Demétrio Vecchioli

Mortes por atropelamento triplicaram com Faixa Azul em SP; veja locais

Dados da CET apontam que as mortes por atropelamento envolvendo motociclistas mais que triplicaram em vias com Faixa Azul em São Paulo

atualizado

metropoles.com

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Leon Rodrigues/Prefeitura de São Paulo
Imagem colorida mostra motos dentro da chamada faixa azul circulando em avenidas com carros nas demais faixas da via em São Paulo - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra motos dentro da chamada faixa azul circulando em avenidas com carros nas demais faixas da via em São Paulo - Metrópoles - Foto: Leon Rodrigues/Prefeitura de São Paulo

As ruas e avenidas de São Paulo que recebem Faixa Azul, um corredor exclusivo para motos, viram o número de mortes por atropelamento mais do que triplicarem depois da implementação do projeto experimental da prefeitura paulistana. Os dados são do estudo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) sobre a efetividade da medida, enviado à Secretaria Nacional de Transporte (Senatran) e publicados com exclusividade pelo Metrópoles.

Só até o fim de 2024, dez pessoas morreram atropeladas por motociclistas nas 36 vias com Faixa Azul, ante três mortes em igual período imediatamente anterior. Isso apesar de o número de atropelamentos ter sido reduzido.

Como a Faixa Azul foi instalada em momentos diferentes em 36 vias da cidade, entre o início de 2022 e outubro de 2024, o levantamento da CET não compara anos, mas períodos: “antes” e “depois”. Por exemplo, para a Avenida 23 de Maio, a primeira a receber a Faixa Azul, são avaliados 35 meses antes da implantação e 35 meses depois. Para as vias que receberam a Faixa Azul em junho de 2024, o período comparado é de sete meses.

De acordo com a CET, antes da Faixa Azul foram registrados 64 atropelamentos, com três mortes (um óbito a cada 21 acidentes). Depois, 49 acidentes, com 10 mortes (uma morte a cada 5 acidentes, aproximadamente). Ou seja: a letalidade dos atropelamentos nas vias com Faixa Azul aumentou mais de quatro vezes.

A Faixa Azul é um corredor na prática exclusivo para motos, sempre entre a faixa 1 e a faixa 2 das vias, sinalizada na cor azul. A premissa da iniciativa da prefeitura de São Paulo é que o trânsito flua melhor para o motociclista, que fica mais seguro à medida que os carros mudam menos vezes de faixa.

Isso tem permitido aos motociclistas andarem em alta velocidade — o que pode explicar a letalidade dos atropelamentos. Em 13 das 36 vias monitoradas, a velocidade média na Faixa Azul ficou acima do permitido. Na avenida Eliseu de Almeida, na zona Oeste, o limite é 50km/h e as motos corriam ali a 70,5 km/h, em média, em 2024. No Minhocão, no Centro, corriam a 63,8 km/h. Os dados foram coletados até maio deste ano.

De forma geral, a velocidade média nas faixas é de 49,5 km/h, muito perto dos 50 km/h permitidos como velocidade máxima na maior parte das vias urbanas. À coluna, a prefeitura disse que tomou medidas para coibir a infração e fortalecer a orientação aos motociclistas, como pintar na Faixa Azul o limite de velocidade da via no pavimento da via.

Onde aconteceram os atropelamentos

Dos 10 atropelamentos fatais após a instalação da Faixa Azul, nove estão registrados em planilha enviada pela CET à Senatran especificando dia, horário, local e alguns detalhes.

Desses atropelamentos, em quatro a moto estava na Faixa Azul e, em um, não estava (nos demais a informação não consta no boletim de ocorrência). Só um deles aconteceu de madrugada e/ou em fim de semana.

A lista está abaixo:

  • Av Miguel Yones – Pessoa em situação de moradia precária na rua, sem informação sobre a faixa; quarta-feira à noite
  • Av Braz Leme – Sem detalhes no BO, moto estava na Faixa Azul; quarta pela manhã
  • Av Braz Leme – Pedestre atravessou fora da faixa de pedestres, moto estava na Faixa Azul; sexta pela manhã
  • Av Jacu Pêssego – Pedestre fora da faixa de pedestres, moto estava na Faixa Azul; terça à noite
  • Av Jacu Pêssego – Pedestre fora da faixa de pedestres, sem informação sobre a moto;  madrugada de domingo
  • Av Jacu Pêssego – Na faixa da direita, sem identificação sobre o pedestre; segunda pela manhã
  • Av Pres Tancredo Neves – Pedestre fora da faixa de pedestre, sem informação da moto; segunda-feira à tarde
  • Av Sen Teotônio Vilela – Pedestre fora da faixa de pedestre, moto não estava na Faixa Azul; terça à noite
  • Av Sen Teotônio Vilela – Pedestre fora da faixa de pedestre, moto estava na Faixa Azul; quinta à noite

Em nota, a prefeitura de São Paulo citou um gráfico presente no relatório, onde os relatos de atropelamentos fora da Faixa Azul e sem informações são unificados em uma única coluna, contrariando a listagem da CET, para afirmar que ” seis ocorrências ocorreram com motociclistas que trafegavam fora da Faixa Azul e quatro dentro dela”.

A gestão disse ainda que “são comuns atropelamentos à noite ou madrugada e em locais onde não são esperados pedestres, como baixos de pontes ou viadutos. Mesmo assim, para reforçar a segurança nessas vias, a Prefeitura iniciou um processo para instalação de gradis e travessias sinalizadas em pontos determinados”.

Número de mortes manteve-se estável

A gestão Ricardo Nunes (MDB) tem dito que as pesquisas da CET apontam uma redução de 47% nas mortes nas ruas e avenidas em que o projeto foi implementado na comparação entre 2023 e 2024. Mas o estudo da CET mostra que, até 31 de dezembro de 2024, 33 pessoas morreram em decorrência de acidentes que envolveram motociclistas nas vias com faixa exclusiva, ante 32 (uma a menos) em igual período antes da implantação.

O número de sinistros fatais se manteve estável, em 32. Ao prestar contas à Senatran, a CET reconhece que trata-se de um cenário de “estabilidade” nas mortes, não de redução, como tem dito publicamente a prefeitura.

A Senatran permitiu à cidade de São Paulo implementar a Faixa Azul de forma experimental até março de 2026, exigindo que a CET elaborasse dois relatórios com a análise técnica do estudo com um todo. O primeiro é esse, que o Metrópoles revela com exclusividade. O segundo deve ser produzido após o encerramento do projeto.

De acordo com o estudo, uouve uma redução de 20,05% no número de sinistros com vítimas feridas ou mortas (de 1.102 para 881, enquanto no restante da cidade houve alta de 12,6%) e aumento na lentidão para os carros nas vias com Faixa Azul. No período da manhã, a média passou de 8,5 quilômetros de congestionamento para 11,30 quilômetros. À tarde, de 10,90 para 13,40 quilômetros.

 

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Cidade ganha mais 8 km de Faixa Azul para moto
Faixa azul para motos na Avenida dos Bandeirantes, zona sul de SP
Prefeitura inicia obras de expansão do projeto das faixas azuis
Motos circulam pela Faixa Azul da Avenida 23 de Maio, em São Paulo
A motofaixa da Avenida 23 de Maio
25 motociclistas morreram em vias que aguardam liberação para faixa exclusiva
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25 motociclistas morreram em vias que aguardam liberação para faixa exclusiva

Divulgação/Prefeitura de São Paulo
Cidade ganha mais 8 km de Faixa Azul para moto
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Cidade ganha mais 8 km de Faixa Azul para moto

Édson Lopes Jr/SECOM
Faixa azul para motos na Avenida dos Bandeirantes, zona sul de SP
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Faixa azul para motos na Avenida dos Bandeirantes, zona sul de SP

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Prefeitura inicia obras de expansão do projeto das faixas azuis
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Prefeitura inicia obras de expansão do projeto das faixas azuis

Reprodução/ Prefeitura de SP
Motos circulam pela Faixa Azul da Avenida 23 de Maio, em São Paulo
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Motos circulam pela Faixa Azul da Avenida 23 de Maio, em São Paulo

William Cardoso/Metrópoles
A motofaixa da Avenida 23 de Maio
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A motofaixa da Avenida 23 de Maio

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Foto colorida de uma das faixas azuis na cidade de São Paulo - Metrópoles
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Foto colorida de uma das faixas azuis na cidade de São Paulo - Metrópoles

Édson Lopes Jr/SECOM
Faixa Azul na Avenida 23 de Maio
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Faixa Azul na Avenida 23 de Maio

Prefeitura de São Paulo

 

Faixa Azul aprovada, segundo a CET

Para a CET, a Faixa Azul é aprovada quando os números são comparados ao restante da cidade. “Em relação aos sinistros fatais, foi constatado o mesmo número no período antes e no período após à implantação, indicando estabilidade, num cenário em que a cidade teve alta de 55% nos sinistros fatais envolvendo motocicletas, o que indica o sucesso da Faixa Azul em impedir a alta da mortalidade onde foi implementada”, argumenta o órgão.

Motoristas e motociclistas também avaliam a Faixa Azul positivamente, de acordo com pesquisa da CET. Entre os motociclistas, 96% preferem circular na Faixa Azul e 97% deles acham que o convívio no trânsito melhorou. Os satisfeitos ou muito satisfeitos são 97%. Entre os motoristas dos demais veículos, a avaliação positiva é de 86%.

No documento enviado à Senatran, a CET conclui que “os resultados demonstram os impactos positivos da Faixa Azul”, incluindo a “estabilidade no número de acidentes fatais nas vias com Faixa Azul, contrastando com um aumento de 12% nos sinistros com feridos e de 55% nos sinistros fatais no restante da cidade.”

Já em nota enviada à imprensa na quinta-feira, cobrando agilidade da Senatran para a aprovação de mais 80 quilômetros de faixa exclusiva em 73 vias, os números apresentados foram outros: “Pesquisas da CET indicam que a implantação da Faixa Azul resultou em uma redução de 47% nas mortes nas áreas onde o projeto foi implementado”, informou a prefeitura. A pesquisa da CET, porém, não traz esse número, nem exclui os atropelamentos de qualquer cálculo sobre mortes.

O que a CET disse à coluna

Em nota, a CET afirmou à coluna que “não há qualquer conflito entre os dados divulgados pela atual gestão sobre a redução de óbitos de motociclistas em trechos de vias com Faixa Azul e o relatório encaminhado ao Senatran”. “A CET reafirma que foram 19 mortes de motociclistas registradas em 2024 (janeiro a dezembro) nos trechos das vias com Faixa Azul, o que representou uma queda de 47% em relação ao mesmo período de 2023, quando houve 36 óbitos.”

A CET apontou ainda que, “num cenário de alta de acidentes de trânsito em todo o país”, a estabilidade no número de acidentes fatais e a redução de sinistros “é uma conquista’. Por fim, citou a pandemia como fator a ser considerado em qualquer relatório porque “o período mencionado como ‘antes da implantação da Faixa Azul’ refere-se, em muitos casos, a 2019 e 2020, quando o cenário de circulação de pedestres e veículos na cidade foi diretamente impactado pelas medidas de isolamento social”.

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