Diretor de filme sobre eleição de Bolsonaro defende Ancine

Em entrevista ao Metrópoles, diretor Josias Teófilo critica conterrâneos do cinema pernambucano e diz que MBL faz "jogo duplo"

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atualizado 26/07/2019 15:32

Para todos os efeitos, o filme do momento no Brasil não vem de Hollywood nem bateu recordes bilionários de bilheteria. Aliás, ele nem sequer chegou às telas e já virou assunto no noticiário cultural e político. Trata-se de Nem Tudo se Desfaz, proposto pelo diretor Josias Teófilo como um documentário ensaístico sobre o país nos últimos anos: dos protestos de junho de 2013 à eleição de Jair Bolsonaro a presidente da República.

O pernambucano, que estreou em longas com O Jardim das Aflições (2017) – perfil de Olavo de Carvalho, professor de filosofia e guru ideológico do governo, financiado via crowdfunding – detalhou o projeto e sua visão de cinema em entrevista ao Metrópoles (leia abaixo).

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Na conversa, criticou cineastas conterrâneos, como Kleber Mendonça Filho (Bacurau) e Gabriel Mascaro (Divino Amor), e relativizou a importância do Movimento Brasil Livre (MBL) para o conservadorismo. Entre outras coisas, chegou a defender a extinção da Universidade de São Paulo (USP) e listou seus filmes favoritos de todos os tempos. Antes, vamos contextualizar um pouco.

Apoio da Ancine, Bruna Surfistinha e contradições

Ainda sem previsão de estreia nos cinemas, o filme foi anunciado no começo de julho, pouco antes de o governo Bolsonaro anunciar mudanças drásticas na Agência Nacional de Cinema (Ancine). Em poucos dias, o presidente usou Bruna Surfistinha (2011) como exemplo de projeto no qual não admitiria investimento público e ameaçou fechar o órgão caso não consiga reestruturá-lo.

A mudança da direção da agência, do Rio de Janeiro para Brasília, evidenciou a postura do pesselista em relação ao audiovisual brasileiro: monitorar a produção e vetar o que considera ativismo ideológico e político. Apoiador de Bolsonaro, Teófilo mostrou-se reticente com o possível fim da Ancine. No Twitter, escreveu: “O governo não deve definir o que deve virar filme ou não”.

Mas, como tem sido praxe na política nacional em 2019, as reviravoltas desafiam qualquer cobertura. Dias depois, descobriu-se que a própria Ancine, alvo preferencial de Bolsonaro, autorizou Teófilo a captar R$ 530 mil para Nem Tudo se Desfaz.

Nas redes sociais, Teófilo se explicou, dizendo que o documentário “não é sobre Bolsonaro, mas sobre as causas da eleição de Bolsonaro”. “Nunca ouvi falar que a Lei do Audiovisual seja exclusiva para esquerdistas”, justificou-se. Em seu ambiente favorito, a internet, o presidente tuitou sugerindo que a verba para o filme seria cancelada e fez live reforçando sua posição: “Não tem filme com Bruna Surfistinha nem com Jair Bolsonaro”, escreveu o pesselista, que segue Teófilo no Twitter.

No mais recente desdobramento, Teófilo disse à colunista Mônica Bergamo, da Folha, que o presidente sugeriu que ele desistisse da captação de recursos públicos. O diretor afirmou que não voltaria atrás porque tem “todo o direito de captar”. “Não tenho culpa se o presidente é contra a Ancine e a Lei do Audiovisual. Eu sou a favor da Ancine e do cinema brasileiro”, falou o cineasta, que está à procura de apoio empresarial para o longa.

“Se a atitude do presidente fizer com que os patrocinadores desistam, vou pegar um avião e ir embora do Brasil”. Ao Globo, explicou que o fechamento da Ancine seria um “dilúvio” e poderia “acabar com o cinema brasileiro”. Leia entrevista completa de Josias Teófilo ao Metrópoles:

Você já pensava em tocar um projeto sobre o Brasil pós-protestos de 2013 antes da eleição de Bolsonaro?

Já sim, mas o projeto não tinha ainda tomado a forma atual.

Qual aprendizado O Jardim das Aflições trouxe para que, já em seguida, você fizesse um longa sobre esse período do país?

Aprendi que posso colocar um grande conteúdo intelectual em um filme e ainda assim a obra ser compreendida e apreciada pelo público em geral.

Você defende posição crítica ao que considera uma hegemonia de esquerda no cinema (e na cultura) nacional. Enxerga uma mudança de paradigma nos últimos anos? Acha que existe uma geração de jovens artistas de direita atuantes no país? Que contribuições esse contraponto tem dado à cultura brasileira?

Infelizmente, não. As coisas parecem permanecer do mesmo jeito, ou pior. A esquerda está em um processo de recrudescimento de suas posições, das questões identitárias na arte. E a direita tende a fazer filmes retóricos/publicitários, o que é lamentável.

Essa nova direita, desde 2013, costuma ser associada a grupos como o MBL, que tem criticado o governo. Como você avalia essa heterogeneidade do conservadorismo atual?

Acho que o MBL não tem a ver com conservadorismo, apesar de alguns de seus membros terem posições conservadoras – como Fernando Holiday, cujo trabalho eu admiro. Na verdade, o MBL vive uma crise de identidade: se eles disserem o que acham de fato sobre o governo e sobre Olavo [de Carvalho], vão perder seguidores e ocupar um nicho mínimo. Só resta para eles jogar esse jogo duplo.

O governo Bolsonaro completou seis meses há pouco, não sem colecionar decisões vistas como polêmicas. Quais os principais acertos e erros do novo presidente?

Toda vez que o governo assume as posturas conservadoras da população brasileira, a mídia as classifica como polêmicas. Não acho que liberar a posse de arma seja uma decisão polêmica, por exemplo. O direito de autodefesa é um direito fundamental. Talvez inclusive por ações como essa a criminalidade tem diminuído, o que já é um resultado palpável e fundamental. Mas não sou a pessoa mais indicada para analisar o governo, leia os posts de Eduardo Matos de Alencar e terá uma visão melhor.

Pairam questionamentos sobre a atuação do presidente nos campos da educação e da cultura. Como artista e apoiador de Bolsonaro, qual futuro você vislumbra para estudantes e agitadores culturais no país?

Gostaria de ver a USP extinta.

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O clássico Limite (1931), de Mário Peixoto: filme brasileiro favorito de Josias Teófilo

Na última década, o cinema pernambucano tem sido elogiado e premiado. Qual sua opinião geral sobre os filmes dos conterrâneos? Enxerga quais virtudes e fraquezas?

O cinema pernambucano é elogiado e premiado exatamente porque faz o que se espera em festivais internacionais. Ou seja, temáticas identitárias regionais, estranhezas sexuais, provocações à elite brasileira e a um suposto conservadorismo, alguns elementos de falso experimentalismo. Aquarius e os filmes de Gabriel Mascaro são todos assim. Não é estranho que eles sejam selecionados em festivais e ganhem prêmios, eles foram feitos exatamente para serem selecionados em festivais e ganhar prêmios.

Há uns dois anos você anunciou dois novos projetos da Lavra Filmes: documentários sobre Tarkovski e Danilo Gentili. Em que pé estão essas produções?

O filme sobre Tarkovski eu pretendo realizar logo após o Nem Tudo se Desfaz. O projeto com Gentili foi cancelado.

Por curiosidade cinéfila: quais seus três ou cinco filmes favoritos? E os nacionais preferidos?

O Mensageiro do Diabo, Andrei Rublióv, Portal do Paraíso, O Inocente, Grey Gardens. Nacional: Limite.

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