“Cérebro” do PCC, Hulk é solto em Portugal em meio a “vazio legal”
Brasil havia pedido extradição de Ygor Daniel Zago, conhecido como Hulk, mas demora de tribunal levou a fim do prazo de prisão preventiva
atualizado
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O narcotraficante Ygor Daniel Zago, do Primeiro Comando da Capital (PCC), foi solto em Portugal pelo Tribunal da Relação de Lisboa nesta quarta-feira (27/5). Conhecido como Hulk, ele foi apontado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e pela Polícia Federal (PF) como “cérebro” operacional e financeiro da facção na Europa.
Hulk foi solto em função de um “vazio legal”. Em nota, a Justiça portuguesa explicou que o Brasil havia solicitado a extradição do criminoso, pedido que foi deferido e transitado em julgado após um recurso apresentado pela defesa do narcotraficante ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ) de Portugal.
Após o deferimento da extradição, Hulk pediu asilo às autoridades portuguesas, e teve o pedido negado pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA). No entanto, ele recorreu da decisão para o tribunal administrativo, que ainda não emitiu decisão.
Pela lei de Portugal, a pendência de um processo de asilo determina a suspensão dos termos da entrega no processo de extradição, até que a decisão sobre o pedido de asilo seja tomada. A legislação do país, entretanto, não prevê a suspensão da contagem do prazo da prisão preventiva — 20 dias —, que continuou a correr até se esgotar nesta quarta-feira, razão pela qual Hulk foi solto.
O tribunal estabeleceu, ainda, que o narcotraficante deve entregar seu passaporte brasileiro em até 40 horas, além de estar proibido de se ausentar para outros países. Ele também deve se apresentar diariamente no posto policial da sua área de residência.
Quem é Hulk e qual seu envolvimento com o PCC?
Segundo as investigações do MPSP e da PF, Hulk é o principal articulador do núcleo do PCC responsável por adulterar combustíveis com metanol, fraudar bombas e lavar dinheiro por meio de empresas de fachada.
Também conhecido no mundo do crime como Pitoco, ele foi preso em Portugal em novembro de 2025 em cumprimento a um mandado de prisão expedido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) e incluído na divisão vermelha da Polícia Internacional (Interpol). Ygor estava foragido na Europa com a esposa, Fernanda Ferrari Zago, ao menos desde maio do ano passado.
Relatórios da PF obtidos pelo Metrópoles mostram que Hulk revisava valores, determinava compras, autorizava pagamentos e mantinha diálogo direto com operadores do esquema no Brasil.
Como o esquema gerava lucro
A quadrilha operava adulterando etanol e gasolina com metanol — substância mais barata e proibida para uso como combustível —, diluição com água, ampliação do volume ofertado, além de fraude nas bombas, entregando, com isso, menos combustível do que o registrado.
Para burlar fiscalizações, os postos mantinham tanques duplos, com combustível limpo usado apenas durante inspeções. O levantamento policial mostra, ainda, que o grupo utilizava códigos internos para esconder os crimes: “pesado” seria o combustível com metanol; “hidratado”, o combustível diluído com água; e “game”, o golpe entregando menos combustível ao consumidor.
Palavra final
O inquérito da PF mostra que Hulk era mais do que um operador financeiro: ele era um elo entre as ordens do alto comando do PCC e a execução das fraudes, circulando entre aqueles que adulteravam o combustível, os que abasteciam os postos e os que faziam a engrenagem financeira da facção rodar.
As mensagens analisadas pelos investigadores revelam que era ele quem, em vários momentos, dava a palavra final sobre pagamentos, volumes de metanol e ajustes nas práticas internas de adulteração, demonstrando função de supervisor técnico e financeiro.
Em outra troca de mensagens, ao ser informado sobre a necessidade de reforço de caixa, ele simplesmente autorizou o repasse de “mais R$ 120 mil na conta” de um posto de combustíveis, como consta no relatório policial. Esse tipo de ordem aparece repetida em diferentes momentos, sempre com Ygor atuando como avalista do esquema, liberando cifras de alto valor para manter a produção e a distribuição.
Comando operacional
Apesar de formalmente ocupar funções ligadas à administração de empresas do grupo, Hulk tinha interferência direta no dia a dia dos postos. Mensagens trocadas com um comparsa, responsável pela “ponta operacional”, mostram pedidos de atualização sobre tanques, qualidade do combustível e saída de carregamentos.
Quando surgiam dúvidas sobre a qualidade da mistura — especialmente nos momentos em que o metanol chegava mais concentrado — era Ygor quem definia os limites. Em um trecho analisado pela PF, após receber alerta de que “o pesado veio mais forte”, indicando maior quantidade de metanol, ele orienta ajustes para evitar chamar atenção. Isso, segundo os investigadores, mostra que ele compreendia perfeitamente da dinâmica da mistura quanto os riscos de autuação.
Ygor também mantinha contato direto com outro criminoso, identificado como “Alemão”, que trabalhava na manipulação do produtos adulterados.
Núcleo da liderança
A relação de Ygor com Sérgio Dias da Silva, o Serginho, é descrita em termos claros pela PF, que aponta ambos como integrantes do núcleo de liderança da célula do PCC. Serginho conduzia negociações e articulações externas, enquanto Hulk garantia o funcionamento financeiro e a manutenção das fraudes.
Trechos da investigação mostram que, quando operadores da quadrilha pediam aval para pagamentos, ajustes técnicos ou decisões mais delicadas, o nome de Ygor surgia com frequência.
A PF afirma que essa dupla liderança permitiu que o grupo mantivesse regularidade nas práticas criminosas, mesmo quando enfrentava aumento de preços de insumos, pressões de fornecedores ou risco de fiscalização surpresa. Em um dos relatórios, os investigadores afirmam que ambos “centralizam informações de interesse da organização”.
Indesejado na operação
Ao mesmo tempo, os investigadores concluíram que Hulk representava risco por romper a discrição absoluta, uma regra que sustentava o esquema. A presença física dele nos postos podia atrair atenção de consumidores, desorganizar a rotina dos operadores mais experientes, despertar suspeitas pelo comportamento e até expor movimentações sensíveis, como o manuseio de tanques adulterados.
Ao cruzar mensagens com teor financeiro e a ordem de afastamento de Hulk, a PF percebeu um quadro peculiar: o principal responsável por autorizar pagamentos e garantir suprimento de combustível adulterado não podia permanecer no local onde o crime acontecia.
Hulk, como mostra as provas coletadas pela PF, era essencial para manter o esquema vivo, mas não era seguro mantê-lo próximo do esquema. A quadrilha sabia que, se ele chamasse atenção no posto, todo o sistema poderia ruir.
Conexões financeiras e blindagem da grana
A investigação também aponta que Hulk era figura essencial no fluxo de lavagem de dinheiro do grupo. Ele definia pagamentos feitos por empresas usadas como fachada, como a S4 Administração e a Stein Transportes, ambas sem funcionários registrados.
A S4 chegou a transferir mais de R$ 1,2 milhão para Fernanda Ferrari Zago, esposa de Ygor, o que levou o Grupo de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPSP, a afirmar que ele “recebe parte de seus ganhos na organização criminosa por intermédio dessa conta bancária”. Já a Stein funcionava como elo entre postos abastecidos com combustível adulterado e fornecedores ligados ao transporte de metanol.
A movimentação financeira era intensa e fracionada, com repasses internos entre contas da própria S4 e pagamentos indiretos a operadores da quadrilha, todos liberados mediante autorização de Ygor.
Fornecedores e operadores externos
O envolvimento de Hulk também aparece em situações que transcendiam o núcleo central da quadrilha. Os investigadores registraram episódios em que ele tratava de acertos de contas com grupos paralelos, incluindo os chamados Irmãos D’mico, apontados em relatórios como os fornecedores de metanol.
Em certo momento, diante de uma diferença de valores, a PF registrou que Ygor solicitou o pagamento de uma diferença de R$ 50 mil na conta de uma empresa de transportes. O apontamento é acompanhado da observação de que ele era o responsável por regularizar pendências com fornecedores do insumo usado na adulteração.

















