UFJF pede desculpas por uso de corpos do Hospital Colônia de Barbacena
A UFJF reconheceu que participou de “um dos episódios mais graves de violação de direitos humanos”; mais de 160 corpos foram usados
atualizado
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Belo Horizonte — A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) pediu desculpas publicamente por ter recebido e utilizado mais de 160 cadáveres de pacientes do Hospital Colônia de Barbacena entre as décadas de 1960 e 1980. Os corpos eram usados, principalmente, em atividades de ensino e pesquisa na área de anatomia.
Em nota divulgada nesta semana, a instituição reconheceu participação em um dos episódios mais graves de violação de direitos humanos ligados à saúde mental no Brasil. O Hospital Colônia ficou conhecido nacionalmente após denúncias sobre maus-tratos, mortes e internações compulsórias em massa, caso retratado no livro Holocausto Brasileiro.
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“Por ter participado de um dos momentos mais graves de violação dos direitos humanos em saúde mental no Brasil, a UFJF vem a público se desculpar”, afirmou a universidade.
Além do pedido público de desculpas, a instituição anunciou medidas de reparação e memória. Entre elas, estão ações para fortalecer iniciativas ligadas à luta antimanicomial e o lançamento de um documentário produzido pela Diretoria de Imagem Institucional da universidade sobre o tema.
Inquérito
O posicionamento da UFJF ocorre dias após o Ministério Público Federal (MPF) instaurar um inquérito civil para investigar a aquisição histórica de corpos de pacientes do Hospital Colônia por instituições de ensino superior em Minas Gerais.
A investigação mira, inicialmente, a Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Segundo portaria assinada pelo MPF, a instituição teria recebido 105 corpos provenientes do hospital psiquiátrico mineiro.
Na decisão, os procuradores afirmam que obras históricas apontam a “comercialização de corpos de internos para instituições de ensino superior” como uma das violações ocorridas no Hospital Colônia.
Fundado em 1903, o Hospital Colônia de Barbacena foi considerado o maior hospital psiquiátrico do país. Estimativas citadas pelo MPF apontam que cerca de 60 mil pessoas morreram na instituição ao longo de sua existência.
O MPF também informou que a Universidade Federal de Minas Gerais já concordou em adotar medidas reparatórias relacionadas ao recebimento de corpos do Hospital Colônia. Entre as ações estão pedido público de desculpas, criação de espaços de memória, inclusão do tema em disciplinas do curso de medicina e restauração de livros históricos de registros de cadáveres.
O novo inquérito civil terá prazo inicial de um ano para conclusão.
