Alunos de medicina protestam contra estágio no HC que cobra R$ 8,5 mil. Veja vídeo

Estudantes denunciam “mercantilização do ensino público” com programa que cobra R$ 8,5 mil de alunos de faculdades privadas para estagiarem

atualizado

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Imagem colorida de estudantes de medicina no ato contra o programa que vende vagas de estágio no HCFMUSP e no HU - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida de estudantes de medicina no ato contra o programa que vende vagas de estágio no HCFMUSP e no HU - Metrópoles - Foto: Imagem cedida ao Metrópoles

Estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) protestaram nesta quarta-feira (29/4) contra o programa “Experiência HCFMUSP na Prática” que vende vagas de estágio por R$ 8.450 para alunos de faculdades privadas estagiarem no Hospital das Clínicas (HC) e no Hospital Universitário (HU).

Em meio à escalada da greve na USP, os estudantes, juntamente com profissionais do HU e da universidade, convocaram uma manifestação, com bloqueio da Av. Dr. Arnaldo e caminhada até a Av. Paulista, às 13h. Imagens obtidas pelo Metrópoles mostram diversos protestantes carregando cartazes contra o reitor Aluísio Segurado e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Além da denúncia ao “Experiência HCFMUSP na Prática”, o ato protesta contra o sucateamento do HU, que perdeu cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década. A mobilização faz parte da greve dos estudantes de medicina.

De acordo com Henrick Munhoz Martins, vice-presidente do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (Caoc) e membro do comando de greve, o programa é um projeto de precarização do ensino médico e do atendimento à população dentro de uma das principais instituições do país.

O Experiência teve início em 2023 com 214 vagas e, agora, em 2026, estão previstas até 2 mil vagas para alunos externos. O número supera em 3,7 vezes o total de estudantes de medicina do 4º ao 6º ano da própria USP.

“Estudantes da FMUSP relatam uma série de situações em que perderam espaço para alunos do programa com internos deslocados para funções burocráticas, como redigir prontuários de atendimentos realizados por estudantes pagantes; restrição de acesso a centros cirúrgicos para priorizar vagas do programa; superlotação de enfermarias e ambulatórios; e impedimento dos alunos da própria universidade de participarem de exames e discussões clínicas à beira-leito, conta Martins”.

Os alunos pontuam que o problema extrapola a formação e atinge o atendimento à população. “Quando o acesso à prática vira produto, o paciente vira meio”, resume Martins, que alerta para riscos éticos e para a piora da qualidade da assistência no Sistema Único de Saúde (SUS).

O movimento denuncia também o agravamento da crise no Hospital Universitário da USP. Desde 2014, o HU perdeu cerca de 30% de seus funcionários, o que resultou no fechamento de aproximadamente 25% dos leitos de internação, 40% dos leitos de UTI e fez com que seus prontos-socorros operassem de portas fechadas desde 2017.

“Atualmente o hospital opera com menos de 70% de sua capacidade, deixando desassistida a população da zona oeste de São Paulo e comprometendo a formação prática de alunos de diversos cursos da saúde”, segundo Martins.

Segundo o último Anuário Estatístico da USP, em 2024 foram realizadas 32.173 consultas para a comunidade SUS do Butantã, o que equivale a apenas 11,5% das realizadas em 2013. A redução de leitos foi de quase metade também em comparação a 2013, passando de 233 para 128.

Questões financeiras

Outra crítica dos estudantes é o modelo de financiamento associado ao programa. Segundo a liderança do CAOC, parte relevante de despesas da graduação, como bolsas estudantis, pagamento de preceptores e custos operacionais de disciplinas, passou a depender diretamente da arrecadação do “Experiência HC”. “Essa lógica é uma estratégia que busca vincular o pagamento de itens necessários a um programa desnecessário para garantir a sua existência e expansão de forma arquitetada. Diante do orçamento da USP e de entidades vinculadas à universidade, os valores arrecadados pelo ‘Experiência HC’ são proporcionalmente pequenos e não justificariam a adoção de um modelo”, detona o vice-presidente do CAOC.

Questionada sobre o assunto pelo Metrópoles, a reitoria da USP pediu à reportagem para entrar em contato com a assessoria do Hospital Universitário. O HU foi contatado, mas não retornou até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.


Outras pautas do movimento estudantil:

  • Revisão curricular do curso de medicina: os estudantes afirmam que a revisão do currículo da medicina USP está atrasada e se tornou inadiável. A crítica é de que o modelo atual não acompanha as transformações do sistema de saúde e não prioriza adequadamente a formação voltada ao Sistema Único de Saúde (SUS). O movimento cobra um processo amplo, participativo e com poder deliberativo real dos estudantes.
  • Apoio aos trabalhadores da USP: o movimento estudantil se soma às reivindicações dos trabalhadores da universidade, em greve por recomposição salarial e melhores condições de trabalho. Os estudantes defendem isonomia entre categorias, valorização dos servidores e o fim da precarização, apontando que a crise nas condições de trabalho impacta diretamente o funcionamento da universidade.
  • Restaurantes universitários: a qualidade dos restaurantes universitários também entrou na pauta após sucessivas críticas ao modelo terceirizado. Os estudantes defendem a criação de um grupo de trabalho para viabilizar a “desterceirização” e, enquanto isso, a abertura de nova licitação que garanta padrões mínimos de qualidade. Além disso, os estudantes também pedem a ampliação do acesso aos bandejões para estudantes de cursinhos populares, como medida de inclusão.
  • Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE): a pauta inclui ainda o aumento do auxílio permanência integral para o valor de um salário mínimo paulista e o parcial para meio salário mínimo. A pauta dos estudantes ainda inclui: adicional de 10% na pontuação total do PAPFE para pessoas transgênero; possibilidade de concorrer ao PAPFE, mesmo em uma 2°graduação USP; e retirada do mecanismo que cancela o auxílio PAPFE em razão de reprovação em disciplinas por frequência ou nota.
  • Transporte universitário: a falta de transporte adequado entre o Quadrilátero da Saúde e a Cidade Universitária é apontada como um obstáculo concreto à formação. Estudantes relatam perda de atividades, atrasos frequentes e dificuldade de acesso a campos de estágio. Diante disso, o movimento reivindica a expansão do BUSP para esse trajeto. Paralelamente, os alunos também defendem a liberação do uso do transporte para trabalhadores terceirizados, que hoje enfrentam dificuldades de deslocamento dentro da universidade. Para o movimento, ambas as medidas são essenciais para garantir o funcionamento da rotina acadêmica e condições mínimas de trabalho.
  • Garantias acadêmicas durante e após a greve: os estudantes rejeitam qualquer possibilidade de prejuízo acadêmico e defendem que toda a carga prática seja recomposta presencialmente ao final da paralisação. Paralelamente, o movimento exige um compromisso formal da universidade de que não haverá punições acadêmicas ou administrativas contra quem aderiu à greve. O temor é de sanções indiretas, como prejuízos em avaliações ou restrições em atividades, o que, segundo os estudantes, configuraria retaliação ao direito legítimo de mobilização.

 

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