
Mídia do Irã usa estreia na Copa para repercutir conflito com os EUA
Estreia do Irã na Copa dividiu as atenções com manifestações que lembraram a guerra com os EUA e os efeitos do conflito no Mundial

O futebol e a política se misturaram mais uma vez na segunda-feira (15/6), quando a seleção do Irã estreou na Copa do Mundo 2026 contra a Nova Zelândia. No campo, o jogo disputado em Los Angeles terminou em 2 a 2. Fora dele, Teerã aproveitou o palco do maior torneio de futebol do mundo para enviar mensagens para a população sobre a recente guerra com os Estados Unidos, cujas negociações para um acordo final devem começar ainda nesta semana.
A partida no SoFi Stadium foi transmitida pela Radiotelevisão da República Islâmica do irã (IRIB), a TV estatal do país persa, com lances ao vivo sendo divulgados pelas principais agências de notícias iranianas nas redes sociais.
O minuto a minuto, contudo, foi produzido com base em informações disponibilizadas pela transmissão da Fifa e de publicações nas redes sociais. Segundo fontes ligadas à diplomacia do Irã, ouvidas pelo Metrópoles sob reserva, isso aconteceu porque o governo de Donald Trump não emitiu vistos para jornalistas iranianos acompanharem a Copa do Mundo 2026.
A reportagem entrou em contato com o Departamento de Estado dos EUA e questionou se jornalistas iranianos não receberam vistos para trabalharem em jogos realizados no território norte-americano. Até a publicação da reportagem, não houve retorno. O espaço segue aberto.
Destaques em campo e fora dele
Na cobertura da mídia oficial do país, agora governado pelo aiatolá Mojtaba Khamenei, os lances da partida pelo Grupo G do Mundial se misturaram com manifestações políticas.
Dentro das quatro linhas, a atuação de Ramin Rezaeian ganhou destaque nos principais veículos estatais iranianos analisados pela reportagem. O lateral-direito, responsável por um dos gols contra os neozelandeses e pelo passe que gerou o segundo, foi eleito pela Fifa como o melhor jogador na partida.
Já no campo político, o bombardeio dos EUA contra a escola para meninas Shajareh Tayebeh, localizada na cidade de Minab, foi um dos assuntos mais comentados na cobertura local. Antes do início da partida, um vídeo de familiares das vítimas do bombardeio norte-americano, em apoio aos jogadores iranianos, foi divulgado pelas principais agências estatais do Irã.
Confira:
A história de Mikaeil Mirdoraghi, de 9 anos, também foi explorada pela mídia estatal iraniana. O menino virou símbolo do ataque contra a escola em Minab, após viralizar uma foto dele acenando para a mãe antes de sair de casa para estudar no dia do ataque.
Imagens de torcedores segurando fotos do garoto foram difundidas até mesmo por canais militares ligados ao Corpo dos Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC).
Reclamação do técnico repercutiu fora de campo
O extra-campo também foi um dos destaques das informações sobre a estreia do Irã na Copa. Logo após a partida, o técnico iraniano Amir Ghalenoei reclamou das condições impostas à seleção, que têm dificultado a adaptação da equipe. Um dos exemplos citados foi a não permissão para a seleção permanecer nos EUA, onde a equipe ainda vai jogar duas partidas.
Declarações semelhantes do meia Mehdi Taremi, que classificou a situação do Irã na competição como um “desastre”, por conta de todas as restrições, também ganharam destaque.
Apesar da ênfase nas manifestações políticas, analistas ouvidos pelo Metrópoles afirmam que a atuação da mídia estatal do Irã não pode ser enquadrada como sportswashing — prática de utilizar o esporte ou eventos esportivos para melhorar a reputação de um país.
“A participação dos jogadores iranianos na Copa do Mundo não significa que eles estejam ali para melhorar a imagem do regime, e não havendo essa ligação concreta, ela [a participação] não se classificaria como sportwashing. O técnico do Irã comentou que caso protestos acontecessem, o time estaria ali para jogar futebol e representar o povo iraniano, sejam aqueles que vivem no país ou fora dele. Não quer dizer que os jogadores, que o técnico, estejam despidos de preferências políticas, mas que o entendimento deles é o esporte”, explica o doutor em Política Comparada pela Universidade de Salamanca e especialista em Golfo Pérsico, Paulo Rebello.
Guerra entre EUA e Irã
- Estados Unidos e Irã anunciaram, no início desta semana, que chegaram a um acordo de paz para encerrar a guerra no Oriente Médio.
- O primeiro passo será a assinatura de um memorando de entendimento entre os dois governos, previsto para acontecer na sexta-feira (19/6).
- O pacto será dividido em duas partes. Na primeira delas, um novo cessar-fogo de 60 dias entrará em vigor para o início das negociações do acordo final.
- Ainda existe a previsão de reabertura do Estreito de Ormuz, o levantamento do bloqueio norte-americano contra portos iranianos e o fim dos ataques de Israel contra o Hezbollah no Líbano.
- Nesta primeira fase, ativos iranianos bloqueados no exterior também serão liberados.
Pouca citação aos protestos anti-governo
Assim como manifestações favoráveis ao atual governo iraniano, protestos contrários também foram vistos no SoFi Stadium. A maioria deles, por meio de bandeiras e símbolos que lembram a época da pré-revolução do Irã.

Banida após a Revolução Islâmica em 1979, a bandeira que carrega um leão e um sol no centro remonta à época da monarquia governada pelo último xá do Irã. Ela é utilizada como símbolo da oposição, que é liderada atualmente pelo príncipe herdeiro Reza Pahlavi do exílio nos EUA.
Antes do início do Mundial, a Federação Iraniana de Futebol (FFIRI) pediu que a Fifa vetasse símbolos monárquicos nos estádios durante os jogos. Apesar da entidade máxima do futebol ter acatado a exigência, a bandeira foi vista não só nos arredores do SoFi Stadium, mas também durante a partida contra a Nova Zelândia.














