Coronavírus: sem informações, vamos para a antessala da anarquia

Brasil agia muito bem no trato do Covid-19. Hoje, a coisa complicou de vez. Não se sabe o que é advertência prudente e o que é histeria

atualizado 12/03/2020 16:45

Um aspecto perturbador da invasão do mundo pelo coronavírus é o fato de que em todos os países, sem exceção, não há um entendimento claro, tanto do ponto científico quanto dos pontos de vista político, econômico e social, sobre o que está realmente acontecendo. Vamos encarar a verdade. Bilhões de pessoas, que naturalmente não sabem nada sobre infectologia, patogenia ou organismos acelulares, olham automaticamente na direção de quem deveria saber, com uma pergunta essencial: o que eu faço? As pessoas que deveriam saber são os médicos, de um lado, e as autoridades públicas, de outro – e, naturalmente, a mídia e a internet, que repetem para as pessoas o que os médicos e governos estão dizendo, e mais um milhão de coisas que não se sabe direito de onde vêm.

O problema é que os médicos não estão habituados, nem treinados, e nem qualificados como comunicadores profissionais para falar em público em situações como essa – que, além do mais, são inéditas. As autoridades, por sua vez, podem saber falar ao público – mas em geral não sabem do que estão falando. O resultado é esta confusão que começa a se formar, vai crescendo com rapidez a cada dia ou hora que passa e pode levar a todos a um quadro de calamidade.

Soma-se a isso um dos vícios mais perigosos e antigos do ser humano: a “interpretação”. Na falta de conhecimento real, cada um sai por aí tomando as decisões e providências que julga melhor. Empresas, entidades, organizações, clubes, universidades, escolas primárias, bancos, famílias e qualquer sujeito que manda em alguma coisa, do ministro da Saúde ao guarda da esquina, começam a decidir que isso ou aquilo tem de ser feito, ou que está proibido. Pronto: temos aí a antessala da anarquia, estimulada por manifestações crescentes, múltiplas e repetidas de pânico. É para onde estamos indo.

O Brasil, até duas semanas atrás, estava agindo muito bem no trato do coronavírus. Hoje, a coisa complicou de vez. Não se sabe mais o que é advertência prudente e o que é histeria. Não se sabe mais o que é ciência e o que é curiosidade. Não se sabe se é possível tomar um avião, trabalhar ao lado de outras pessoas ou ir a um jogo de futebol. Quando o próprio presidente da República passa a ser clinicamente observado – bem, aí o céu é o limite.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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