Caso Brenda expõe drama de pacientes em UPAs esperando transferência em MG
Além da morte da paciente Brenda Larissa Maia, familiares denunciam demora em transferências e dificuldades para acesso a leitos
atualizado
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Belo Horizonte – Corredores com pacientes aguardando atendimento por horas, consultórios vazios, ausência de profissionais de saúde e pacientes deitados em macas nos corredores.
O vídeo gravado por Brenda Larissa Maia, que morreu na UPA Justinópolis, em Ribeirão das Neves, expôs um cenário enfrentado por outras pessoas que aguardam atendimento especializado e transferência para hospitais da Grande Belo Horizonte.
Entre elas está Márcia Andréa de Carvalho Rocha, de 55 anos, internada na unidade desde quarta-feira (3/6) com os dois rins comprometidos, anemia severa e necessidade urgente de hemodiálise e transfusão de sangue. Ela está na UPA onde Brenda morreu.
Nas redes sociais, nesta segunda-feira (8/6), em meio à revolta provocada pelo caso de Brenda, a filha de Márcia Andréa, Michelly Vitória de Carvalho Rocha, de 24 anos, pedia ajuda para salvar a mãe, acionando autoridades e fazendo uma corrente de apoio.
“Essa moça faleceu ao lado da minha mãe ontem. Estamos correndo para transferi-la para um hospital de BH, porque aqui em Ribeirão das Neves não há um hospital que consiga atendê-la adequadamente. Sabe o que é pior? Mesmo em estado grave, as pessoas não conseguem transferência. Vidas estão em jogo, as pessoas estão morrendo e, ainda assim, nada é feito”, protestou ela.
Michelly contou que a família foi informada sobre a gravidade do quadro na quinta-feira (4/6). “Me disseram que ela precisa de uma transferência para algum hospital de Belo Horizonte porque aqui em Ribeirão das Neves não tem nenhum hospital que consiga atender”, relata. Segundo ela, desde então, a justificativa apresentada é a falta de vagas.
“Falaram que o sistema ‘robotizou’, que não está tendo vaga nos hospitais de BH e que o São Judas [em Ribeirão das Neves] não consegue resolver o problema dela”, afirma.
A vereadora Marcela Menezes também acompanha esse caso. Ela avaliou que a UPA prestou a assistência necessária, incluindo a solicitação de transferência da paciente para um CTI com hemodiálise.
Segundo ela, o principal problema está na regulação de vagas hospitalares, que classificou como “falha, pouco transparente e sem perspectivas de quando a vaga pode sair”. Até 16h20, Márcia não havia sido transferida.
Protestos
“Infelizmente, o quadro da Brenda parece ter sido uma situação que deveria ter sido manejada pelo município. Eu não consigo dizer se o atendimento foi adequado ou não, mas, diante das denúncias, estamos tomando providências. Recebemos constantemente reclamações sobre as UPAs de Justinópolis e do Centro de Neves, envolvendo falta de materiais e insumos, problemas em equipamentos e dificuldade para manter o quadro de profissionais”, disse a vereadora Marcela Menezes (PT).
Informações sobre o atendimento de Brenda
Diante disso, a parlamentar enviou um ofício à Secretaria Municipal de Saúde da cidade pedindo esclarecimentos sobre a morte. No documento, ela solicita informações sobre o atendimento prestado à paciente, incluindo horários, procedimentos realizados, condições de atendimento na unidade e possíveis problemas de estrutura ou falta de insumos.
A vereadora também solicitou informações sobre os profissionais de plantão e sobre possíveis investigações abertas para apurar o caso.

Em nota, a Prefeitura disse que Brenda recebeu atendimento, realizou exames e permaneceu em observação na UPA Acrízio Menezes. Segundo o município, a paciente sofreu uma parada cardiorrespiratória durante o atendimento e, apesar das tentativas de reanimação realizadas pela equipe médica, morreu na unidade.
A administração municipal também afirmou que a UPA contava com quadro clínico completo, mas não especificou o número de profissionais que estavam de plantão.
Ampliar a cobertura da atenção primária
A vereadora avaliou que os problemas enfrentados na saúde da cidade refletem falhas estruturais na rede de atendimento, especialmente na atenção primária.
“A saúde de Ribeirão das Neves passa por muitas dificuldades. A começar pela baixa cobertura da saúde da família, o que dificulta a prevenção de doenças e a promoção da saúde. Na prática, a pessoa precisa ficar ruim para buscar a emergência. Isso gera lotação nas UPAs e no hospital. É preciso ampliar urgentemente a cobertura da atenção primária.”
Ela também afirmou que o crescimento populacional da cidade não foi acompanhado pela estrutura de urgência e emergência.
“Nossa cidade cresceu muito nas últimas décadas, mas a urgência e emergência não acompanhou esse crescimento. Faltam profissionais, equipamentos e estrutura adequada de atendimento. A saúde precisa receber atenção prioritária da gestão municipal. Infelizmente, a comoção costuma acontecer quando há mortes, mas precisamos nos mobilizar antes disso.”
Problemas na regulação de vagas hospitalares
Na avaliação da parlamentar, o caso vai além da situação expõe gargalos enfrentados por moradores de Ribeirão das Neves que dependem de transferências para hospitais de maior complexidade.
”Como municípios da Região Metropolitana, como Ribeirão das Neves, são atendidos em relação a essas vagas? É justa essa distribuição? O que sentimos em Ribeirão das Neves é que somos escanteados diante das vagas concentradas em Belo Horizonte. Não dá para um quadro de tamanha urgência como o da senhora Márcia ficar aguardando tanto tempo na UPA. Não podemos perder mais vidas.”
A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) e aguarda um posicionamento sobre o funcionamento da regulação de vagas.
Também procurou a Prefeitura de Ribeirão das Neves para obter informações sobre o estado de saúde de Márcia Andréa e aguarda retorno.