PCC e CV terroristas: por que mercado se preocupa com decisão de Trump
Decisão da Casa Branca acendeu alerta no mercado. Especialistas temem redução de investimento externo e danos a setores como agro e turismo
atualizado
Compartilhar notícia

A decisão do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) – duas das principais organizações criminosas do Brasil – como grupos terroristas, anunciada pela Casa Branca nessa quinta-feira (28/5), acendeu o sinal de alerta no mercado financeiro.
Fontes ouvidas na manhã desta sexta-feira (29/5) pela reportagem do Metrópoles avaliam que a medida não deve afetar tanto, em um primeiro momento, o câmbio e o mercado de ações. O foco dos investidores no último pregão da semana são a negociação entre EUA e Irã em torno do possível fim da guerra no Oriente Médio e os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no primeiro trimestre de 2026.
No médio e longo prazo, porém, é possível que o mercado financeiro e a economia brasileira, especialmente alguns setores específicos, comecem a sofrer os impactos da decisão de Trump sobre PCC e CV. Em linhas gerais, há preocupações em relação ao aumento do risco e de dos custos para o setor bancário, além de eventuais danos a segmentos como infraestrutura, energia, mineração, logística, agronegócio e a cadeia exportadora do país.
O que Trump decidiu
A medida anunciada nessa quinta-feira faz parte da estratégia do governo Trump de endurecer o combate ao crime organizado internacional e ampliar sanções contra grupos ligados ao narcotráfico.
Segundo o Departamento de Estado do governo norte-americano, as duas facções criminosas brasileiras, que têm ramificações em diversos países, serão oficialmente incluídas na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês) no dia 5 de junho.
Em comunicado oficial, a medida foi anunciada tendo como base duas diretrizes legais dos EUA. A primeira delas, a Ordem Executiva 13224, foi criada em 2001 pelo então presidente, George W. Bush, dias após o atentado terrorista de 11 de setembro ao World Trade Center.
O objetivo da determinação é sufocar financeiramente indivíduos ou grupos classificados como Specially Designated Global Terrorists (SDGT) – Terroristas Globais Especialmente Designados, em tradução para o português. O enquadramento é controlado pelo Departamento de Estado e pelo Departamento do Tesouro dos EUA.
O decreto ainda dá aval para o governo Trump agir contra entidades ou pessoas envolvidas com os afetados pela lei – sejam aqueles que fornecem “apoio, serviços ou assistência a terroristas e organizações terroristas designadas pela Ordem” ou os “que se associam a elas de qualquer outra forma, bem como suas subsidiárias, organizações de fachada, agentes e associados”.
Em outras palavras, a medida anunciada pelos EUA determina que qualquer pessoa ou empresa que fizer negócios, enviar ou receber dinheiro de grupos classificados como terroristas pode sofrer sanções penais. Isso abrange todas as empresas, entidades, fundos, indústrias ou indivíduos que tenham algum tipo de conexão com esses grupos.
Esse enquadramento é visto por alguns analistas como uma medida que se situa quase no limite de uma eventual interferência estrangeira no Brasil. Entre os riscos apontados, a determinação dos EUA pode influenciar instrumentos de investigação, cooperação internacional, sanções financeiras e até mesmo mecanismos de inteligência – o que desagrada o governo brasileiro.
Temor de queda nos investimentos
De acordo com as fontes consultadas pelo Metrópoles, a decisão dos EUA de classificar PCC e CV como organizações terroristas pode acabar afastando empresas norte-americanas do Brasil. Essas companhias, em última análise, poderiam temer fazer negócios com determinados segmentos da economia brasileira por preocupação acerca de eventuais ligações, ainda que indiretas, entre esses setores e os grupos criminosos.
Esse temor só aumentou a partir de recentes operações lideradas pela Polícia Federal (PF), pela Receita Federal e pelo Ministério Público que revelaram conexões entre o PCC e segmentos como os de combustíveis, mercado imobiliário, fintechs e fundos de investimento.
Como qualquer tipo de “apoio material” ou “serviço” poderá ser penalizado criminalmente, há o risco de empresas estrangeiras simplesmente pisarem no freio e decidirem diminuir ou mesmo interromper os investimentos na economia brasileira nos próximos meses e anos. O aumento do risco nas operações financeiras também poderia afetar o câmbio, escalando o valor do dólar frente ao real.
“Existem alguns riscos reputacionais. Instituições que são descobertas com alguma ligação com esses grupos têm sanções bem severas. Alguns processos ficam mais burocráticos”, afirma Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad.
“Pensando no mercado brasileiro, existem alguns grandes fundos de pensão que têm critérios ESG que excluem automaticamente qualquer país com instabilidade. Isso pode afetar países que tenham organizações classificadas dessa forma. Pode ocorrer de algum fluxo estrangeiro deixar de vir para cá ou sair por causa disso”, observa.
“Pode haver algumas implicações e volatilidade, além de impacto na percepção de risco do país”, completa Zogbi.
Agro, turismo, energia e logística podem ser afetados
Segundo especialistas, esse cenário de forte preocupação entre potenciais investidores aumentaria o risco para o ambiente de negócios no Brasil, com potencial prejuízo a empresas como bancos, seguradoras, fundos de investimento, indústria logística e multinacionais em geral.
Alguns segmentos da economia nacional dependem fortemente de capital externo. Em caso de redução dos investimentos, poderiam ser atingidos setores como os de infraestrutura, logística, mineração e o agronegócio – que tem sido o grande propulsor do crescimento do PIB do país nos últimos anos.
Outro setor que correria risco seria o turismo. Com a decisão dos EUA de classificar PCC e CV como terroristas, toda a cadeia de negócio envolvendo o turismo acaba sendo afetada – com o aumento no valor dos seguros de viagem, diminuição da quantidade de viagens ao país e repercussão internacional amplamente negativa.
Para efeito de comparação, depois que o governo norte-americano classificou cartéis de drogas do México como organizações terroristas, em fevereiro do ano passado, diversos setores da economia mexicana tiveram de se submeter a um rigoroso processo de escrutínio – como o agronegócio, o segmento automotivo, logística e manufatura.
Bancos podem ter de endurecer regras de “compliance”
Apesar dos potenciais efeitos negativos para diversos setores da economia brasileira, inclusive o segmento bancário, fontes ouvidas pelo Metrópoles mencionam pelo menos um ponto positivo a partir da decisão dos EUA de classificar PCC e CV como terroristas: o “sarrafo” do compliance de bancos e instituições financeiras que atuam no país deve subir, o que pode ser bom para empresas e clientes.
O chamado “compliance financeiro” é o conjunto de políticas, processos e tecnologias que garantem que as finanças de uma empresa estejam em conformidade com leis e regulamentos. Grosso modo, ele serve como uma espécie de “escudo” contra crimes financeiros, fraudes, riscos regulatórios e danos à reputação de empresas e organizações.
Segundo especialistas no setor, a decisão do governo Trump deve levar ao aumento das exigências de compliance, além de reforçar medidas de combate à lavagem de dinheiro e o monitoramento de movimentações financeiras consideradas suspeitas.