CET contrata fundação para “contrapor” estudo que critica motofaixa
CET contratou Fundação Vanzolini, sem licitação, para “contestar” estudo da USP que aponta problemas na motofaixa, vitrine da prefeitura
atualizado
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A Prefeitura de São Paulo contratou a Fundação Vanzolini, sem licitação, para “contestar” e “contrapor” o estudo que apontou que a Faixa Azul incentiva o abuso de velocidade e aumenta o risco de mortes entre motociclistas. Por R$ 79 mil, em duas parcelas, o levantamento solicitado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) também serviria para “validar” o projeto da administração municipal de motofaixa na capital paulista.
O estudo que criou mal-estar e gerou incômodo na prefeitura foi produzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Ceará (UFC) e do Instituto Cordial, com apoio da organização Vital Strategies. A divulgação ocorreu no fim de janeiro.
Entre outras coisas, o levantamento afirmou que a Faixa Azul aumenta em até 120% o risco de acidentes fatais com motociclistas em cruzamentos e faz com que a velocidade média nas vias com essa segregação salte de 58,3 km/h para 72,2 km/h, por transmitir sensação de mais segurança aos condutores, que abusam do acelerador.
A publicação gerou reação da prefeitura, que apontou na ocasião queda no número de mortes de motociclistas, de ocorrências com feridos e de atropelamentos, entre 2022 e dezembro de 2025.
A gestão Ricardo Nunes (MDB) tem na Faixa Azul uma de suas principais vitrines na área da mobilidade urbana. A administração municipal busca, inclusive, a validação da medida na Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), que aguarda, até esta quinta-feira (30/4), dados que comprovem a eficiência da motofaixa.
O pedido de contratação do estudo junto à Fundação Vanzolini foi feito em 12 de fevereiro, pelo diretor adjunto de planejamento e projetos da CET, Ivan Carvalho Moraes. Entre os pedidos, o estudo deveria subsidiar a Secretaria da Comunicação nas suas respostas à imprensa.

Como resposta, a fundação diz que o objetivo do estudo, entre outros, é produzir um relatório contestando o levantamento “Impacto da Faixa Azul na Segurança Viária”.

O primeiro trimestre deste ano teve 100 motociclistas mortos na cidade de São Paulo, variação de 1% em relação a igual período de 2025. Em março, foram 40 mortes, aumento de 11% em relação ao mesmo mês do ano passado.
De forma geral, 2026 teve o mês de março mais sangrento no trânsito paulistano desde o início da série histórica, em 2015, com 225 óbitos.
O que diz a Prefeitura de São Paulo
A CET diz que a contratação teve como objetivo analisar as metodologias usadas pela CET e pelo levantamento mencionado para avaliar a mais adequada para análise de sinistros de trânsito e, assim, subsidiar a elaboração do relatório enviado à Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) sobre a Faixa Azul.
“Portanto, está fora de contexto e equivocada a afirmação de que o trabalho contratado teria como finalidade antecipar conclusões. A dispensa de licitação de instituição de reconhecida idoneidade e notória capacidade técnica está amparada na Lei federal nº 13.303/2016 e no Regulamento Interno de Licitações, Contratos e Convênios (RILCC) da CET”, diz, em nota.
Segundo a CET, o relatório encaminhado para a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) tem a avaliação técnica dos trechos de Faixa Azul implantados na capital e “apontou uma redução de 26,6% na taxa de severidade dos sinistros com motos, um indicador técnico usado para medir a gravidade das ocorrências de trânsito”.
“Segundo o relatório, a gravidade de acidentes fora da Faixa Azul é 9,5 vezes maior do que dentro da sinalização. O relatório também mostra redução da velocidade na Faixa Azul e avaliação positiva em pesquisa de opinião”, afirma.
A Fundação Vanzolini não respondeu até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.
