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Mundo

Em duas semanas, Trump acumula derrotas dentro de casa e na América Latina

Com derrota eleitoral de aliado no Brasil e perda de maioria no Congresso, crise no Paraguai se junta ao revés de Trump nos últimos dias

06/11/2026 04:30
Andrew Harnik/Getty Images
Presidente dos EUA, Donald Trump - Metrópoles

Determinado a resgatar a influência dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, o presidente Donald Trump acumula ao menos três derrotas nas políticas interna e externa nas últimas duas semanas. Tal revés ameaça a estratégia de sua gestão de retomar a influência norte-americana na América Latina.

Nos últimos dias, o presidente norte-americano se viu perder maioria no Congresso dos Estados Unidos em uma derrota histórica após as eleições de meio de mandato que podem comprometer os últimos dois anos de seu governo. O republicano viu ainda derrotas políticas e eleitorais em nações latinas, que ameaçam agora o sucesso da chamada “Doutrina Donroe”.


Doutrina “Donroe”

  • Doutrina “Donroe” é uma combinação de Donald (Trump) e Monroe, em referência à histórica Doutrina Monroe, do século 19.
  • A estratégia de política externa do então presidente James Monroe defendia uma “América para os americanos”, que impedia a influência de outras regiões na América Latina enquanto aumentava a influência do EUA na região.
  • O atual presidente dos Estados Unidos retomou à Casa Branca com uma política externa que se assemelha a de Monroe, buscando a retomada da influência norte-americana em países latinos, reduzindo a presença da China na região.
  • O republicano tem buscando restaurar tal influência através de aproximação com nomes de direita da região.

Perda de influência no Brasil

A primeira delas aconteceu no dia 25 de outubro, quando milhões de brasileiros foram às urnas para definir o novo presidente do Brasil no segundo turno das eleições.

Em um dos lados da disputa estava Flávio Bolsonaro (PL), cuja família possui laços com o atual presidente norte-americano; do outro Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com quem o republicano protagonizou desentendimentos nos últimos meses.

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O presidente dos EUA não chegou a declarar apoio direto ao candidato do Partido Liberal (PL).

Entretanto, uma eventual vitória de Flávio na maior potência da América Latina era vista por interlocutores da Casa Branca como uma oportunidade de expandir a zona de influência norte-americana sobre América Latina devido à convergência política entre Trump e o senador brasileiro.

Tal perspectiva fica evidente em uma declaração de junho do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, responsável pela política externa de Donald Trump.

Na ocasião, ele citou o Brasil como uma “exceção de países aliados dos EUA no hemisfério”. O Brasil figurou a lista ao lado de Nicarágua, Venezuela, Cuba e Colômbia – que àquela altura era governado pelo ex-presidente Gustavo Petro, também de esquerda.

Dias depois, Rubio se mostrou esperançoso com mudanças na região após as eleições que viriam a acontecer. Governos antes de esquerda na América do Sul e na América Central migraram para líderes de direita após processos eleitorais internos, em um processo que favoreceu a influência dos EUA na região.

As mudanças foram registradas no Panamá, no Chile, no Peru e na Colômbia.

Mas não aconteceu no Brasil. No país, Lula conseguiu uma virada inédita contra Flávio no segundo turno das eleições e foi eleito para um quarto mandato como presidente. A vitória do petista, na percepção de interlocutores do Planalto, foi um “balde de água fria” para atual gestão norte-americana, afastando a possibilidade de um ingerência no país através de Flávio Bolsonaro.

Durante a campanha eleitoral, Flávio já havia afirmado sobre o desejo de se alinhar aos interesses norte-americanos.

Se eleito, o então candidato declarou que ir classificar organizações criminosas brasileiras como terroristas – uma iniciativa de Trump que é rejeitada pelo governo Lula – e aderiria ao Escudo das Américas, outra iniciativa dos EUA de combate às organizações criminosas latinas.

Lula também é contra a medida.

Dois dias após ser derrotado nas urnas, o senador brasileiro fugiu do país rumo aos Estados Unidos, onde vive atualmente com a família em Miami. A saída de Flávio do país é encarada como fuga. Ele é investigado pela Justiça do Brasil em casos de suposta prática de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
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Joyce N. Boghosian/Casa Branca
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

Arte/Metrópoles

Perda de um aliado com crise no Paraguai

A derrota na América Latina, no entanto, não se restringiu ao Brasil. A renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña, nessa quinta-feira (5/11) também pode ser vista como um revés para Donald Trump.

Um aliado do republicano na região, Peña estabeleceu uma linha direta com a Casa Branca durante seu mandato presidencial e aderiu às principais iniciativas do americano para a região.

Nesta semana, contudo, a liderança do paraguaio ruiu em meio a um escândalo financeiro no país. O Banco Central do Paraguai (BCP) determinou a liquidação do banco Ueno por considerá-lo insolvente — quando a instituição não consegue honrar seus compromissos financeiros. O Ministério Público do Paraguai solicitou ainda uma investigação criminal sobre o banco.

A dissolução do Banco afeta especialmente Peña – que foi alvo de um pedido de impeachment após o caso. O chefe de Estado paraguaio, que é economista de formação, foi acionista da Ueno Holding até março de 2025, empresa relacionada ao grupo controlador do banco.

O presidente, contudo, antecipou-se ao avanço do seu pedido de impeachment e decidiu renunciar ao cargo. Agora cabe ao Congresso do país decidir se aceita ou não a renúncia de Santiago Peña, que deve apresentar o pedido formalmente ao legislativo do país.

A crise no Paraguai, na percepção de especialistas, se junta ao desgaste de lideranças de direita nas últimas semanas e se junta ainda à recente derrotada de Trump no Congresso.

A onda azul norte-americana

Dias depois da derrota de Flávio Bolsonaro — que se não tivesse acontecido poderia colocar a principal potência latino-americana sob a zona de influência norte-americana —, foi a vez de Trump sofrer uma derrota interna.

Nas eleições de meio de mandato, realizadas na última terça-feira (3/11), o Partido Republicano do presidente foi derrotado pelo Partido Democrata, e com isso perdeu o controle do Congresso dos EUA.

Era o domínio republicano nas duas casas legislativas do país, a Câmara dos Representantes e o Senado, que dava margens para Trump avançar em sua agenda política e se proteger de investigações e ações da oposição.

No pleito, estavam em jogo 35 cadeiras no Senado, e 435 assentos na Cãmara, além de 36 cargos de governador.

Ao todo, o Partido Democrata conseguiu eleger 54 senadores, e ultrapassou o mínimo de 50 assentos para controlar o Senado.

Na Câmara foram eleitos 247 deputados democratas, 29 a mais do que os 218 necessários para ter o domínio da Casa. Já no caso das disputas estaduais, o Partido Democrata também se saiu melhor, e elegeu 5 governadores a mais do que na eleição de 2024, assegurando, assim, o comando de 28 estados do país. O Partido Republicano ficou com 20.