Chefe da PM de SP entregou o cargo após citação em inquérito sobre PCC
Nome do Coronel Coutinho foi citado em depoimento de PM preso por escolta ilegal para dirigentes da Transwolff supostamente ligados ao PCC
atualizado
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Ex-comandante da Polícia Militar de São Paulo, o coronel José Augusto Coutinho pediu para deixar o cargo após ser citado em uma investigação da Corregedoria da corporação sobre a atuação de PMs como seguranças de supostos integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) ligados à empresa de ônibus Transwolff.
A substituição no comando da PM foi oficializada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) nessa quinta-feira (16/4). O ex-comandante geral, que pediu para ir para a reserva da corporação, deu lugar à coronel Glauce Anselmo Cavalli, primeira mulher a ocupar o cargo. Até então, a oficial chefiava o Centro de Comunicação Social da corporação.
O Metrópoles apurou que o nome de Coutinho teria aparecido no depoimento do sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário, preso em fevereiro, por fazer escolta ilegal para diretores da Transwolff, que operava linhas de ônibus em São Paulo e teve o contrato rompido pela Prefeitura da capital após ser alvo de operação por suspeita de lavagem de dinheiro para a facção. Segundo o relato, o coronel tinha conhecimento do esquema de escolta.
Autoridades ligadas à investigação disseram à reportagem que o desgaste sobre Coutinho aumentou após um promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) procurar a Corregedoria para oferecer mais informações sobre suspeitas em relação à atuação do coronel. Em depoimento, o representante do Ministério Público de São Paulo (MPSP) teria detalhado como o coronel teria ignorado um outro esquema envolvendo PMs e o PCC.
Como revelado pelo Metrópoles, em 2021, na época em que comandava as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), tropa de elite da PM, Coutinho foi avisado pelo promotor Lincoln Gakyia de que PMs do setor de inteligência do batalhão estariam vazando informações sigilosas para proteger membros da célula do PCC na zona leste da capital. O coronel, no entanto, não teria tomado providências.
Mais tarde, o esquema ganharia os holofotes na esteira das investigações sobre o assassinato de Vinícius Gritzbach, delator de policiais e do PCC, executado em novembro de 2024, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Ele mantinha conexões com policiais corruptos e tinha escolta ilegal de PMs.
O inquérito policial militar em que Coutinho foi citado levou à prisão de três policiais e a buscas em endereços ligados a 16 alvos. Na casa de um deles, foi apreendido R$ 1 milhão em espécie. Entre os dirigentes da Transwolff beneficiados pelo esquema de escolta ilegal, estariam Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, e Cícero de Oliveira, o Té, apontados como elo entre o PCC e os ônibus da zona sul da capital.
Questionada pelo Metrópoles sobre as suspeitas envolvendo Coutinho, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) limitou-se a dizer que “não comenta investigações em curso conduzidas por sua Corregedoria”. O ex-comandante não se manifestou. O espaço segue aberto.
“Coutinho sabia”
A descoberta de que o setor de inteligência da Rota estava envolvido com o PCC ocorreu a partir de um áudio em que o então líder da facção nas ruas, Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, diz ter pagado R$ 5 milhões ao “pessoal da R” para “salvar sua vida” na Operação Sharks, deflagrada contra a facção pelo MPSP em setembro de 2020.
O áudio, enviado por Tuta a um outro integrante do PCC, chegou às mãos dos promotores do Gaeco em outubro de 2021. Na ocasião, um traficante da facção foi recebido no Batalhão da Rota para delatar outros integrantes e PMs corruptos.
Diante da descoberta, Gakyia levou o caso ao então comandante da Rota, José Augusto Coutinho, e cobrou providências. Em conversas com interlocutores, o promotor afirmou que “ninguém fez porra nenhuma, ele [Coutinho] não fez nada a respeito”.
Transwolff e PCC
- Transwolff e a UpBus tiveram seus contratos com a Prefeitura de São Paulo rompidos nos últimos meses, apósserem alvo da Operação Fim da Linha, que investiga um esquema de lavagem de dinheiro do PCC por meio de empresas de ônibus.
- O dono da Transwolff, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, e o sócio da UpBus, Silvio Luís Ferreira, o Cebola, foram alvos de mandatos de prisão durante a operação.
- Segundo o Gaeco, do Ministério Público de São Paulo, a Transwolff recebeu um aporte de R$ 54 milhões da facção criminosa, obtido com tráfico de drogas e outros delitos, para participar da licitação do transporte público na capital paulista.
- A Transwolff e a Upbus operavam linhas de ônibus das zonas sul e leste da cidade de São Paulo e transportavam, juntas, 700 mil passageiros na capital.
