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Vias tiveram aumento de mortes após receberem Faixa Azul em SP
Relatório da CET sobre impacto da Faixa Azul mostra mais mortes depois do que antes da implementação do projeto em São Paulo
atualizado
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Vias em que a Faixa Azul foi implementada em São Paulo tiveram aumento no número de mortes em acidentes envolvendo motociclistas. Os dados são da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e estão em relatório enviado à Secretaria Nacional de Transporte (Senatran), revelado com exclusividade pela coluna.
A gestão Ricardo Nunes (MDB) tem dito que as pesquisas da CET apontam uma redução de 47% nas mortes nas ruas e avenidas em que o projeto foi implementado na comparação entre 2023 e 2024. Mas essa conta — que não aparece no estudo da CET — considera somente os motociclistas e ignora o impacto para os pedestres. As mortes causadas por atropelamento mais do que triplicaram nas vias com a Faixa Azul.
Até 31 de dezembro de 2024, 33 pessoas morreram em decorrência de acidentes que envolveram motociclistas nas vias com faixa exclusiva, ante 32 (uma a menos) em igual período antes da implantação. O número de sinistros fatais se manteve estável, em 32. Ao prestar contas à Senatran, a CET reconhece que trata-se de um cenário de “estabilidade” nas mortes, não de redução, como tem dito publicamente a prefeitura.

A Senatran permitiu à cidade de São Paulo implementar a Faixa Azul de forma experimental até março de 2026, exigindo que a CET elaborasse dois relatórios com a análise técnica do estudo com um todo. O primeiro é esse, que o Metrópoles revela com exclusividade. O segundo deve ser produzido após o encerramento do projeto.
O que diz o estudo da CET
Como a Faixa Azul foi instalada em momentos diferentes em 36 vias da cidade, entre o início de 2022 e outubro de 2024, o levantamento da CET não compara anos, mas períodos: “antes” e “depois”. Isso porque em vias em que a faixa existe desde 2022, a comparação 2023 x 2024 seria inúcua. E, naquelas em que a faixa foi implementada durante 2024, os períodos de tempo seriam distintos, tornando a comparação ineficiente.
Assim, para a Avenida 23 de Maio, a primeira a receber a Faixa Azul, o estudo da CET avalia os 35 meses anteriores à implantação e 35 meses posteriores. Já para as vias que receberam a Faixa Azul em junho de 2024, o período comparado é de sete meses.
De acordo com o levantamento da CET, 10 pessoas morreram atropeladas depois da implantação da Faixa Azul (até 31 de dezembro de 2024), contra três mortes antes. A maior parte das vítimas atravessava a via fora da faixa de pedestres. Enquanto isso, o número de mortes em outros tipos de acidentes caiu de 29 para 23.

A Faixa Azul é um corredor na prática exclusivo para motos, sempre entre a faixa 1 e a faixa 2 das vias, sinalizada na cor azul. A premissa da iniciativa da prefeitura de São Paulo é que o trânsito flua melhor para o motociclista, que fica mais seguro à medida que os carros mudam menos vezes de faixa.
Os números mostram exatamente isso. Houve uma redução de 20,05% no número de sinistros com vítimas feridas ou mortas (de 1.102 para 881, enquanto no restante da cidade houve alta de 12,6%) e aumento na lentidão para os carros nas vias com Faixa Azul. No período da manhã, a média passou de 8,5 quilômetros de congestionamento para 11,30 quilômetros. À tarde, de 10,90 para 13,40 quilômetros.
Enquanto isso, as motos andam em alta velocidade. Em 13 das 36 vias monitoradas, a velocidade média na Faixa Azul ficou acima do permitido. Na avenida Eliseu de Almeida, na zona Oeste, o limite é 50km/h e as motos corriam ali a 70,5 km/h, em média, em 2024. No Minhocão, no Centro, corriam a 63,8 km/h. Os dados foram coletados até maio deste ano.
De forma geral, a velocidade média nas faixas é de 49,5 km/h, muito perto dos 50 km/h permitidos como velocidade máxima na maior parte das vias urbanas. Isso pode ajudar a explicar por que os atropelamentos ficaram mais letais. Antes, cerca de um a cada 21 era fatal. Depois, um a cada cinco.
À coluna, a prefeitura disse que tomou medidas para coibir a infração e fortalecer a orientação aos motociclistas, como pintar na Faixa Azul o limite de velocidade da via no pavimento da via.
Faixa Azul aprovada, segundo a CET
Para a CET, a Faixa Azul é aprovada quando os números são comparados ao restante da cidade. “Em relação aos sinistros fatais, foi constatado o mesmo número no período antes e no período após à implantação, indicando estabilidade, num cenário em que a cidade teve alta de 55% nos sinistros fatais envolvendo motocicletas, o que indica o sucesso da Faixa Azul em impedir a alta da mortalidade onde foi implementada”, argumenta o órgão.
Motoristas e motociclistas também avaliam a Faixa Azul positivamente, de acordo com pesquisa da CET. Entre os motociclistas, 96% preferem circular na Faixa Azul e 97% deles acham que o convívio no trânsito melhorou. Os satisfeitos ou muito satisfeitos são 97%. Entre os motoristas dos demais veículos, a avaliação positiva é de 86%.
No documento enviado à Senatran, a CET conclui que “os resultados demonstram os impactos positivos da Faixa Azul”, incluindo a “estabilidade no número de acidentes fatais nas vias com Faixa Azul, contrastando com um aumento de 12% nos sinistros com feridos e de 55% nos sinistros fatais no restante da cidade.”
Já em nota enviada à imprensa na quinta-feira, cobrando agilidade da Senatran para a aprovação de mais 80 quilômetros de faixa exclusiva em 73 vias, os números apresentados foram outros: “Pesquisas da CET indicam que a implantação da Faixa Azul resultou em uma redução de 47% nas mortes nas áreas onde o projeto foi implementado”, informou a prefeitura. A pesquisa da CET, porém, não traz esse número, nem exclui os atropelamentos de qualquer cálculo sobre mortes.
O que a CET disse à coluna
Em nota, a CET afirmou à coluna que ” não há qualquer conflito entre os dados divulgados pela atual gestão sobre a redução de óbitos de motociclistas em trechos de vias com Faixa Azul e o relatório encaminhado ao Senatran”. “A CET reafirma que foram 19 mortes de motociclistas registradas em 2024 (janeiro a dezembro) nos trechos das vias com Faixa Azul, o que representou uma queda de 47% em relação ao mesmo período de 2023, quando houve 36 óbitos.”
A CET apontou ainda que, “num cenário de alta de acidentes de trânsito em todo o país”, a estabilidade no número de acidentes fatais e a redução de sinistros “é uma conquista’.
A prefeitura alega ainda “conforme mencionado no relatório ao Senatran (gráfico 25), de 10 atropelamentos, seis ocorrências ocorreram com motociclistas que trafegavam fora da Faixa Azul e quatro dentro dela”. O gráfico citado pela prefeitura contradiz a relação de acidentes, contudo, que aponta que quatro ocorreram na Faixa Azul, um fora dela, e dos cinco não há informações.
“Importante esclarecer que no caso dos 10 atropelamentos fatais mencionados pelo Metrópoles após a sinalização especial das vias, seis envolveram motociclistas fora da Faixa Azul, portanto, sem nenhuma relação com o projeto. São mortes em sua maioria ocorridas à noite ou madrugada e em locais onde não são esperados pedestres, como baixos de pontes ou viadutos. Mesmo assim, para reforçar a segurança nessas vias, a Prefeitura iniciou um processo para instalação de gradis e travessias sinalizadas em pontos determinados”, disse a gestão Nunes.
A prefeitura ainda apontou a pandemia como fator a ser considerado em qualquer relatório porque “o período mencionado como ‘antes da implantação da Faixa Azul’ refere-se, em muitos casos, a 2019 e 2020, quando o cenário de circulação de pedestres e veículos na cidade foi diretamente impactado pelas medidas de isolamento social”. Os anos de 2020 e 2021, de pandemia, só entram na contabilidade de acidentes de duas das 36 vias analisadas e o relatório da CET não pondera tal fator.














