Xenofobia em Portugal: se lhe atiram pedras, mande flores

Ataque contra mestrandos brasileiros na Universidade de Lisboa não é fato isolado, mas é grande erro dizer que este país é xenófobo

atualizado 01/05/2019 23:06

Twitter/Reprodução

A imagem é patética. Dentro de um caixote de madeira, uma meia dúzia de pedras, dessas pedras de calçada que nós, brasileiros, chamamos de pedras portuguesas e que são um forte elo entre as culturas de Brasil e Portugal. À frente do caixote um cartaz com a frase: “Grátis se for para atirar a um ‘zuca’ [que passou à frente no mestrado]” (foto em destaque). “Zuca” é uma forma reduzida de Brazuca, assim como se utiliza a expressão “tuga”, como redução de Portuga. O cenário é o mais improvável possível: o saguão da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, a mais respeitada de Portugal.

A imagem, captada por uma brasileira estudante da faculdade, correu as redes sociais, gerando imensas discussões e chamando a atenção da imprensa, tanto local como internacional. O Metrópoles deu destaque à notícia na segunda-feira (29/04/2019).

Se o ato em si merece todo o repúdio, a resposta oficial da Faculdade de Direito não ficou atrás. A subdiretora do que se supõe seja uma instituição que defende a legalidade saiu-se com essa pérola num comunicado oficial: “A nossa faculdade orgulha-se de ser um espaço de liberdade de opinião e de incentivo à participação cívica responsável, convivendo com a autocrítica, o humor e a sátira.”

E ainda justificou a situação contextualizando-a num clima de eleições para o centro acadêmico da instituição. Em outras palavras, acabou corroborando e justificando a atitude do grupo de alunos responsáveis pela peça, que também disseram que se tratava de uma brincadeira. Bem, como já dizia minha avó, em uma pedagogia tosca, mas com bons princípios: “Brincadeira tem limites”.

Pelo menos o reitor da universidade se pronunciou dizendo que tratar-se de uma atitude intolerável e que os autores seriam punidos.

O ato de xenofobia, que poderia passar despercebido, como tantas agressões cotidianas sofridas por estrangeiros no mundo todo, ganhou tamanha repercussão porque há um número significativo de brasileiros em cursos de pós-graduação em Portugal. Muitos desses brasileiros, inclusive, não são alunos recém-formados na graduação. São profissionais com atuação reconhecida no Brasil e que buscam complementar sua formação no exterior. E que não vão aceitar ser tratados como cidadãos de segunda categoria.

Detalhe: brasileiros são estudantes “desejados” pelas universidades, pois estrangeiros pagam mensalidades muito mais caras que os portugueses, contribuindo para equilibrar as finanças dessas instituições.

Por um lado, é uma pena que um caso de xenofobia só ganhe destaque porque atinja uma elite intelectual. Por outro, é a oportunidade para que se descortinem e venham à tona as pequenas agressões diárias sofridas pelos cidadãos comuns. Uma xenofobia que vem associada ao preconceito de gênero, etnia, classe social, orientação sexual, religião

Não dá para dizer que o ocorrido na Universidade de Lisboa seja um caso isolado. Mas daí a afirmar que Portugal é um país xenófobo, que odeia os brasileiros, é um grande erro. Portugal acolhe e precisa dos imigrantes. São mais de 400 mil entre brasileiros, angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos, ucranianos, romenos, chineses, russos e ingleses, entre outras nacionalidades. Vêm suprir uma carência de mão de obra em um país envelhecido. E trazem investimentos e um dinamismo novo à economia.

Em relação aos brasileiros especificamente, há uma relação complexa dos portugueses para conosco. Amor e ódio. Algo que está mais para o campo da psicologia do que para a história ou a sociologia. Pais admiram e se orgulham dos filhos. Mas, por vezes, desenvolvem uma relação perversa, de competição ao não admitir que os filhos os superem.

Portugueses acham o Brasil um país incrível, de uma rica diversidade cultural e gastronômica, de belezas naturais sem igual no mundo. Mas incomoda a muitos portugueses o nosso talento, a nossa dedicação ao trabalho e capacidade de superação. Aí passamos a ser os “brasileiros barulhentos, mal-educados e pouco refinados”. Como se rezássemos na cartilha da cantora Ludmilla (que também faz sucesso aqui): “Cheguei / Cheguei chegando, bagunçando a zorra toda / E que se dane, eu quero mais é que se exploda / Porque ninguém vai estragar meu dia…”

Mas voltando à xenofobia, penso que cabe também uma reflexão sobre os nossos atos e atitudes, sobre a maneira como nós, brasileiros, tratamos os imigrantes haitianos, venezuelanos e bolivianos. O amor que temos pelos argentinos. E, se é que faz sentido falar de “xenofobia interna”, não esqueçamos a forma como o Sul Maravilha trata os imigrantes nordestinos, os quais os paulistanos chamam simplesmente de baianos e os cariocas, de paraíbas.

Vale refletir ainda sobre o nosso repertório vasto de piadas xenófobas sobre portugueses. Também temos nossos telhados de vidro. Que não seja quebrado pelas pedras que estavam no cesto na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

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