À mesa com os portugueses: tasca, pães, queijos, vinho e satisfação

As melhores refeições tipicamente portuguesas não acontecem nos restaurantes estrelados

atualizado 14/03/2019 23:14

Gui Pacheco

Talvez um dos prazeres mais primitivos do homem seja sentar à mesa com familiares, amigos ou colegas e partilhar as refeições, as conversas e os afetos. Não é à toa que o verbo “comer” tem em sua origem o sentido coletivo. Assim me explicava o brilhante professor de Literatura Latina nos bons tempos da USP, Flávio di Giorgi. Em latim, o verbo edere significa “alimentar-se”.

Na Península Ibérica, agregou-se à palavra o prefixo cum, que significa companhia. E criou-se o verbo cum edere, que se transformou em cumedere e mais tarde em comer. Ou seja, comer tem em si o significado de “alimentar-se junto”. Em inglês, é eat; em francês, manger; em italiano, mangiare. Bem diferentes do nosso “comer”. Ao pé da letra, comer num fast food sozinho não é comer. É alimentar-se, simplesmente encher o estômago.

Os sábios portugueses e espanhóis souberam trazer o sentido coletivo ao momento das refeições. E transmitiram esse sentimento aos povos que colonizaram.

As melhores refeições tipicamente portuguesas não acontecem nos restaurantes estrelados. Estão naquela pequena tasca, traduzindo para o nosso português, aquele restaurante simples, quase um boteco a servir uns PFs. Numa tasca, é quase obrigatório que as toalhas de mesa sejam de papel. Guardanapos também de papel, dentro do copo.

A decoração de uma tasca é um item à parte. Não houve nenhum designer de interiores ou arquiteto a sugerir uma decoração clean e minimalista. É possível que haja um quadro com uma paisagem bucólica do Alentejo ou com a imagem de Nossa Senhora de Fátima.

Se o dono do estabelecimento gostar de futebol, o que é bem provável, um cachecol, um pôster e uma foto do time do coração. É quase a senha para dizer que, se você também for fã do esporte, poderá conversar horas e horas sobre as glórias e tropeços do seu time.

Todos se dão bem
Um adepto do Sporting não deixará de frequentar a tasca só porque o dono é benfiquista. Todos se dão bem, ao fim e ao cabo. Melhor ainda se a TV estiver sintonizada num canal esportivo.

Sim, é isso mesmo. Tasca que se preza deixa a TV ligada, às vezes duas TVs em canais diferentes. Nada de canais de videoclipes ou documentários sobre a vida selvagem. Na hora do almoço, canais esportivos ou de notícias.

Se você acha que a TV ligada contribui para a ausência de diálogos, engano seu. A notícia é o mote para as conversas dos portugueses, sempre a reclamarem da situação política e econômica. Aliás, eles reclamam o tempo todo. As coisas nunca estão bem para eles, complexo de patinho feio que Portugal ainda guarda, apesar de todos os índices positivos que o país apresenta hoje.

Uma tasca de verdade é uma instituição familiar. Marido, mulher e, às vezes, os filhos. Um na cozinha, outro a servir as mesas. Esse talvez seja um dos motivos pelos quais nos sentimos tão em casa.

Mesa portuguesa com certeza
Bem, mas vamos ao que interessa. Uma mesa portuguesa com certeza começa com pão, manteiga e azeitonas. Para sofisticar um pouco, um queijo do Azeitão. É um queijo pequeno, redondo, do qual se tira a tampa mais dura e se saboreia o interior cremoso e de sabor acentuado, passando-o no pão.

Um copo de vinho nacional “da casa” para acompanhar, que o garçom sempre dirá que é muito bom. Se não quiser arriscar, peça outro vinho da carta. Garanto a você: no mínimo será sempre bom.

Além do pequeno mas honesto cardápio fixo, há pelo menos uns três menus do dia: sempre peixe, quase sempre porco, às vezes frango ou carne bovina, que é cara e rara. Os pratos incluem bebida, sobremesa e café, por um preço que gira em torno de 8 euros. Comparando com a Europa e mesmo convertendo para reais, é um valor bem razoável pela qualidade da comida.

Baba de camelo
Para a sobremesa, peça a baba de camelo, se houver essa opção. O nome é nojento, o aspecto lembra o nome, mas é delicioso, feito só com ovos e leite condensado. O café expresso, sempre muito bem tirado. Detalhe: o café sempre vem com um sachê de açúcar ao lado. Nunca com adoçante, que você tem que pedir ao garçom. Nunca entendi o porquê disso, certamente mais uma portuguesice.

Saímos sempre satisfeitos. E perguntamos o que haverá no menu de amanhã. “Cozido à portuguesa”, responde o dono. É, desse jeito, a dieta vai ter que esperar mais uma semana.

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