Barbacena fecha antigo manicômio e encerra 115 anos de horror em MG
Governo de Minas transfere os 14 últimos pacientes psiquiátricos remanescentes do antigo Hospital Colônia para residência terapêutica
atualizado
Compartilhar notícia

Belo Horizonte — Após 115 anos de história marcada por sofrimento, superlotação e violações de direitos, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (antigo Hospital Colônia) encerrou definitivamente nesta segunda-feira (25/5) sua era manicomial. Os últimos 14 pacientes de longa permanência deixaram o local e foram transferidos para uma residência terapêutica, onde viverão com mais dignidade, acolhimento e cuidados humanizados.
“É o fim de uma era. É um fato histórico que escreve uma nova página na saúde mental do Brasil. Encerramos um ciclo de privação de liberdade para que ninguém mais viva dessa forma”, declarou emocionado o enfermeiro intensivista Dr. Mário Antônio Resende, que trabalhou diretamente com esses pacientes por mais de 14 anos.
O peso de uma história dolorosa
Inaugurado em 1903 como Sanatório de Barbacena para tratamento de tuberculose, o espaço se transformou em 1911 no Hospital-Colônia, o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais. Ao longo do século XX, tornou-se um dos maiores e mais controversos manicômios do país.
Em seu auge, abrigou simultaneamente até 3.500 pacientes. Entre 1942 e 2020, cerca de 40 mil pessoas passaram pela instituição e mais de 24 mil morreram. Muitos foram internados por motivos que hoje seriam impensáveis: pobreza, abandono familiar, comportamentos considerados “inadequados” ou sofrimento psíquico leve.
O local ficou nacionalmente conhecido como símbolo de um modelo assistencial baseado no isolamento e na exclusão social.
Parte dessa memória sombria está preservada no Museu da Loucura, que serve como alerta para que o passado não se repita.

O testemunho de quem viveu de perto
Dr. Mário Antônio Resende, enfermeiro intensivista desde 2011 e gerente de internação do Complexo Hospitalar de Barbacena, acompanhou de perto todo o processo de desinstitucionalização dos últimos pacientes. Idosos, com média etária de 73 anos e diversas comorbidades, agora eles vão receber cuidado familiar, com carinho e dignidade.
“O sentimento foi de muita alegria e gratidão. Todos ficamos emocionados. Esses 14 pacientes passaram em média 49 anos internados. Alguns chegaram ainda crianças. Encerramos um processo longo de desinstitucionalização e conseguimos reinseri-los na sociedade com liberdade.”
O enfermeiro reforça o papel fundamental de toda a equipe multiprofissional que cuidou desses pacientes nos últimos anos: “Eles foram muito bem cuidados. Agora, fora do ambiente hospitalar, vão continuar recebendo acompanhamento especializado em uma residência terapêutica preparada para eles.”

Um novo modelo de cuidado
Desde 2019, o Governo de Minas, por meio da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) e Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), vem realizando a desinstitucionalização gradual. Ao todo, 68 pacientes já haviam recebido alta para Serviços Residenciais Terapêuticos nos municípios de Barbacena, Antônio Carlos, Carandaí e Ibertioga. Os 14 últimos representam o encerramento definitivo dos leitos de longa permanência no antigo Hospital Colônia.
O Complexo Hospitalar de Barbacena continua funcionando normalmente, agora com foco em serviços de alta complexidade: 90 leitos hospitalares (20 de UTI), urgência e emergência, referência em trauma, AVC, neurocirurgia e traumato-ortopedia. O ambulatório realiza cerca de mil consultas por mês, além de 30 leitos psiquiátricos para casos agudos com média de permanência de até 21 dias.
Um marco para a saúde mental mineira
O ato simbólico realizado nesta segunda-feira (25/5) incluiu a apresentação de um painel com as mãos dos pacientes e o fechamento de uma porta com cadeado, representando o fim de um modelo assistencial ultrapassado. O Governo de Minas investiu mais de R$ 718 milhões em saúde mental nos últimos anos, sendo R$ 100 milhões somente em 2025, e hoje conta com 453 CAPS em todo o estado.

O que era um símbolo de exclusão e sofrimento agora dá lugar a um cuidado em liberdade, com moradia, proteção e respeito à dignidade humana. Para os 14 sobreviventes do antigo Hospital Colônia, começa uma nova etapa de vida — longe dos muros que os aprisionaram por décadas.