pedro quando Rafael anunciou um assalto e fez menção de estar armado.
Usuário de crack, a vítima morava em um barraco bem em frente e ganhava trocados como flanelinha. Carolina Oliveira, 41 anos, colheu relatos de vizinhos e ouviu da companheira do irmão que o assassinato teria ocorrido após uma discussão sobre a vaga do carro. Ela entregou um conjunto de depoimentos ao Ministério Público, que determinou que a polícia procurasse a testemunha ocular do caso, o que não foi feito até o fechamento desta reportagem.
“Ninguém quer saber de morador de rua, ninguém quer saber do pessoal da Cracolândia. Eles só querem dispersar o pessoal e não querem ajudar”, desabafa Carolina.
Fuzilado debaixo de viaduto
Na única morte de morador de rua em que havia câmera corporal, os policiais envolvidos tentaram evitar que ela captasse em vídeo a execução. Mesmo assim, as imagens desmontaram completamente a narrativa oficial.
O alagoano Jeferson de Souza, de 24 anos, foi executado com três tiros debaixo do viaduto 25 de Março, sob a justificativa de que “teria reagido tentando agarrar a arma de um dos policiais”. Na gravação, é possível vê-lo chorando, com as mãos para trás, sem esboçar qualquer reação, antes de ser fuzilado três vezes pelo tenente Alan Wallace dos Santos Moreira.
“Dava para ver no olhar dele, um pedido de socorro, sabendo que ali era o último suspiro dele. A gente imagina isso, quando olha de um lado um fuzil, do outro lado um fuzil, infelizmente, sabe que é o seu último adeus”, diz a irmã de Jeferson, Micaele Soares de Souza. “Dói minha alma só de ver esse vídeo.”
O rapaz havia deixado Craíbas, cidade do interior de Alagoas, em 2019, após a morte da mãe. Dependente químico, vivia desde então nas ruas do centro da capital paulista. O local escolhido para a execução de Jeferson, debaixo de um viaduto, também não foi excepcional.
Regra de 3
Após a dispersão dos usuários de drogas pelo centro de São Paulo, a partir de 2024, o governo do estado e a prefeitura da capital implementaram um novo modelo de policiamento no quadrilátero onde ficava a antiga Cracolândia, com viaturas da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana (GCM) circulando constantemente em um espaço de poucos metros. A ideia é impedir que moradores de rua permaneçam no local.
A reportagem acompanhou durante um dia o trabalho de policiais ali. Os repórteres caminharam sem ser incomodados pelo local, onde apenas pessoas que aparentam estar em situação de rua e com cachimbos eram paradas e revistadas continuamente. Foi ali que a reportagem encontrou o baiano Marcos Sales. “Só não estão parando vocês porque sabem que são jornalistas. Se fosse a gente, eles já chegam dando sirene”, diz.
Poucos metros à frente, um dependente químico que se identifica como Marcos Antônio, conta que se firmou uma regra quase oficial: qualquer grupo com mais de duas pessoas deve ser dispersado. “Está se espalhando [o fluxo] para zona sul, zona leste, zona norte, interior, outros vão para a Baixada [Santista], porque nesses lugares a polícia não tem tanto preconceito com morador de rua”
“Aqui, eles falam que são mandados para isso: ‘Não pode deixar dois ou três parar juntos na calçada. Nenhum lugar’. Eles falam: ‘Não para não, é pra andar’. A gente não tem perna mecânica para ficar andando 24 horas por dia”, afirma. Quem desobedece, diz ele, recebe spray de pimenta, golpes de cassetetes ou chutes.
Uma das táticas do governo para esvaziar a Cracolândia é prender os dependentes químicos que tenham alguma pendência na Justiça, seja pessoas procuradas ou descumprindo medidas cautelares. O governo diz ter identificado 4,8 mil frequentadores da antiga Cracolândia – ressaltando que 60% teriam antecedentes criminais – e câmeras do programa Smart Sampa da prefeitura foram colocadas até nos Centros de Atendimento Psicossocial (Caps).
Como usuários de crack relatam que as viaturas da PM também são usadas para levar pessoas para internação, eles dizem que nunca se sabe quem embarca numa delas acabará num serviço de saúde ou atrás das grades.

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