Como a Rússia está envolvida em meia maratona que acontece em Brasília
Corrida One Run acontece no dia 23 de maio em diversas partes do mundo, e é organizada por filha de ex-ministro da Rússia alvo de sanções
atualizado
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A corrida internacional One Run acontece em Brasília no próximo dia 23 de maio, e promete reunir milhares de corredores não só na capital do Brasil, como em todo o mundo, no mesmo dia e horário. Além do Brasil, a prova também acontece na Rússia, China, Bielorrússia, Arábia Saudita e em mais de 30 país.
Embora seja considerada por atletas uma das provas mais tradicionais do calendário de corridas, a One Run possui uma raiz quase que desconhecida: ela foi criada pela Rússia e conta com o apoio do Ministério do Esporte do país.
O nome oficial, em russo, da prova é ЗаБег — ou ZaBeg no alfabeto latino para a escrita. A palavra pode ser traduzida como “pela corrida” ou “seja a favor da corrida”. Já o nome internacional pode ser associado à proposta do evento, que ocorre simultaneamente em diversos lugares do mundo.
De acordo com o site oficial da competição, a prova teve sua primeira edição em 2017 e é realizada como a intenção de “popularizar o esporte na Rússia, promover um estilo de vida saudável e incentivar os cidadãos a praticarem exercícios físicos regularmente“.
Organizadora sancionada
A One Run — ou ZaBeg — tem ainda entre seus organizadores a triatleta russa Ksenia Shoigu. Ela é filha de Sergei Kuzhugetovich Shoigu, que foi ministro da Defesa de Vladimir Putin e hoje ocupa o posto de Secretário do Conselho de Segurança da Rússia.
Desde 30 de setembro de 2022, a triatleta foi incluída na lista de pessoas sancionadas pela União Europeia (UE) em meio à guerra do país contra a Ucrânia. As restrições foram justificadas pelo fato de Ksenia ter “ganhado dezenas de milhões de dólares em projetos de construção do governo e ter interesses comerciais diretamente ligados ao Departamento de Defesa” da Rússia.
Em 2023, Ksenia foi incluída na lista de sanções da Ucrânia por ser filha de Sergei Shoigu, que é acusado de estar “diretamente responsável pela implementação de políticas que prejudicam a integridade territorial, a soberania e a independência da Ucrânia”.
Em entrevista à Tass, agência estatal russa, Ksenia chegou a afirmar que tem o desejo de participar de uma das edições da One Run no Brasil ou China. Isso por considerar os cenários dos dois países “únicos”.
Cabe ressaltar que a filha do ex-ministro da Defesa de Putin não é sancionada no Brasil. Portanto, não seria impedida de correr em território brasileiro, já que o país só adota sanções aprovadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), diferente das aplicadas contra Ksenia, que são consideradas unilaterais.
Assim como no território brasileiro, a filha do ex-ministro da Defesa da Rússia também não é alvo de qualquer tipo de restrição nos outros países onde a meia-maratona vai acontecer.
Neste ano, a One Run será realizada — além da Rússia e Brasil — no Nepal, Líbano, Chile, Montenegro, Belarus, Sérvia, Venezuela, Jordânia, Tailândia, Egito, Tanzânia, Índia, Tunísia, Paquistão, Maldivas, Quirguistão, Tajiquistão, Marrocos, Bangladesh, Namíbia, Lesoto, Peru, Catar, Uzbequistão, Malásia, Emirados Árabes Unidos, Armênia, Bahrein, Arábia Saudita, China, Congo e México.
Esporte como ferramenta russa
Segundo analistas ouvidos pelo Metrópoles, a Rússia possui um histórico esportivo muito extenso, assim como a utilização do esporte como ferramenta de promoção da imagem do próprio país diante do mundo — assim como internamente. Uma tática herdada da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
“A Rússia, na época União Soviética, empregou os desportos, fundamentalmente os esportes olímpicos, como uma grande ferramenta de promoção da imagem da superpotência socialista, como instrumento daquilo que nós chamamos hoje de soft power, para promover uma imagem positiva do país, além de responder a pressões internas que vinham do público doméstico”, explica o professor do curso de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e coordenador da Liga acadêmica de Relações Internacionais da UFPI, Elton Gomes.
A estratégia, contudo, não é uma exclusividade da extinta União Soviética ou da Rússia.
“Vários países fazem isso “, explica Tanguy Baghdadi, professor de Política Internacional e criador do podcast Petit Journal. “É a lógica, por exemplo, de países que não têm muita tradição esportiva, mas sediam Copas do Mundo, como o Catar em 2022, e a Arábia Saudita em breve, em 2034. Você chama atenção por uma lógica de organização, de ser capaz de organizar o esporte, de associar a sua imagem a um elemento de emoção”.
Nos últimos anos, contudo, a projeção internacional da Rússia sofreu um baque após o banimento de competições esportivas.
Desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022, o país está impedido de participar dos principais eventos esportivos do mundo, como as Olimpíadas de Verão e Inverno, e a Copa do Mundo de Futebol.
No caso dos Jogos Olímpicos, atletas da Rússia receberam aval para competir, mas como Atletas Individuais Neutros (AIN) — sem representarem a bandeira russa.
Já na principal competição de futebol do mundo, o país liderado por Vladimir Putin segue banido. Isso porque a Rússia também está proibida de participar de competições organizadas pela União das Associações Europeias de Futebol (UEFC), como as eliminatórias para a Copa.
