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Ponto de vista

"Devemos criar cidadãos e não bestas", desabafa pai de Raul Aragão

Ele fala sobre tragédia que o atingiu e diz sentir compaixão do jovem que tirou a vida do seu filho. Ciclista morreu atropelado na L2 Norte

Foto de Helder GondimHelder Gondim
23/11/2017 05:30, atualizado 23/11/2017 07:43
Rodas da Paz/Divulgação
“Devemos criar cidadãos e não bestas”, desabafa pai de Raul Aragão

Hoje (21 de novembro) faz um mês que meu filho Raul foi morto quando atravessava a L2 a caminho de casa, depois de almoçar no Restaurante Universitário da UnB. Pensei que a dor da perda diminuiria com o tempo. Não acreditem nisso. Nem pode ser amenizada pela presença de outros filhos. Tenho outros quatro. Todos vieram de diversos estados do Brasil para as exéquias e ver o irmão uma última vez.

Por qualquer dos meus filhos verteria as mesmas lágrimas. Mas a ironia daquele corpo frio ser de uma vítima daquilo contra o que lutara durante seus breves 24 anos incompletos (o aniversário dele seria 14 de novembro) fez centenas de outros olhos encherem-se de lágrimas. As avós dele, de 81 e 84 anos, tios e primos também precisaram vir para poder crer.

Tragédia! Fui criticado por ter falado, antes da conclusão do laudo pericial, de minha compaixão em relação a Johann Homonnai, de 18 anos, que tirou a vida de meu filho. Hoje, com o laudo atestando 95km por hora no momento do impacto, minha pena deste rapaz é bem maior.

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Confira as imagens do velório e enterro de Raul Aragão no dia 23 de outubro, no Campo da Esperança, da Asa Sul

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Raul e sua paixão: a bicicleta
Helder Luís Rocha, pai de Raul, diz que acidente foi uma "fatalidade"
Ciclistas usaram nariz de palhaço durante o velório
Tristeza e comoção no velório
Presidente da CLDF, Joe Valle compareceu ao velório
Parentes e amigos foram de bicicleta para o velório
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Parentes e amigos foram de bicicleta para o velório

Felipe Menezes/Metrópoles
Raul e sua paixão: a bicicleta
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Raul e sua paixão: a bicicleta

Facebook/Reprodução
Helder Luís Rocha, pai de Raul, diz que acidente foi uma "fatalidade"
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Helder Luís Rocha, pai de Raul, diz que acidente foi uma "fatalidade"

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Ciclistas usaram nariz de palhaço durante o velório
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Ciclistas usaram nariz de palhaço durante o velório

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Tristeza e comoção no velório
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Tristeza e comoção no velório

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Presidente da CLDF, Joe Valle compareceu ao velório
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Presidente da CLDF, Joe Valle compareceu ao velório

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Ciclistas acompanharam o velório
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Ciclistas acompanharam o velório

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Ciclistas acompanharam o velório: choro e emoção
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Ciclistas acompanharam o velório: choro e emoção

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Mesmo quando dona Régilla Márcia, proprietária da Casa de Biscoitos Mineiros, ainda com Raul entre a vida e a morte, veio vilipendiá-lo, alegando estar ele sem equipamento de segurança, de chinelos. Não contrapus que suas unhas dos pés estavam intactas, perguntei como estava o filho dela, minha preocupação era e é sincera.

Minha compaixão é a mesma que senti por Rodion Raskólnikov, quando li “Crime e Castigo”. O personagem também cometeu um assassinato acidental. Fora apenas cometer um furto. Mas, ao ser surpreendido e atacado, tirou duas vidas humanas. Sua existência tornou-se um inferno. Sua alma só apaziguou-se quando teve a oportunidade de expiar a culpa. O tempo também não apagará sua consciência, a não ser que torne-se um psicopata. Não desejo, nem para ele nem para a sociedade, tal desgraça.

Entendo ser dever de um advogado fazer de tudo para livrar seu constituinte de qualquer condenação. Mas os deveres de um pai são bem maiores. Devemos criar cidadãos e não bestas. Imagino o quanto custou convencer as autoridades a livrar o flagrante de seu filho para sua consciência. O delegado nos disse que o menino estaria nervoso demais; e o pai, Johann Homonnai Junior, prometera levá-lo para depor quando estivesse melhor, e claro, bem instruído a como proceder no interrogatório, manter-se em silêncio.

Imagine o senhor, se eu, como fiscal da Receita, relaxasse multas à JBS, ou se os policiais federais não prendessem o Picciani ou o Sérgio Cabral compungidos e emocionados pelo flagrante? O direito à propriedade é mais importante que o direito à vida, poderia alegar o senhor. Mas Dr. Homonnai, seu sócio, o Dr. Ibaneis Rocha, pleiteia a indicação de candidato a governador do DF pelo mesmo partido dos senhores Picciani e Cabral.  Esperamos, nós eleitores de Brasília, um entendimento melhor das leis.

Dr. Johann Homonnai Junior,  li compungido um e-mail ao Nassif atribuído ao senhor, em que defendia os meninos que tocaram fogo no índio Galdino Pataxó por pensarem ser ele um mendigo. Em um trecho, o senhor falava que eles “envergonham-se sinceramente do que  fizeram”. Que encontrou na face de um deles “um misto de vergonha, susto e desespero. A vergonha era maior. Pedia desculpas a todos que conhecia.”  O senhor tem visto o mesmo misto na face de seu filho?

Dr. Johann Homonnai Junior, permita a seu filho ser um cidadão responsável, e resignar-se para que não perca a juventude vilipendiado com o opróbio de assassino, ou mesmo de filhinho de papai irresponsável dirigindo a 100Km/h numa via de 60km/h, em um carango superesportivo, que faz de 0 a 100km/h em 9,3 segundos. De minha parte, não permitirei que meu filho seja acusado de provocar a própria morte, ou sequer de estar mal-vestido, de chinelos, para encontrá-la.

(*) Helder Gondim é servidor público, pai de Raul Aragão, ciclista que morreu atropelado no dia 21 de outubro de 2017 na L2 Norte