Artigo: precisamos parar de romantizar o assédio nas cozinhas

É necessário parar de tratar isso com normalidade ou como algo "necessário" no ambiente de trabalho

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atualizado 09/08/2019 14:32

Já tratei aqui sobre o relacionamento em cozinhas profissionais, o deboche, a pressão e até mesmo os transtornos mentais que sofrem os cozinheiros. Mas pulei o mais básico e antigo: o desrespeito. Um dia me questionaram no Instagram se eu gostava mais de chefiar uma cozinha ou ser da linha de produção. Respondi chefiar. Recebi uma mensagem que dizia “eu também, é bom demais mandar“. Ao que respondi: “Chefiar não é mandar: é organizar, respeitar, ter logística e manejar bem uma equipe”. Tocar uma cozinha não é mandar.

A gastronomia, desde que existe como mercado profissional, é uma área de grande pressão. Os pratos devem sair rápido, perfeitos e o trabalho é grande, tanto psicológica quanto fisicamente. Sua hierarquia, desde que foi instituída por Auguste Escoffier (chef que elaborou o processo industrial da cozinha, usado até hoje), é extremamente baseada no militarismo.

O chef tem essa figura de louco gritalhão e estressado, algo realmente comum e usual. Convenhamos, essa era a visão normal do chefe de qualquer área, mas isso mudou na estrutura de trabalho. Não é mais novidade para ninguém que essa figura deu lugar ao líder no escritório. Viu-se que é mais efetivo instruir do que gritar, corrigir educadamente e estimular melhora ao invés de humilhar, parabenizar o acerto ao invés de evidenciar a todos o erro e gerar vergonha. A figura que chefia deve ser admirada e gerar desejo na equipe de segui-la e não por medo.

Isso tem se desenvolvido bem em vários ambientes e, mesmo onde não ocorre, é consenso que deveria. Porém, por alguma razão, na cozinha ainda se romantiza essa situação. Acha-se lindo em programas de televisão e realities mostrar os jurados humilhando participantes, gritando com eles, chamando sua comida de lixo, desvalorizando seu trabalho.

Mas pode?

Aí você me diz: “É apenas pelo show”. E pode até ser, mas fato é que esse movimento estimula as pessoas na cozinha a seguirem o antigo modelo, além de encher o olho de quem está estudando gastronomia para seguir o mesmo caminho profissionalmente. E mesmo que fosse apenas pelo apelo lúdico, não deveria existir. Não repudiamos piadas preconceituosas ou discriminatórias em esquetes de comédia? Então por que justificar isso?

Claude Troisgros já relatou que seu futuro programa que irá ao ar na Globo não seguirá essa linha, não é no que ele acredita. Outros chefs de renome, como era o caso de Anthony Bourdain e Tom Colicchio, também se manifestaram nesse mesmo sentido. Tom, inclusive, é jurado da versão norte-americana de Top Chef e consegue de forma coerente ser exigente sem precisar rebaixar os participantes ou seus trabalhos. Já passamos do tempo de continuar romantizando ou abalizando essas atitudes em nome do entretenimento.

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