“Inflação da guerra”: IPCA acende alerta e deve manter BC cauteloso

A avaliação é de economistas e analistas do mercado financeiro ouvidos pela reportagem do Metrópoles. IPCA ficou em 0,88% em março, diz IBGE

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Anton Petrus/Getty Images
Imagem de plataforma de petróleo - Metrópoles
1 de 1 Imagem de plataforma de petróleo - Metrópoles - Foto: Anton Petrus/Getty Images

A escalada da inflação em março deste ano, revelada nesta sexta-feira (10/4) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acendeu um sinal de alerta no mercado e deve reforçar a cautela por parte do Banco Central (BC) na condução da política monetária.

A avaliação é de economistas e analistas do mercado financeiro ouvidos pela reportagem do Metrópoles nesta manhã, pouco depois do anúncio dos resultados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do país.

De acordo com o IBGE, a inflação no Brasil ficou em 0,88% em março, acelerando em relação ao mês anterior (0,77%). No acumulado de 12 meses até março, segundo as projeções, o IPCA avançou para 4,14%, ante 3,81% de fevereiro.

Os resultados vieram acima do esperado pelo mercado. A média das estimativas dos analistas era de uma inflação de 0,77% (na base mensal) e 4% (anual).

Segundo o Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta de inflação no Brasil para este ano é de 3%. Como há um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, ela será cumprida se ficar entre 1,5% e 4,5%.

Em março, a alta da inflação foi puxada, principalmente, pelos grupos de transportes – que inclui combustíveis – e alimentação e bebidas, com elevações de 1,64% e 1,56%, respectivamente.

Este foi o primeiro dado do IPCA já com os preços sob os efeitos causados pela guerra entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio, que vem afetando diretamente a cotação internacional do petróleo.

O que diz o mercado

Segundo André Valério, economista sênior do Banco Inter, apesar da forte alta em março, “o qualitativo do índice melhorou, na margem, em todas as medidas relevantes”. “A média dos núcleos desacelerou de 0,62% em fevereiro para 0,44% em março, mantendo a tendência de desaceleração no acumulado em 12 meses, que recuou para 4,39%, menor valor desde dezembro de 2024”, observa.

“A leitura de março foi amplamente impactada pelos impactos globais do conflito no Irã, como se nota no comportamento dos combustíveis. Entretanto, a melhoria no qualitativo reafirma a tendência de moderação da inflação subjacente”, analisa o economista.

Para Valério, com o cessar-fogo de duas semanas entre EUA e Irã, “a chance de uma contaminação do restante da inflação pelo choque do petróleo diminui”. “Mesmo que o cessar-fogo tenha sido alcançado sob bases frágeis, esperamos que ele persista, pelo menos pelas próximas duas semanas, tendo em vista que os EUA não parecem ter muita opção para escalonar o conflito”, afirma.

“O preço do barril de petróleo opera sob essa premissa desde o anúncio do cessar-fogo, tendo ficado abaixo de US$ 100 consistentemente. Ainda assim, não vemos a melhora do conflito como suficiente para dar tranquilidade ao Copom (Comitê de Política Monetária do BC), mas esperamos que o comitê continue o ciclo de cortes, em ajustes de 25 pontos-base (0,25 ponto percentual)”, pondera Valério.

Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, afirma que os juros futuros reagiram imediatamente, com movimento de alta, “refletindo a leitura de que o espaço para cortes mais rápidos de juros pode ficar mais limitado”. “A principal pressão veio da gasolina, das passagens aéreas e da alimentação em casa – sinais claros de que os efeitos da guerra no Oriente Médio já começam a aparecer no bolso do consumidor brasileiro”, avalia.

“Outro ponto que chama atenção é a difusão da inflação, que subiu de 61,3% para 67,4%, indicando que a alta de preços está mais espalhada pela economia”, prossegue Spyer. “A inflação veio mais forte do que o esperado e mostra que energia e alimentos seguem pressionando os preços, já sob influência do cenário global.”

Para o analista, “não é uma crise inflacionária, mas é um sinal de alerta” para o mercado. “E, para o investidor, isso significa um BC mais cauteloso nos próximos passos, ou seja, apoiando um corte mais moderado neste mês de abril”, pontua.

Claudia Moreno, economista do C6 Bank, reforça que “os dados indicam que os efeitos do conflito no Oriente Médio, que tem afetado os preços do petróleo e dos fertilizantes usados no agronegócio, já começam a aparecer na inflação brasileira”.

“No curto prazo, as medidas anunciadas pelo governo, que incluem subsídios e redução de impostos, devem limitar os efeitos da alta do petróleo sobre a inflação, mas outros impactos sobre os combustíveis e os alimentos ainda podem surgir mais à frente. Além disso, o mercado de trabalho aquecido e a perspectiva de desvalorização do real devem fazer com que os preços voltem a acelerar no segundo semestre. Nossa projeção é de que o IPCA encerre o ano em 4,8%, acima do intervalo de tolerância da meta, de 4,5%”, afirma Moreno.

Segundo a economista, “o Copom sinalizou que a Selic deve continuar caindo, mas o ritmo dependerá da evolução do conflito no Oriente Médio”. “Na nossa leitura, as restrições na produção de petróleo e de outros insumos já começam a pressionar a inflação. Por isso, esperamos um corte mais moderado na próxima reunião, no final do mês: 0,25 ponto percentual, levando os juros para 14,5%. No nosso cenário, a Selic deve encerrar o ano em 13,5%.”

Na avaliação de Gabriel Pestana, economista sênior da Genial Investimentos, “a surpresa altista foi relevante e reforçou uma leitura de piora tanto no quantitativo quanto no qualitativo da inflação”. “Em nossa decomposição, a surpresa apareceu de forma disseminada entre os grupos”, destaca.

“O diesel também chamou atenção, com alta de 13,9% em março, apesar do baixo peso no índice. Em conjunto, o IPCA de março reforça a escalada dos combustíveis e aumenta o risco de efeitos indiretos sobre os demais grupos nos próximos meses, especialmente por meio do custo do frete”, aponta Pestana.

Para Matheus Pizzani, economista do PicPay, “o choque de oferta provocado pela alta do preço do barril de petróleo após o início do conflito no Oriente Médio foi o principal responsável pela elevação acima do previsto no período”.

“O IPCA de março reforça a necessidade por parte do BC de manter a cautela e parcimônia em termos de direcionamento de seu ciclo de calibragem de juros. Contrariando o maior otimismo que havia atingido o mercado nos últimos dias, quando apostas de um corte de 50 pontos-base na próxima reunião do Copom ganharam espaço, o resultado de hoje faz com que uma redução de 25 pontos-base se torne uma decisão ainda mais correta do que foi no caso da reunião de março”, afirma. “Além de absorver o choque inicial já esperado no preço dos combustíveis e dos alimentos, a expectativa agora é entender o quanto este movimento pode se disseminar no interior da economia.”

Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, por sua vez, afirma que, mesmo com a alta, a inflação ainda não preocupa tanto graças ao trabalho do BC. “Evidentemente, essas questões de guerra podem desacelerar a queda da Selic ou até mesmo, em casos extremos, fazer com que ela volte a subir, o que não acredito. O acumulado em 12 meses está em 4,12%, abaixo da tolerância da meta. O cenário mais provável é o de uma Selic que caia de forma lenta, principalmente por causa do cenário turbulento externo”, avalia.

Também ouvido pelo Metrópoles, o economista Maykon Douglas afirma que “começamos a sentir os primeiros efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os preços dos combustíveis, mesmo com as recentes medidas de alívio dos preços pelo governo”.

“O fluxo de notícias continua bastante volátil e, mesmo com um acordo de paz nos próximos dias, o mercado de petróleo sofrerá por algum tempo. Logo, o cenário é de novas pressões nos preços, uma vez que o preço da commodity deve se estabilizar em patamares superiores aos do período pré-guerra”, projeta.

“É importante notar que, desconsiderando o fator guerra, os últimos números de inflação já vinham superando as projeções, a despeito da gradual desaceleração dos núcleos. O BC teria de manter a cautela mesmo sem o quadro de conflito. Com ele em jogo, mais ainda”, conclui o economista.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNegócios

Você quer ficar por dentro das notícias de negócios e receber notificações em tempo real?