Caso contra Raúl Castro envolve rede de espionagem cubana nos anos 90

Raúl Castro foi indiciado pelo governo Trump por envolvimento em ataque de Cuba contra aviões de organização sediada nos EUA

atualizado

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1 de 1 Cuba - Raul Castro - Foto: Ansa

A acusação formal do governo dos Estados Unidos contra Raúl Castro, ex-presidente de Cuba entre 2008 e 2018, está intimamente ligada ao caso de uma rede de espiões cubanos desmantelada por autoridades norte-americanas em 1998, ou seja, há quase 30 anos.

Conhecida como Rede Vespa, o objetivo do grupo era um só: infiltrar-se em organizações anticastristas na Flórida, berço de exilados de Cuba, para monitorar e repassar informações para Havana.

À época, o governo de Fidel Castro enfrentava os reflexos diretos do colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Com o fim do apoio financeiro e político do bloco, o governo cubano passou a apostar no turismo como forma de manter o país. O setor, no entanto, passou a ser alvo de ataques terroristas financiados pelos EUA, como explosões de bombas em hotéis e o sequestro de aviões, que distanciaram visitantes da ilha.

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ONU expressa preocupação e insta que EUA retirem medidas contra Cuba
Cuba divulga guia de como agir em caso de ataque dos EUA
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Cuba divulga guia de como agir em caso de ataque dos EUA
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Cuba divulga guia de como agir em caso de ataque dos EUA

John Elk III/Getty Images

Sob este plano de fundo, um grupo de cubanos foi enviado aos EUA pelo Partido Comunista de Cuba (PCC), com a missão de tentar evitar os ataques norte-americanos.

Na maioria dos casos, eles entravam no território dos EUA como desertores e críticos do governo cubano, para se unir a grupos de cubanos exilados em Miami, contrários ao governo de Fidel Castro.

Um deles era Juan Pablo Roque, membro da Força Aérea de Cuba que desertou para os EUA em 1992. Lá, ele montou uma vida de fachada, incluindo um casamento com uma norte-americana, e se infiltrou no grupo conhecido como Brothers to the Rescue (Irmãos ao Resgate, em português). O piloto chegou a realizar voos com a organização.

Fundado no início da década de 1990, o grupo ainda continua ativo. Ele é liderado por José Basulto, um piloto cubano que buscou asilo nos EUA após a Revolução Cubana na década de 1950.


O que está acontecendo?

  • O ex-presidente de Cuba entre 2008 e 2018, Raúl Castro, foi formalmente indiciado pelo governo dos EUA nessa quarta-feira (20/5).
  • Ele foi acusado de participar de um ataque cubano contra aeronaves dos EUA em 1996, enquanto ocupava o cargo de ministro da Defesa de Cuba. 
  • As aeronaves pertenciam a uma organização de opositores do então governo de Fidel Castro que estavam exilados nos EUA. Na época, o grupo foi acusado por Havana de violar o espaço aéreo cubano inúmeras vezes.
  • Ao todo quatro pessoas morreram. Entre elas, três cidadãos dos EUA. 
  • O irmão mais novo de Fidel Castro, atualmente com 94 anos, foi acusado de conspiração para matar cidadãos norte-americanos, destruição de aeronaves e assassinato.

Inicialmente, o objetivo declarado da Brothers to the Rescue era identificar e resgatar pessoas que fugiam de Cuba em balsas e tentavam entrar no território norte-americano. Mas tudo mudou após um acordo migratório entre Washington e Havana, que determinou que cubanos encontrados no mar deveriam ser entregues a autoridades do governo de Fidel Castro. 

Foi neste contexto que a organização anticastrista mudou o foco de suas atividades e passou a realizar voos sobre o espaço aéreo do Cuba. Em muitas ocasiões, Havana alegou que tais ações incluíam lançamento de panfletos com propaganda contra o governo socialista.

Segundo investigação da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), o governo de Cuba notificou autoridades dos EUA sobre as violações ao espaço aéreo do país. Por isso, a Aeronáutica cubana recebeu sinal verde do alto escalão da administração de Fidel para abater aeronaves que voltassem a realizar tais voos.

Aviões abatidos por caças cubanos

Em um desses voos, realizado em 24 de fevereiro de 1996, dois aviões modelos Cessna 337, pertencentes a Brothers to the Rescue, foram abatidos por caças MiG-29 da Força Aérea Cubana. Quatro pessoas morreram na ação, incluindo três cidadãos dos EUA. Na época, Raúl Castro era ministro da Defesa de Cuba. 

De acordo com Havana, o caso ocorreu dentro dos limites de seu espaço aéreo. Os EUA, no entanto, contestaram a versão cubana, e afirmaram que o ataque aconteceu sobre águas internacionais. A versão norte-americana foi posteriormente corroborada por investigação da OACI.

A suspeita era de que Juan Pablo Roque, que retornou a Cuba um dia antes do incidente, forneceu informações para autoridades cubanas que facilitaram o abate das duas aeronaves. O que nunca foi confirmado pelo ex-piloto cubano.

O que aconteceu com a Rede Vespa?

Dois anos depois de Cuba abater os aviões norte-americanos, o Departamento Federal de Investigação (FBI) desmantelou a Rede Vespa.

Em 1998, 10 membros do grupo de espiões cubanos foram presos em Miami e indiciados por uma série de crimes.

Gerardo Hernández, Antonio Guerrero, Ramón Labañino, Fernando González e René González se recusaram a cooperar com autoridades norte-americanas e foram condenados a penas que variaram de 15 anos de detenção à prisão perpétua.

Outros cinco membros da Rede Vespa se declararam culpados e aceitaram colaborar com a Justiça dos EUA. Eles enfrentaram penas de 3 a 7 anos de prisão.

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