Tenha consciência: histórias podem nos inspirar ou nos paralisar

Quando colocamos nossos relatos em um pedestal, desvirtuamos sua origem. Aquilo que foi um grande feito se torna penoso, enfadonho

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Escutar histórias é um exercício instigante. A cada momento, entro em contato com situações, até então, impensadas, percebo comportamentos improváveis para o meu temperamento e encontro explicações para conexões que, de tão óbvias, passam despercebidas.

O melhor de tudo é atestar que cada pessoa tem uma boa história para contar. Às vezes, uma passagem de uma grande trajetória. Noutras, uma jornada inteira – como se aquele fosse o fio condutor, o mito regente daquela existência.

Já ouvi relatos comoventes, surpreendentes, tristes, divertidos e irritantes. E os afetos que eles conclamam, aos poucos, me invadem, mudam a atmosfera, incitam pensamentos e reações. Histórias têm o poder de nos conduzir. A arte atesta isso.

Há quem se apegue tanto a uma história a ponto de não permitir que a vida vá além dela. Torna-se repetitiva ao ostentar uma cena. Seja como um troféu, ou como uma grande cicatriz – às vezes, uma ferida aberta. Dois extremos apontando para o mesmo risco: a fixação.

Em geral, esse fenômeno deriva da dificuldade de assimilação dos conteúdos evocados por aquela vivência. Não conseguimos elaborar a experiência e, ao repetirmos, buscamos encontrar um sentido que coloque tal história como algo pertinente a quem somos.

A depender da energia mobilizada por essa tal vivência, não a repetiremos verbalmente, mas tenderemos a reviver a história buscando atribuir-lhe um significado. Da observação desse fenômeno, Freud chegou à teoria da compulsão por repetição. Para Jung, essa dinâmica atesta a força autônoma dos complexos afetivos.

Quando colocamos nossos relatos em um pedestal, costumamos desvirtuar sua origem. Aquilo que foi um grande feito, se torna penoso, enfadonho. Aquilo que foi triste, não sensibiliza mais o espectador. Um livro com o mesmo conteúdo em todas as páginas torna-se facilmente desinteressante.

No meu ofício, a escuta é a grande ferramenta. Ela não se dá apenas naquilo dito por palavras. Mas, também, nos gestos, silêncios, sintomas e olhares. É um garimpo por detalhes negligenciados, esquecidos, ocultados. Eles farão diferença para a compreensão do sentido oculto, o que faz aquilo ser contado outra vez.

É interessante perceber que, à medida que avançamos no processo, essa recontagem é feita de outra forma. Coisas antes importantíssimas agora sequer são citadas, enquanto outras ganham realce. Indício importante: estamos no rumo certo.

Não porque temos um objetivo a cumprir, pois sempre sabemos de onde partimos, nunca aonde iremos. Mas porque, a cada novo olhar sobre a mesma situação, o indivíduo mostra ter conseguido ampliar sua capacidade de visão. E eu, enquanto analista, a minha habilidade de escutar.

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